Feminismo poderia ter salvado Marilyn Monroe, diz biógrafa de atriz

Laís Modelli - De São Paulo para a BBC Brasil

Marilyn Monroe completaria hoje 90 anos se estivesse viva. A estrela de Hollywood morreu jovem, aos 36 anos. A causa oficial foi uma overdose de barbitúricos, mas a morte desperta controvérsia até hoje.

Marilyn foi encontrada em sua casa na Califórnia, em 5 de agosto de 1962, segurando o telefone. Ao lado, um vidro de tranquilizantes. A imprensa divulgou que ela havia se suicidado, mas biógrafos da atriz e jornalistas desmentiram a versão oficial posteriormente.

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A pesquisadora americana Lois Banner, autora da mais recente biografia da atriz, Marilyn: The Passion and the Paradox ("Marilyn: A Paixão e o Paradoxo", em tradução livre), diz que a morte pode ter tido relação com o caso amoroso da estrela com o então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy (1917-1963).

Um ponto suspeito, diz a autora, é que a empregada de Marilyn, consultada para o livro, contou que Robert Kennedy, irmão do presidente, visitou a atriz um dia antes de ela morrer.

Mas Banner não conseguiu provar essa versão, e não descarta que a morte possa ter sido acidental, pois a atriz costumava tomar remédios para dormir e vivia numa espécie de montanha-russa emocional.

O fato é que até hoje a morte de Marilyn é um caso não solucionado.

Socialista

Professora de história da Universidade do Sul da Califórnia, Banner descreve uma Marilyn Monroe diferente daquela consagrada por Hollywood. Retrata uma mulher com consciência política e feminista apurada, que ia além do rótulo de símbolo sexual.

"Ela defendeu o movimento dos direitos civis, mesmo não tendo apoiado de maneira pública, e tinha uma postura política radical de esquerda", disse a pesquisadora em conversa via e-mail com a BBC Brasil.

Em 2013, o FBI tornou públicos documentos que apontavam que Marilyn havia sido investigada nas décadas de 1950 e 1960. A suspeita: integrar o Partido Comunista.

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Um de seus maridos, o dramaturgo Arthur Miller, era militante de esquerda. As investigações teriam se intensificado em 1962, quando a atriz fez um pedido de visto para visitar a Rússia.

O envolvimento de Marilyn com o comunismo, porém, nunca foi provado.

"Marilyn tinha muitas faces. Uma delas é que era muito inteligente. Também era politizada", afirma Banner.

Feminismo em Marilyn

"Eu argumento no livro que se o movimento feminista existisse naquela época, poderia tê-la ajudado muito. O fato é que não existia nada em que ela pudesse se apoiar para se defender da opressão de gênero que sentia", diz Banner, que é especialista em história de gênero.

Para a pesquisadora, uma das explicações da morte de Marilyn é que foi um ato acidental, em um momento de desespero emocional, uma vez que Marilyn tomava barbitúricos para controlar a ansiedade e a insônia.

"Ela sofria muito com o machismo da época. Enquanto todos os homens de Hollywood queriam dormir com ela, eles também a chamavam de 'puta' por dormir com quem quisesse. Seus relacionamentos também não foram fáceis: Joe DiMaggio surrava Marilyn, enquanto Kennedy a tratou de maneira terrível."

O nome verdadeiro de Marilyn Monroe era Norma Jeane Mortensen. Ela foi abandonada pela mãe, que não tinha condições mentais de cuidar da filha, e foi criada em orfanatos e por amigos da família.

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Declarou ter sofrido abuso sexual durante a infância. Casou-se aos 16 anos como solução para sair do orfanato, mas divorciou-se aos 20 anos e começou a atuar como atriz por necessidade financeira.

Em 1949, após passar meses desempregada, topou posar nua e virou capa da revista "Playboy". Casou-se mais duas vezes: com o jogador de beisebol Joe DiMaggio e com o dramaturgo Arthur Miller. Ambas as uniões terminaram em divórcio.

Banner ressalta que Marilyn morreu um ano antes de a jornalista Betty Friedan publicar A Mística Feminina, obra considerada um dos principais motores da segunda onda feminista no Ocidente.

"Ela teve muitas posturas consideradas feministas para a época, mas o fato é que até sua morte o movimento feminista ainda não existia."

Uma das ações feministas de Marilyn foi criar sua própria produtora, com mulheres ocupando metade dos cargos, como estratégia para driblar a dominação dos homens em Hollywood.

A estrela também viveu antes da revolução sexual que marcou a segunda onda feminista, o que revela, para Banner, como ela estava à frente de seu tempo.

"Depois da morte de Marilyn, em 1962, logo estourou a liberação sexual feminina. Contudo, a figura da atriz caiu rapidamente no esquecimento, e sua popularidade só foi retomada em 1973, com a publicação da biografia de Norman Mailer. Apenas por isso não podemos estabelecer uma relação direta entre Marilyn e a revolução sexual da década de 1960", diz a pesquisadora.

O mito Monroe

Segundo a pesquisadora Annateresa Fabris, da Escola de Comunicação e Artes da USP, que estudou as representações visuais de Marilyn Monroe, a imagem da atriz foi transformada em mito somente após a sua morte.

Até então, diz, a atriz era vista como uma mulher manipulável por Hollywood e não dona de seu corpo.

"Por isso, não me parece que Marilyn Monroe tenha sido um exemplo para a libertação feminina na década de 1960", opina.

"Ela era vista no momento de sua morte como vítima do machismo, como uma mulher que pagara caro por ter tentado ser independente no plano profissional", afirma Fabris.

"É em fins da década de 1980 que surge a visão de uma Marilyn capaz de controlar o uso sexual do próprio corpo, em sintonia, aliás, com personagens interpretadas por ela em filmes como Os Homens Preferem as Louras, de 1953, e O Pecado Mora ao Lado, de 1955."

Para a biógrafa Banner, o movimento feminista poderia ter transformado a vida da estrela. "A falta de direcionamento fez de Marilyn uma imagem, e não uma líder."

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