Investimento estrangeiro cresce 38% no mundo, mas Brasil não abocanha nada

Daniela Fernandes - De Paris para a BBC Brasil

Apesar dos fluxos mundiais de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) terem crescido 38% em 2015, atingindo US$ 1,76 trilhão - o maior nível desde a crise financeira de 2008 -, no Brasil houve uma queda de 12%, segundo estudo da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad, na sigla em inglês) publicado nesta terça-feira.

Esses recursos estrangeiros, investidos em atividades produtivas, criações, fusões e aquisições de empresas e empréstimos entre matrizes e filiais, totalizaram US$ 64,6 bilhões no Brasil em 2015, de acordo com o relatório "Investimento Mundial 2016" da organização.

No ano anterior, o volume havia sido de US$ 73 bilhões. Com a diminuição, o Brasil caiu quatro posições no ranking dos países que mais atraem investimentos estrangeiros diretos no mundo, mas ainda se mantém em posição de destaque, no oitavo lugar.

A queda no Brasil não foi uma das mais acentuadas entre os 20 países que atraíram maior volume. Na Austrália, a redução foi de 45% - o país passou de 9° a 17° entre os que mais recebem aplicações vindas do exterior voltadas à produção.

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Segundo a Unctad, a "atividade geral de investimento no Brasil despencou durante o ano". A organização acrescenta que a recessão econômica no país e a redução dos ganhos das empresas fez com que os lucros reinvestidos (quando a companhia decide manter os valores no país, em vez de repatriá-los para a matriz) caíssem 33%.

Já os investimentos estrangeiros para a compra de ativos, como máquinas e terrenos ou abrir fábricas e escritórios, tiveram crescimento "modesto" de 4% no Brasil, segundo o relatório.

"Apesar da crise na produção automotiva, os investimentos estrangeiros nesse setor industrial aumentaram bruscamente com a retomada de projetos anunciados anteriormente", diz a Unctad.

O setor da saúde também registrou grande aumento nas aplicações, que passaram de US$ 16 milhões para US$ 1,3 bilhão com a nova lei que permite ao capital estrangeiro ter inclusive o controle de empresas desse segmento, como planos de saúde, afirma o estudo.

"A queda do real também criou oportunidades para comprar ativos brasileiros a preços mais baixos", diz a Unctad, citando o exemplo da British American Tobacco, que lançou oferta para adquirir a totalidade das ações de sua filial Souza Cruz no mercado por US$ 2,5 bilhões.

Brics

O investimento estrangeiro direto no Brics (grupo de emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) caiu 5,5% em 2015. Com isso, a participação do bloco no total mundial caiu de 21%, em 2014, para 15% no ano passado.

"O crescimento do investimento na China e Índia não pode compensar totalmente o declínio no fluxo de IED para outras economias do grupo", afirma a Unctad.

A China representa sozinha mais de 50% do total de aplicações recebido em países do Brics.

No gigante asiático, os investimentos estrangeiros diretos cresceram pouco mais de 5% em 2015, totalizando US$ 136 bilhões. O país caiu do primeiro para o terceiro lugar entre as economias que mais atraem IED no mundo, ficando atrás dos Estados Unidos, que assumiram a liderança, e de Hong Kong, região da China que tem um sistema político e econômico separado.

Fusões e aquisições

Segundo a Unctad, o forte aumento em nível mundial nas fusões e aquisições internacionais, que passaram de US 432 bilhões em 2014 para US$ 721 bilhões em 2015, foi o principal fator que permitiu a forte recuperação do nível desses investimentos no ano passado.

Essas aquisições deverão provocar, por parte das multinacionais, importantes reconfigurações corporativas, como mudanças de sede por razões estratégicas ou fiscais (para países com impostos mais baixos).

A organização ressalta que descontado esse aspecto de reconfiguração corporativa em grande escala, decorrente das fusões e aquisições, o aumento do fluxo de investimento estrangeiro direito mundial foi "bem mais moderado" em 2015 - em torno de 15%, em vez dos quase 40% anunciados.

A organização alerta, no entanto, contra os riscos de excesso de otimismo.

"Apesar do salto de quase 40% no fluxo de IED mundial e da esperança de que os investimentos internacionais estão por fim retornando a um crescimento sustentável, ainda não estamos fora de perigo", afirma o secretário-geral da Unctad, Mukhisa Kituyi.

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