Como moradores da periferia de SP transformaram matagal em parque com pista radical, horta e academia

Felipe Souza - BBC Brasil, Sao Paulo

Moradores de um dos bairros mais pobres de São Paulo decidiram que não iriam se conformar com a falta de verde e o excesso de concreto da paisagem ao seu redor.

Com pás, enxadas e vassouras nas mãos, eles transformaram um matagal de 31 mil m² cheio de entulho em parque com pista de bicicross, horta e academia ao ar livre. E ainda não se deram por satisfeitos: agora, pretendem transformar uma área vizinha em um polo cultural - e tudo por conta própria.

A batalha pelo espaço de lazer começou em 2006, quando uma empreiteira derrubou sem autorização 30 árvores nativas do terreno localizado no Itaim Paulista, no extremo leste da metrópole. A intenção da construtora era transformar uma das poucas áreas verdes da região em um condomínio residencial.

Revoltados, os vizinhos fizeram um abaixo-assinado para pedir que a área virasse um parque - foram mais de 10 mil assinaturas. E conseguiram: a construtora foi multada e a prefeitura acatou a vontade popular.

Mas a história não acabou aí: os moradores não gostaram dos planos do município para o local. E antes mesmo da inauguração oficial do Parque Central do Itaim Paulista, em 2013, um grupo de praticantes de BMX Dirty (modalidade de bicicross com manobras em rampas de terra) ergueu uma radical pista profissional para a prática do esporte no terreno.

Toda a estrutura, com cerca de bambus e rampas de até 4 m de altura, foi feita com dinheiro do próprio bolso. E que fez o grupo pegar gosto pela transformação: desde então, construíram uma academia e iniciaram a implantação de horta e composteira (espaço para transformar lixo em adubo).

Trabalho em equipe

Os moradores contam que o maior desafio foi mostrar a relevância de ter uma área verde e, assim, ganhar a adesão da comunidade. Depois, dividir as tarefas e custos de forma justa, para quem ninguém ficasse sobrecarregado.

"Nós nascemos neste bairro, então nos conhecemos bem e temos carinho por ele. Isso facilitou muito e mostra que cada um pode fazer a diferença onde mora", disse o comerciante Everton Aranão, 28, que ajudou a fazer parte das mudanças no parque Central do Itaim Paulista.

Também foi preciso criar um sistema de zeladoria. Um exemplo é a pista de bicicross: sua manutenção semanal, feita com terra especial, é tarefa dos atletas que a utilizam.

Um cuidado que é reconhecido. A prefeitura, que segundo os moradores relutou em permitir e reconhecer a construção da pista, agora afirma que ela "tem padrão internacional e é muito utilizada pelos frequentadores".

A sequência de rampas atrai pessoas de todo o país e já foi palco até mesmo de campeonatos nacionais da categoria.

Academia e horta

No meio de um bosque, bancos feitos de troncos de árvore e alteres compostos por tubos de ferro e cimento formam uma academia improvisada. A prefeitura também instalou equipamentos no local, mas destinados a idosos.

Outra ideia é produzir hortaliças, legumes e frutas para benefício dos próprios moradores.

O educador ambiental Diego Malagode, de 26 anos, iniciou a construção de uma horta. E, mesmo com o projeto ainda engatinhando, ele já a usa para realizar oficinas para crianças que estudam em colégios públicos da região - a ação é apoiada pela prefeitura.

"Nós já damos aulas de plantio em algumas escolas. Queremos que elas (as crianças) tenham um lugar para colocar isso em prática com seus professores, pois nem todas as escolas e creches têm hortas", disse.

Também há a intenção de trazer resíduos orgânicos das escolas para compostagem e devolvê-los em forma de adubo.

Malagode pediu autorização para manter a horta no local, mas ainda não recebeu uma resposta da prefeitura. Por enquanto, fez a limpeza e remanejamento de algumas árvores para facilitar o desenvolvimento delas.

Polo multicultural

Após a experiência bem-sucedida no parque, os moradores agora querem transformar um terreno ao lado, também municipal, em um polo cultural para apresentações de dança, teatro e projeções de cinema.

Nos últimos seis meses, eles limparam o mato do local, pintaram muros e cuidaram de três prédios abandonados do espaço - para isso, usam água e energia elétrica das casas vizinhas.

"Fazemos isso porque essa é a maior área verde do Itaim Paulista e eu não quero que ela se perda por falta de uso. Eu não tenho nada a ganhar com isso, mas quero que meu sobrinho tenha um lugar para curtir e ter acesso a cultura perto de casa", afirmou o músico Rodrigo Carvalho, de 33 anos, um dos moradores à frente da nova iniciativa.

Segundo a prefeitura, essa nova área "consta do decreto de criação do parque, mas ainda não foi integrada porque um morador contesta judicialmente os valores da desapropriação."

Parte dos moradores concorda em receber ajuda da prefeitura para tocar o projeto de centro cultural - a administração afirmou que fez o aterramento no local -, mas tem receio de perder poder de decisão nos rumos do parque.

O próximo passo deles é arrecadar dinheiro por meio de uma série de eventos programados para os próximos meses. A intenção é que as festas e feiras também atraiam pessoas para conhecer e colaborar com o dia a dia do espaço.

Além de uma limpeza profunda, o novo terreno já ganhou alguns sofás e cadeiras. O local já recebeu um sarau, a exibição de um documentário e oficinas de compostagem e agricultura.

"Queremos que a sociedade use e cuide do nosso espaço, sem esperar nada do poder público. Unidos somos mais fortes e por isso ocupamos o espaço e já fizemos tantas coisas", disse Rodrigo Carvalho.

Um dos problemas para oficializar a criação do polo multicultural no novo terreno é que a Guarda Civil Municipal também fez pedidos para ocupar o local. A ideia, segundo a BBC Brasil apurou, é que seja construída uma base ali.

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