Serra diz esperar que Jucá volte a ser ministro: 'É meu sincero desejo'

Marcia Carmo - BBC Brasil, Buenos Aires

Durante visita à Argentina, o ministro José Serra (Relações Exteriores) afirmou esperar que o colega Romero Jucá volte ao governo.

Sob pressão após a repercussão de gravações em que diz ser necessário "estancar a sangria" da Operação Lava Jato, Jucá anunciou que deixará o Ministério do Planejamento nesta terça.

Nos áudios divulgados pelo jornal Folha de S.Paulo, ele fala a Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, sobre um possível "pacto nacional" para "delimitar" as investigações. Em entrevistas, ele negou que fosse esse o contexto da conversa, mas mais tarde acabou anunciando que se licenciaria do cargo.

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Em Buenos Aires para reuniões com a chanceler Susana Malcorra, o ministro da Fazenda Alfonso Prat-Gay e o presidente Mauricio Macri, Serra elogiou a atuação de Jucá, apontado como um dos homens fortes do presidente interino Michel Temer.

"O senador Romero Jucá vinha tendo excelente desempenho como ministro. O que espero é que ele resolva os problemas que o levaram a pedir licença e volte (a ser ministro). É meu sincero desejo", disse a jornalistas na embaixada do Brasil na capital Argentina.

Serra havia citado o peemedebista especialmente em seu discurso de posse no Itamaraty, na semana passada.

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Protestos

Após realizar um protesto em frente à embaixada no domingo, dia da chegada do tucano a Buenos Aires, manifestantes voltaram a fazer barulho nesta segunda no local e no Palácio San Martín, sede do Ministério das Relações Exteriores argentino.

O esquema de segurança foi reforçado, e o chanceler entrou e saiu pelas entradas laterais do palácio.

O grupo de manifestantes, formado por brasileiros e argentinos, portava bandeiras da agremiação política La Campora, vinculada ao kirchnerismo, que governou o país entre 2003 e 2015, e entoava gritos de "Fora, golpista".

Cartazes traziam o rosto de Serra, em preto e branco, e a frase "Se busca José Serra canciller de Brasil. Golpista" ("Procura-se José Serra, chanceler do Brasil. Golpista", na tradução do espanhol).

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A presidente afastada Dilma Rousseff era próxima de Cristina Kirchner, que foi sucedida em dezembro por Macri, seu opositor. Mas, apesar de se chamarem publicamente de "amigas", elas mantinham "pouco diálogo", segundo fontes dos dois países.

Questionado sobre o significado da manifestação, que podia ser ouvida de algumas áreas do salão onde estava, Serra respondeu: "Protesto? nenhum significado".

Ao falar sobre os governos e setores da América Latina que criticaram o afastamento de Dilma, ele voltou a afirmar que existe "desinformação" sobre o que ocorreu no país.

"Acho que existe uma onda de desinformação sobre o Brasil. O que ocorreu foi um processo traumático, mas absolutamente dentro da legalidade e da Constituição. E qualquer um que vai ao Brasil sabe que o país vive a mais perfeita normalidade democrática. E nós dentro na medida do possível esclarecemos tudo isso quando somos perguntados", declarou.

Segundo Serra, um impeachment não é "realmente não é um processo confortável".

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Em meio à revelação das gravações de Jucá sugerindo um "pacto nacional" que incluiria o STF (Supremo Tribunal Federal), o chanceler elogiou a atuação da corte.

"Nunca foi considerado partidário ou coisa desse tipo", afirmou, antes de acrescentar que as votações na Câmara e no Senado, que levaram à admissibilidade do processo de impeachment, ocorreram "dentro da legalidade".

Região

O ministro disse que "não está programado" conversar com os governos da Bolívia, do Equador e da Venezuela, que criticaram o processo político brasileiro, antes da reunião do Mercosul, prevista para julho no Uruguai.

O tom das notas do Itamaraty em resposta às críticas foi considerado duro e dividiu opiniões entre os diplomatas brasileiros.

"Não está programado, mas não excluo a possibilidade. As questões de relações exteriores estão ligadas ao conjunto de interesses da nação e do país."

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Serra voltou a defender a "flexibilização" do bloco, para que seus integrantes possam realizar acordos de livre comércio.

Questionado sobre uma previsão para as medidas serem implementadas, considerando que o governo é interino, respondeu que seu objetivo é "trabalhar e trabalhar e trabalhar", independentemente do prazo limite de 180 dias para que Dilma fique afastada aguardando julgamento.

Segundo o tucano, a Argentina será o primeiro país que Temer deverá visitar. Fontes diplomáticas afirmam que ele e Macri ainda não se falaram desde sua posse como presidente interino.

O Brasil foi o primeiro país que Macri visitou após ser eleito. Questionados em diferentes ocasiões sobre a crise do então governo Dilma, ele e sua chanceler afirmaram que "respeitariam o processo político brasileiro". Houve conversas com assessores da petista até poucos dias antes de seu afastamento.

Venezuela

Serra contou que a crise venezuelana foi um dos temas abordados com as autoridades argentinas.

"A crise é gravíssima e procuramos definir de forma conjunta a situação mais adiante", disse. Pouco depois de deixar o salão, acrescentou aos jornalistas que "algo precisa ser feito" para "encontrar um caminho de conciliação" para evitar que ocorra o desencadeamento de um processo de "violência generalizada" no país presidido por Nicolás Maduro.

De acordo com o chanceler, o governo interino não assinou o comunicado conjunto de Argentina, Uruguai e Chile, no qual é defendido um "diálogo urgente" na Venezuela, devido ao momento vivido pelo próprio Brasil.

"O Brasil não assinou o comunicado pelas questões particulares (que vive). Pela maneira como o governo da Venezuela fez referência ao governo brasileiro. Isso naturalmente exigiu uma posição mais de análise antes de tomar atitude."

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