Por que a série 'Unbreakable Kimmy Schmidt' simboliza uma guinada nas comédias americanas

Inayatulhaq Yasini - BBC Afghan

Você conhece a história da mulher que ficou presa em um porão por 15 anos pelo líder um culto apocalíptico? Não parece o tipo de coisa que vai fazer alguém rir, mas essa a premissa do seriado cômico "Unbreakable Kimmy Schmidt", produzido pela Netflix e que está em sua segunda temporada.

Criado pela comediante americana Tina Fey, o seriado surpreende pelo fato de apresentar um tom muito mais otimista do que sinopse poderia sugerir.

Kimmy, interpretada pela atriz Ellie Kemper (que fez parte do elenco da versão americana da série The Office), é libertada já no começo da primeira temporada, e o humor vem justamente de suas tentativas de readaptação à vida em liberdade.

Balanço

Cada episódio mostra um incrível balanço entre a escuridão e a luz. Mas Unbreakable Kimmy Schmidt não reinventou a roda: em sitcoms, as cenas mais engraçadas são frequentemente associadas aos cenários mais horríveis.

Mais estranho ainda é que as comédias mais depressivas tendem a se passar em cenários que não parecem tão ruins à primeira vista.

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Uma típica sitcom normalmente envolve pessoas animadas em ambientes confortáveis: uma empresa de táxis, uma casa de família, um bar em que "todos conhecem o seu nome".

Mas às vezes uma série quebra o molde ao examinar a vida miserável de seus personagens. O vendedor de sapatos Al Bundy, de Tudo em Família, é um dos principais exemplos.

Mas mesmo as mais ousadas comédias dos anos 80 e 90 parecem inócuas em comparação com Kimmy Schmidt: a personagem da série ficou em cativeiro e sofreu lavagem cerebral para ser escrava sexual.

A verdade, porém, é que a TV americana já vinha caminhando para um humor um pouco mais "pesado" - com The Office e, anteriormente, The Larry Sanders Show, um marco em autodepreciação. Tratam-se, porém, de exceções no universo das séries.

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O interessante é que mesmo algumas das séries mais ousadas de hoje abrem espaço para alguma mensagem mais positiva.

Um exemplo é Last Man on Earth, em que praticamente toda a população da Terra é morta por um vírus, mas a catástrofe surge como uma oportunidade de desenvolvimento pessoal, inclusive para aquele que parece ser o último homem do planeta.

"Temos um cara que não era a pessoa mais legal do mundo antes, mas que em meio a uma mudança radical volta a ser alguém que gostaríamos de ver", explica um dos criadores da série, Phil Lord.

A comédia policial Brooklyn Nine-Nine lida com assassinatos e tráfico de drogas ao mesmo tempo em que explora a loucura da turma do 99º Distrito Policial de Nova York. A minissérie britânica Human Remain, por exemplo, mostrou a rotina miserável de seis casais.

O fato é que o mundo mudou nos últimos anos e ficou um lugar mais assustador. Há ataques terroristas, atiradores alucinados, epidemias e desastres ecológicos, sem falar nos efeitos que ainda perduram da crise financeira mundial de 2008. Ouvimos histórias de horror diariamente.

O público parece querer comédias que abordem temores com os quais nos identifiquemos: o fervor religioso de Kimmy Schmidt ou o fim do mundo de Last Man on Earth. Mas, ao mesmo tempo, queremos garantias de que mocinhos e gargalhadas vão prevalecer.

Isso já aconteceu antes: quando os EUA estavam em plena Guerra do Vietnã, M.A.S.H., comédia militar baseada em um hospital de campanha na Guerra da Coreia, foi um imenso sucesso de público.

São momentos em que não precisamos das comédias mostrando como nossas vidas estão quebradas, mas sim o quão inquebráveis podem ser.

Leia a versão original dessa reportagem (em inglês) no site BBC Culture

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