O dia em que Muhammad Ali enfrentou (e derrotou) o Super-Homem

O ano é 1978 e Muhammad Ali se prepara para subir no ringue e medir forças com o mais poderoso homem da Terra. Na plateia, uma audiência para lá de VIP: estão ali os Beatles, o artista plástico Andy Warhol e ninguém menos que Batman.

Todos vieram para ver Ali enfrentar o Super-Homem.

A imagem está imortalizada na capa de Super-Homem v Muhammad Ali, uma edição especial da revista em quadrinhos do "Homem de Aço". A ilustração viralizou desde a última sexta-feira, quando foi anunciada a morte do ex-pugilista americano, considerado por muitos como o maior atleta do século 20.

  • Morre o lendário boxeador Muhammad Ali

A história por trás da idealização desse confronto imaginário revela muito sobre a história contemporânea dos EUA.

"Quando dois desenhistas americanos, Jerry Siegel and Joe Shuster, criaram o Super-Homem (nos anos 30), inicialmente como um vilão, eles não tinham a menor ideia de que em apenas três meses estariam vendendo um milhão de cópias de suas histórias. Os americanos queriam super-heróis", contou Neal Adams, desenhista da icônica capa e corroteirista de Muhammad Ali v Super-Homem, em entrevista à BBC.

Adams relatou que a ideia de colocar o titã da vida real e o personagem de ficção no ringue veio de um editor da DC Comics, Julius (Julie) Schwartz.

"Estávamos em uma reunião editorial e o Julie veio com a ideia."

Controvérsia

Em 1978, Ali já não estava mais no auge, mas ainda fazia história nos ringues - naquele ano, conquistaria pela terceira vez o título mundial dos pesos-pesados, um recorde na época.

  • Muhammad Ali foi 'bailarino' nos ringues e frasista perspicaz fora deles

A premissa idealizada por Adams era que a luta ocorreria a partir de uma invasão alienígena: a raça Scrub desafiou os terráqueos a enfrentar seu campeão. Se o representante terráqueo perdesse, o planeta seria destruído.

Recrutar o Super-Homem parecia lógico, mas na história Ali defendeu o argumento de que ele mesmo seria o representante ideal, especialmente porque o super-herói também era alienígena - nascido no planeta Krypton. E também reclamou da desvantagem para o "Homem de Aço", cujos poderes vêm da luz do sol.

A solução foi realizar um tira-teima em campo neutro e iluminado por uma estrela que transformou o Homem de Aço em um mero mortal. E a imagem abaixo mostra quem levou a melhor...

A história foi publicada em fevereiro de 1978, sete meses antes de Ali arrebatar o cinturão dos pesos-pesados pela última vez, derrotando Leon Spinks.

Mas o pugilista não era uma figura heróica para todos os americanos. Ali tinha causado imensa controvérsia ao se opor publicamente à Guerra do Vietnã, o que incluiu uma recusa em aceitar a convocação para o exército.

É bastante possível que os militares americanos fossem usar o esportista como garoto-propaganda e jamais colocá-lo em situações de combate, mas Ali nem quis ouvir a proposta.

Em 1967, quando os protestos contra a intevenção militar no Sudeste Asiático não eram significativos, as declarações de Ali causaram polêmica, ainda mais porque ele havia ainda se convertido ao islamismo.

  • Criador de herói brasileiro da Marvel sonha 'fazer justiça' com personagem

Nem mesmo o fato de que mais de dez anos tinham se passado quando a DC Comics publicou a revista fez com que a decisão de ter Ali lutando contra um homem branco tão simbólico como o Super-Homem fosse menos audaciosa, na opinião de Adams.

"Retratar Ali no mesmo nível do Super-Homem foi um ato político sutil", diz.

Há rumores de que os quadrinistas precisaram lidar com o conhecido ego de Ali, principalmente com sugestões editoriais como a de que, na história, ele descobriria a identidade secreta do Homem de Aço.

Adams nega isso. Oficialmente, o único pedido mais fora do comum feito pelo boxeador foi que a equipe da DC Comics aprovasse a história com o líder espiritual de Ali, o imã Elijah Muhammad.

Quando derrotou Spinks em setembro daquele ano, Ali deu uma entrevista coletiva em que recomendou aos presentes que comprassem Ali v Super-Homem. "Acabamos publicando a revista em todos os países democráticos do mundo", diz Adams.

"Até hoje encontro em convenções de quadrinhos fãs negros que trazem cópias da revista para que eu autografe. É algo que ainda me emociona muito."

Segundo o artista, Ali teria gostado da história e mesmo mostrado-a para amigos. Mas Adams lembra mesmo é do dia em que chegou perto do pugilista para tirar uma foto, momentos depois da luta com Spinks.

"Pus a mão em seu ombro e ele parecia feito de pedra. Ali irradiava poder e vigor."

A propósito: na história, Ali também derrota o campeão alienígena. Por nocaute no quarto round.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Newsletter UOL

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos