Eles pararam de reclamar dos governos - e estão usando o celular para melhorar a política

Thiago Guimarães - @thiaguima - da BBC Brasil em Londres

Dois jovens brasileiros estão rodando o mundo e conquistando cada vez mais clientes no país e no exterior com duas empresas que buscaram numa ferramenta simples - o celular - a chave para um desafio complexo: melhorar o trabalho do governo.

O biomédico Onicio Neto cria aplicativos para detectar surtos de doenças antes mesmo das autoridades de saúde. O economista Guilherme Lichand ajuda a melhorar políticas públicas usando SMS e chamadas automáticas de voz, aquelas em que o usuário responde por uma sequência de teclas.

Como duas pesquisadoras estão derrubando clichês sobre a política no Brasil

Com poucos anos de mercado, as empresas de ambos já atraíram fundos e parceiros no exterior, foram finalistas em uma disputa internacional de empreendedorismo social, levaram suas propostas a diferentes países e bateram a casa do milhão de reais em faturamento.

E no Brasil eles sonham alto, com objetivos como acabar com a propagação de epidemias em grandes eventos e revolucionar a comunicação entre escolas e famílias.

Crowdsourcing da saúde

A rotina do pernambucano Onicio, 29 anos, começa por volta das 7h, quando deixa a filha de 5 anos na escola no Recife. Nada 1.300 metros antes de ir para a Epitrack, a start-up que criou em 2013 ao lado do cientista da computação Jonas Albuquerque, seu ex-orientador de mestrado e primeiro guia pelo mundo da tecnologia em saúde.

Aluno e professor hoje são sócios numa empresa de 13 funcionários e faturamento bruto de R$ 2,5 milhões em 2015. Receita do sucesso? Ser uma ponte eficaz entre a saúde pública e o potencial colaborativo da internet.

A Epitrack (Epi, de epidemia + track, rastrear em inglês) cria plataformas de vigilância participativa em saúde. A partir da colaboração do cidadão (e usuário da internet), que informa sobre seus sintomas em aplicativos específicos, a empresa constroi mapas de ocorrência de doenças infecciosas, como sarampo, dengue e gripe.

Quando chega ao escritório, Onício costuma assistir a 20 minutos de algo que inspire a criatividade: comerciais, músicas, webséries. Isso talvez mostre por que é um biomédico (profissional que pesquisa microrganismos que causam doenças) distante do trabalho em laboratórios e indústrias, típico da profissão.

Acabou no mestrado em saúde pública na Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) do Recife, onde conheceu um grupo que usava a informática para melhorar processos e a coleta de dados em saúde. Um exemplo era um aplicativo que substituía o bloquinho de papel do agente de saúde, transmitindo em tempo real dados coletados em campo.

"Pessoas começaram a perguntar: quanto custa fazer isso?", lembra Onício, sobre os sinais de que havia demanda por soluções tecnológicas naquela área.

Mão na massa

O primeiro teste de fogo da Epitrack foi na Copa do Mundo de 2014 - grandes eventos e aglomerações são um prato cheio para o aparecimento de epidemias. Com financiamento da Tephinet, uma rede internacional de capacitação em epidemiologia, a empresa criou o app Saúde na Copa.

Quase 10 mil pessoas baixaram a ferramenta de notificação, em tempo real, de sintomas como febre, dores de cabeça e diarreia. Em dois meses, foram mais de 47 mil registros - e, felizmente, nenhum surto detectado.

"Essas plataformas conseguem identificar uma possibilidade de surto até duas semanas antes das fontes tradicionais. Porque um doente só se torna um caso oficial quando chega ao sistema, procura um posto de saúde - e nem todos fazem isso. Com o aplicativo ele pode reportar esses sintomas e essa lacuna é preenchida", afirma Onício.

Como os dados reportados por usuários não passam pelo crivo de médicos, a validação ocorre quando começam a aparecer casos semelhantes no mesmo território e ao mesmo tempo.

O Ministério da Saúde aprovou o trabalho do Saúde na Copa e contratou um monitoramento permanente à Epitrack. O resultado é o app Guardiões da Saúde, que terá versão em seis línguas e espera agregar 100 mil colaboradores durante as Olimpíadas do Rio.

Outro cliente importante é a Skoll Global Threats Fund, fundação de Jeffrey Skoll, ex-presidente do e-Bay, que passou à Epitrack a missão de reformular o FluNearYou.org, uma plataforma com 70 mil usuários ativos que monitora desde 2011 a proliferação do vírus influenza nos EUA e no Canadá. "Com o Vale do Silício no quintal, optaram por uma start-up do Recife", comemora Onício.

O baterista e amante de blues, jazz e soul agora se prepara uma viagem aos Estados Unidos, onde disputará com outros 15 empreendedores uma parte de um prêmio de US$ 1 milhão, dentro de um concurso global patrocinado por uma marca de bebidas.

Somará, assim, mais um destino na lista de países aos quais a Epitrack já o levou: EUA, Inglaterra, Suécia, Itália, Austrália e República Dominicana.

