Por que vítimas de acidente de trânsito são abandonadas à própria sorte na Índia

Preeti Jha

De Nova Déli

  • BBC Brasil

Quando acontece um acidente de trânsito, geralmente os transeuntes prestam socorro aos feridos ou pelo menos pedem ajuda, certo? Não na Índia. Em um país cujas estradas estão entre as mais perigosas do mundo, as vítimas frequentemente são deixadas à própria sorte. 

Próximo à sua motocicleta, Kanhaiya Lal acena desesperadamente por ajuda, mas motorista após motorista apenas desvia dele. Seu filho mais novo está ao lado dele, a filha e a esposa estendidas no chão. Minutos antes, todos viajavam na moto de Lal.

A cena, capturada em câmera de circuito interno e amplamente compartilhada na internet, mostra o sofrimento de uma família no norte da Índia em 2013. A aparente indiferença dos passantes deixou muitos indianos perturbados.

Quando a polícia finalmente acudiu, já era tarde para a esposa e a filha de Lal. As mortes acenderam um debate nacional, em que muitos destacaram o estado de "apatia pública" e alguns até falaram na "morte da humanidade".

Mas para o ativista Piyush Tewari, o problema não era falta de compaixão mas um sistema que desincentiva a prestação de socorro às vítimas de acidentes rodoviários.

Sua luta para tentar mudar esse sistema começou há dez anos, quando um primo de 17 anos foi atropelado na volta da escola.

"Muita gente parou, mas ninguém se dispôs a ajudar", diz Tewari. "Ele sangrou até a morte à beira de calçada."

O ativista buscou entender um comportamento repetido em todo o país: testemunhas que poderiam ter ajudado permaneciam paralisadas, sem fazer nada.

"A principal razão é o medo de ser intimidado pela polícia", explica Tewari. "Muitas vezes, se você ajuda alguém, a polícia suspeita que você esteja ajudando por culpa."

Uma pesquisa de 2013 indicou que 74% dos indianos provavelmente não prestariam socorro em um incidente rodoviário - sozinhos ou em grupo.

Outro temor é o de ser arrolado como testemunha em uma batalha legal - notoriamente arrastadas na Índia. E se ajudarem a levar a vítima para o hospital, o temor é o de acabar recebendo uma conta astronômica pelo tratamento médico.

Bom samaritano

Em países que contam com um sistema de emergência razoável, os passantes só precisam fazer uma ligação para chamar uma ambulância e fazer o possível para ajudar no bem-estar das vítimas.

Mas as ambulâncias são escassas na Índia, demoram para chegar e muitas vezes têm poucos equipamentos. Tewari diz que isso faz da Índia um país onde quem ajuda precisa se fazer de "bom samaritano".

E não é que não haja bom samaritanos na Índia, ele enfatiza. Em acidentes maiores, por exemplo, ferroviários ou explosões a bomba, "as vítimas são levadas para o hospital antes mesmo da chegada da polícia e dos jornalistas".

A grande diferença é que nos acidentes rodoviários normalmente há apenas uma ou duas vítimas, afirma o ativista. "As chances de ser injustamente culpado são maiores."

Após uma ação legal da SaveLIFE, a Suprema Corte indiana emitiu no ano passado uma série de orientações em casos de acidente: permitia que testemunhas alertassem os serviços de emergência de forma anônima e as eximia de responsabilidade criminal pelos incidentes.

Além disso, proibia a cobrança de pagamentos de testemunhas que levavam os feridos para o hospital.

Apenas dois meses mais tarde, no entanto, outro acidente rodoviário chocou a nação.

Trabalho incompleto

"Está vendo como eles só olham?", murmura Anita Kindal enquanto repassa, mais uma vez, as imagens do acidente que matou seu filho, Vinay.

O jovem de 20 anos havia sido atropelado por um carro que viajava velozmente no leste de Déli. O vídeo mostra uma multidão de gente rodeando Vinay, sem fazer nada.

A filmagem viralizou nas redes sociais, desencadeando um novo debate nacional. Foi mencionada até pelo primeiro-ministro, Narendra Modi, em seu pronunciamento mensal de rádio à nação.

"Se alguém o tivesse ajudado, talvez ele estivesse aqui hoje", lamente Anita Jindal. "Todo mundo me disse que eles tinham medo da polícia."

Em março, as orientações da Suprema Corte foram declaradas obrigatórias.

Para garantir que elas sejam cumpridas, a fundação SaveLIFE está fazendo uma campanha para que todos os 29 Estados e sete territórios indianos coloquem esses princípios em lei.

A escala do problema

• Quinze pessoas morrem por hora em acidentes rodoviários na Índia

• Vinte crianças são mortas por dia em acidentes rodoviários na Índia

• Um milhão de pessoas morreram nas estradas indianas na última década

• Cinco milhões de pessoas ficaram seriamente feridas ou incapacitadas após acidentes rodoviários na Índia na última década

• A Índia perde o equivalente a 3% do PIB por ano em acidentes rodoviários

Fonte: Fundação SaveLIFE, 2014

Shrijith Ravindran, CEO de uma cadeia de restaurantes, mal pode esperar que a legislação seja introduzida.

Em janeiro, ele se deparou com um idoso sangrando na rua na cidade de Pune, no oeste do país. A multidão ainda estava discutindo o que fazer, quando Ravindran colocou o homem em seu carro e o levou ao hospital.

O primeiro hospital lhe deu uma longa papelada para preencher antes de recusar o serviço.

O seguinte lhe deu ainda mais papelada. Ao todo, Ravindran passou três horas preenchendo documentos.

"Eles perguntam se você é parente. Quando você responde que não, eles não fazem nada", diz Ravindran. "Eles esperam até aparecer alguém que garanta o pagamento da conta hospitalar. Nisso se perde tempo valioso."

Quando o idoso finalmente recebeu tratamento, já era tarde. Ele morreu em decorrência de seus ferimentos.

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