Boate em Orlando é referência na luta LGBT e de imigrantes

Colaboração de Laura Gil

De Orlando (EUA), para a BBC Mundo

Seja nas redes sociais ou em entrevistas à imprensa, as homenagens e depoimentos feitos por frequentadores revelam que a boate Pulse, alvo do atentado mais letal da história recente dos Estados Unidos, é referência não só na cena noturna de Orlando, mas também na luta pelos direitos da comunidade LGBT e de imigrantes.

Além disso, tem papel importante na conscientização sobre a prevenção e os riscos do HIV, o vírus causador da aids, algo que tem ligação direta com sua inauguração, em 2004.

Barbara Poma, uma das fundadoras, foi apresentada à cena gay e ao mundo da moda por seu irmão, John, conta seu perfil no site da Pulse. John morreu em 1991, após perder uma batalha de anos contra a aids. Num esforço para manter sua alma viva, Barbara e um amigo abriram a boate 13 anos depois --além de uma decoração e uma atmosfera que deixaria o irmão orgulhoso, o espaço recebeu desde o início uma série de eventos dedicados ao combate ao HIV.

Ela e o sócio tinham como objetivo fazer da Pulse "mais do que apenas outro clube gay", diz o site da casa noturna. Acabaram criando um polo não só para a comunidade LGBT, mas também para campanhas contra doenças como o câncer de mama e pelos direitos dos gays e dos imigrantes. A Flórida é um dos principais centros latinos dos Estados Unidos.

O nome da boate, Pulse, é uma homenagem à batida do coração de John.

"Desde o começo, a Pulse era um local para o amor e a aceitação da comunidade LGBT", disse Barbara em um texto publicado no site da casa após a tragédia. "Quero expressar minha profunda tristeza e também dar minhas condolências a todos que perderam pessoas amadas. Meu coração está com vocês."

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Segura e divertida

A boate era conhecida por ser um local seguro, divertido e conectado às tendências da moda. Seu palco também é famoso pelas apresentações de artistas profissionais e amadores, centro das atenções da casa.

"No principal bar da boate, o Ultra, você podia ver vídeos e desfrutar do serviço excelente do grupo de bartenders, na minha opinião os melhores da cidade. Muitos trabalham ali desde o início, há quase 15 anos", disse à BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC, Scott. Por motivos de segurança, ele não quis informar seu sobrenome.

Outras pessoas descrevem a Pulse como um local agradável e jovem, onde é possível comer, jogar pôquer, assistir a espetáculos ao vivo e ouvir boa música.

"Era um local para pessoas com menos de 40 anos. Um espaço não muito grande, mas com vários ambientes. Era seguro, e as pessoas se sentiam muito bem ali", contou Daniel, que também preferiu não dizer o sobrenome.

A maior parte das vítimas da tragédia era hispânica: na noite do massacre, a boate recebia a "Fiesta Latina", evento especial dedicado à salsa, ao merengue e ao reggaeton, ritmos que não fazem parte do repertório habitual da Pulse, mais ligado aos hits do momento.

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Área exclusiva

Orlando abriga uma comunidade gay bastante ativa nos campos das artes e negócios, com integrantes reconhecidos e respeitados por sua contribuição no trabalho para consolidar a cidade como um centro de entretenimento.

A Pulse fica em uma das áreas mais exclusivas da cidade, o centro financeiro --ali, ficam as sedes de algumas das principais empresas da Flórida.

"O ambiente na Pulse era bastante amistoso, não tinha reputação entre os vizinhos de ser um lugar onde [os clientes] corriam perigo nem onde ocorriam problemas. As pessoas iam para se divertir, assistir aos espetáculos ao vivo, que eram de muita qualidade", afirmou Daniel, um funcionário do Bar Louie, outro local frequentado pela comunidade gay da área.

"Este provavelmente é o dia mais difícil da história de Orlando", disse o prefeito da cidade, Buddy Dyer.

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Local seguro e pacífico

Não se sabe exatamente quantas pessoas estavam na Pulse na hora do ataque perpetrado por Omar Mateen, filho de afegãos nascido em Nova York. Mas a noite havia sido lotada, graças ao evento especial de música latina e a um concurso de drag queens.

Em um dos palcos, debaixo de luzes de neon, uma artista imitava a cantora e atriz Jennifer Lopez diante de um grupo de 300 frequentadores, em um dos shows mais típicos da Pulse.

Ricardo Negrón Almodóvar, que estava na casa noturna, contou para a BBC: "Escutamos vários disparos. Na parte em que eu estava, várias [pessoas] se jogaram no chão. Eu não consegui ver o atirador nem se havia feridos."

Um total de 49 pessoas foram mortas no ataque. Mateen ligou para o serviço de emergência, antes ou durante o atentado, declarando lealdade à milícia extremista Estado Islâmico, que reivindicou a autoria do ataque, mas seus laços com o grupo não estão claros.

Em entrevista coletiva nesta segunda-feira (13), o presidente Barack Obama afirmou que não há evidências de que Mateen tenha participado de um plano internacional maior, ainda que pareça ter sido inspirado por visões radicais publicadas na internet.

Segundo o pai do atirador, o filho havia ficado extremamente irritado ao ver um casal de homens se beijando em Miami. Em um vídeo que seria destinado à comunidade americana nos EUA, Seddique Mateen criticou o filho. O motivo: para ele, caberia à justiça divina punir a homossexualidade.

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