"Velha" tecnologia

A rotina de Guilherme Lichand não é menos puxada. A segunda-feira, por exemplo, começa com uma reunião para definir prioridades da semana. Depois há um encontro geral para acompanhar status dos projetos, alinhar prioridades e ouvir equipe. Na sequência, reuniões específicas para cada produto. À tarde, conversas com clientes, parceiros e público-alvo, pesquisas, leituras.

Guilherme é um prodígio acadêmico que leva a mão à massa. Aos 30 anos, acabou de concluir um doutorado em Economia Política e Governo pela Universidade de Harvard (EUA), uma das melhores do mundo. Cursou a primeira turma da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas (SP), fez mestrado na PUC-Rio e trabalhou com redução da pobreza e gestão econômica no escritório do Banco Mundial em Brasília.

No Banco Mundial, Guilherme conheceu ferramentas inovadoras, como o uso do celular para monitorar efeitos de políticas sociais para tribos isoladas na África. Daí veio a ideia para a MGov, empresa que usa soluções mobile - leia-se o telefone celular - para aprimorar políticas públicas.

Com quatro anos de estrada, a empresa soma 19 funcionários, faturamento anual de R$ 1 milhão e um portfólio robusto: avaliou programa de distribuição de leite no Rio Grande do Norte, ajudou produtores afetados pela seca no Ceará, entrevistou professores baianos sobre material didático, deu orientação financeira a beneficiários do Bolsa Família, organizou o orçamento participativo de Boston (EUA) e o engajamento entre pais e escolas públicas de São Paulo, entre outros projetos.

Em meio a um mundo cada vez mais digital, a aposta de Guilherme é simples: usar a tecnologia analógica para coletar informações de interesse social para gestores públicos. A escolha pelo "velho" não é difícil de entender: embora o celular esteja presente em 90% das casas no Brasil, quase 80% das linhas continuam sendo pré-pagas.

A empresa concluiu, portanto, que não dava para confiar em planos de dados para manter contato com beneficiários de políticas públicas. As tradicionais mensagens de texto e voz, no entanto, cumpriam bem o serviço.

No programa-piloto, por exemplo, Guilherme e equipe avaliaram a eficácia do Leite Potiguar, programa social que distribui leite diariamente a 150 mil famílias no Rio Grande do Norte. O governo suspeitava que beneficiários estivessem vendendo o leite para complementar a renda, e o desafio era alcançar um público-alvo humilde, em áreas remotas e com sinal de telefonia precário.

Responder a pesquisa não é algo que agrada a todos, mas na plataforma da MGov o participante não pagava pela mensagem enviada e ainda recebia créditos de celular pela participação. Respondia, por exemplo, se o leite estava chegando na hora e com qualidade - e também recebia informações úteis, como alerta de atrasos na distribuição.

Em três semanas foi possível comprovar a baixa eficácia da iniciativa (60% dos beneficiários já tinham acesso a leite por meios próprios), o que ajudou o governo do Estado a planejar a descentralização do programa no ano seguinte.

"Em um país como o Brasil ainda é preciso ser analógico (para fazer políticas públicas). A ideia é que o público possa participar pelos canais mais naturais para ele", diz ele, que em 2015 representou o Brasil no mesmo concurso mundial de empreendedorismo que Onício participa neste ano.

Novos desafios e crise

Guilherme acaba de ser indicado para ser professor de economia na Universidade de Zurique, na Suíça, em uma cátedra patrocinada pela Unicef, o braço da ONU para infância e juventude. Conciliará a docência com as novas empreitadas da MGov, que inclui uma plataforma de comunicação entre pais e escolas que está sendo usada por alunos de 360 instituições públicas no Estado de São Paulo - e pretende atingir 100 mil estudantes em breve.

Pela plataforma, batizada EduqMais, a escola pode enviar SMS aos pais sobre prazos, eventos, atividades e desempenho dos alunos. A instituição registra as informações na plataforma e um sistema automatizado faz os envios. A plataforma também manda dicas aos pais com sugestões de atividades simples para estreitar a relação com o filho e apoiar seu desenvolvimento.

No primeiro piloto, os resultados foram promissores: a participação dos pais em atividades aumentou e o desempenho dos alunos melhorou, bem como a porcentagem de estudantes que diziam querer concluir o ensino médio e entrar na faculdade. Entre os país, 83% afirmaram que gostariam de continuar recebendo as mensagens.

Exemplos de brasileiros que preferem agir a reclamar do governo, Guilherme e Onício falam sobre a crise atual com certo pesar, movidos, talvez, pela constatação de que o país possa estar perdendo tempo em face dos inúmeros desafios pela frente.

"(Com o impeachment) estávamos muito avaliando resultados (do governo): a economia está ruim, a qualidade dos serviços também. Mas esse é o tipo de coisa que se resolve em eleições. Acho que houve pouco cuidado em preservar a qualidade institucional, uma certa frustração com a democracia por ter que esperar as eleições e o gestor público ter dificuldades para responder rapidamente às demandas dos cidadãos", afirma Guilherme, cujo trabalho vem sendo exatamente "turbinar" a performance do poder público por meio da tecnologia.

"Acho que não podemos assumir isso como o fim de tudo. Toda vez que vejo uma situação como essa me dá mais força para fazer algo relevante para ajudar as pessoas. E algo que não necessariamente dependa do governo", conclui Onício.

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