Estão todos com medo e se escondendo, diz brasileira que estava em festa alvo de ataque em Nice

Ingrid Fagundez

Da BBC Brasil em São Paulo

  • Arquivo pessoal

    Filha de brasileiros e nascida em Nice, Aline estava perto de local do ataque

    Filha de brasileiros e nascida em Nice, Aline estava perto de local do ataque

Filha de cearenses e nascida em Nice, cidade no Sul da França que sofreu um ataque na noite desta quinta-feira, Aline Lima, 18, estava na praia quando, de repente, viu todos ao redor correndo.

A estudante de Psicologia tinha acabado de assistir os fogos de artifício que faziam parte das celebrações do Dia da Bastilha quando ouviu dois estalos. De início, achou que eram bombinhas de brinquedo, mas logo percebeu que algo estava errado.

"Estava todo mundo correndo, dizendo que teve tiro. Só ouvi gritos. As pessoas estavam gritando, chorando."

Um caminhão atingiu a multidão que participava das celebrações nesta quinta-feira e deixou dezenas de mortos, segundo as autoridades locais - até a publicação deste texto, o prefeito local falava em 77 mortes.

Já em seu apartamento com os amigos que a acompanhavam na festa, Aline diz que o sentimento geral é de medo e tristeza.

Segundo ela, todos estão trancados em casa, nos restaurantes e em hotéis. Sua mãe está em um bar próximo à praia e não deve sair de lá nas próximas horas.

"Tenho amigos que estão no último andar de um hotel, para ficarem seguros. Outros estão em um restaurante, um terceiro está numa estação de trem. Está todo mundo tentando se esconder até a polícia liberar o caminho."

Ela teme não apenas futuros atentados, mas as reações xenófobas que podem crescer na cidade após o ataque.

"Depois do ataque terrorista que teve em Paris, a França inteira mudou. E não pelo lado bom. Falei de racismo e está todo mundo morrendo de medo. Nice é uma cidade muito racista e com muito medo de muita coisa. Acho que vai mudar e não vai ser bom para gente não, que somos estrangeiros."

Leia o depoimento de Aline à BBC Brasil.

"Eu estava na rua. Era o 14 de julho, que é uma festa nacional aqui. Estava tendo fogos de artifício, todos estavam na rua. Eu estava voltando para casa para beber. Aí todo mundo começou a correr para o Velho-Nice, bairro onde moro, perto da praia.

Estava todo mundo correndo, dizendo que teve tiro. Corri com os meus amigos, dizendo para todo mundo vir para minha casa rápido.

Aconteceu na praia e a gente estava perto. Eu não vi, só ouvi os gritos e vi todo mundo correndo. As pessoas estavam gritando, chorando.

Eu até pensava que era brincadeira. Foi tudo tão grande, tão incrível que achei que fosse aquele fogo de artifício que a gente compra, sabe? Pensei que tinha explodido na cara de uma pessoa e ela ficou com medo. Pensava que eram aqueles foguinhos barulhentos que têm no Brasil.

Logo encontrei uma amiga que disse que viu um homem com uma metralhadora. Depois a gente foi ver na televisão e mostraram os vídeos e as fotos de mais de trinta pessoas mortas.

Ela estava bem perto (de onde aconteceu o ataque).Todo mundo estava na beira-mar vendo os fogos de artifício. Começou uns dez minutos depois que os fogos acabaram.

Eu vi essa minha amiga correndo. E não consegui pegar ela para vir à minha casa. Ela estava chorando, gritando. Só me mostrou com a mão dizendo 'eles estavam armados' e correu.

Antes de tudo isso, eu estava esperando um outro grupo de amigos perto da praia. Estávamos passeando no Velho-Nice e ouvimos dois tiros e vimos todo mundo correndo de um lado, depois do outro. A gente ficou morrendo de medo. Pensei 'para onde podemos ir? O que está acontecendo?'. Disse 'bom, tenho que voltar para minha casa'.

Comecei a telefonar para amigos meus que estavam por aqui e vieram todos para a minha casa, estão todos aqui.

Graças a Deus, por enquanto não deu problema nenhum. Estamos tentando ver se está todo mundo legal, se está todo mundo bem. Tenho que telefonar para a minha família no Brasil porque eles não estão sabendo. A gente só está na base da ligação, só pode fazer isso.

A minha mãe estava em um bar próximo e está lá trancada lá até agora. E o meu pai mora perto de Cannes, está bem longe daqui, então não tem problema nenhum. Ele me ligou chorando.

Minha mãe está trancada lá, esperando que dê uma acalmada porque não tem ninguém nas ruas. A polícia pediu para ninguém estar na rua, todo mundo fechou a porta.

Tenho amigos que estão no último andar de um hotel, para ficarem seguros, outros estão em um restaurante, um terceiro está numa estação de trem. Está todo mundo se escondendo até a polícia liberar o caminho.

Todos estão com raiva. Eu, principalmente. É a minha casa. Ver algo em Paris, na Bélgica, a gente nem consegue imaginar direito. Mas, poxa, em Nice? É onde eu moro. Está difícil. E perto de casa, perto de mim. Estou em casa, no quarto andar, mas mesmo aqui estou com medo.

Está todo mundo com medo, está todo mundo triste.

(Estou com medo) porque não é apartamento blindado. A França é um lugar muito seguro. A gente não tem essas precauções que a gente tem normalmente no Brasil. É só bater forte na porta e você entra nos apartamentos.

É muito fácil aqui, por isso a gente teme. Meus amigos já me pediram três vezes para fechar a porta com chave. A gente não é acostumado a fazer isso aqui. Mas estamos tentando manter a calma e ajudar uns aos outros.

Recebi um monte de gente que não conheço na minha casa. Tem muita gente que não mora aqui, mas estava na cidade pela festa. Um amigo meu não pode voltar para casa porque tem que pegar trem e não tem mais.

E a nossa cidade tem muito racismo. Vamos dizer que é ataque terrorista, aí vai ficar com mais medo ainda, mais raiva ainda, mais racismo. Acho isso muito triste.

Depois do ataque terrorista que teve em Paris, a França inteira mudou. E não pelo lado bom.

Nice é uma cidade muito racista e com muito medo de muita coisa. Acho que vai mudar e não vai ser bom para gente não, que somos estrangeiros.

Mesmo nascida aqui acho que vou ter problemas. Mas vamos tentar ficar juntos. Vamos ver quem é que fez isso.

Se a vida vai mudar? Já mudou. Já mudou faz muito tempo."

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