É possível evitar um ataque feito com um caminhão?

Dominic Casciani - BBC

Desde a tragédia ocorrida em Nice, uma pergunta está no ar: é possível parar um ataque feito com um caminhão?

A resposta é que, se quisermos viver em uma sociedade livre e aberta, nenhuma estrutura de segurança será capaz de eliminar todos os riscos que corremos.

Mas há métodos muito eficazes para impedir ataques com caminhões - faço parte de um pequeno grupo de jornalistas que teve a sorte de ter presenciado o teste de um dos principais deles.

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Se o método que conheci em 2009 tivesse sido colocado em prática em Nice, ele provavelmente teria parado o caminhão.

Estados Unidos, Israel e Reino Unido estão entre os países que buscam proteger seus espaços públicos com o desenvolvimento de medidas que vão desde a construção de barreiras maciças a mudanças incrivelmente sutis nas ruas - tão sutis que você e eu possivelmente nem perceberíamos.

Qualquer pessoa que visite as capitais desses países não terá dúvidas sobre a segurança física que envolve alguns edifícios e pontos turísticos.

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O Parlamento Britânico, por exemplo, é cercado por barreiras maciças, enquanto a área em torno do prédio da Bolsa de Nova York é rodeada por rampas antiveículos.

'Fortalecimento do alvo'

Com um planejamento cuidadoso, cidades podem ser "fortalecidas" pelo uso criativo de barreiras especiais e postes capazes de suportar impactos diretos - ou seja, que ajudariam a parar um caminhão.

Mas será que essa engenharia e outras medidas semelhantes podem transformar uma cidade em uma fortaleza?

Vamos voltar ao exemplo do Parlamento.

As grandes barreiras que cercam o Palácio de Westminster são óbvias - elas foram projetadas para barrar uma megacarreta em alta velocidade. Eu mesmo vi um protótipo delas testado em 2009.

Mas a menos de 100 metros do Parlamento encontra-se a Whitehall, a sede de muitos dos ministérios do governo do Reino Unido.

Em uma olhada rápida, não há grandes barreiras lá. Mas isso não é realmente uma verdade.

Elas estão lá - você apenas não pode vê-las porque foram construídas para manter a arquitetura de uma rua que permite a livre circulação de pedestres, mas ainda assim são capazes de parar um caminhão.

Os governos estão, obviamente, protegendo sua infraestrutura crítica - mas o que torna o ataque de Nice tão assustador é que ele ocorreu em uma localização muito longe da capital, onde as pessoas estavam apenas se divertindo.

Isso lança uma outra pergunta: se os extremistas tirarem seu foco de monumentos nacionais e passarem a priorizar o que é conhecido no jargão de segurança como "alvos fáceis", seria possível tornar todos lugares seguros?

Consultores a postos

A abordagem do governo do Reino Unido tem sido manter uma equipe de policiais, engenheiros, arquitetos e outros especialistas aconselhando a todos, de câmaras municipais a clubes de futebol, sobre como reduzir o risco de ataques de veículos em locais lotados.

Além disso, o Instituto Real Britânico de Arquitetos tem um conselho dedicado apenas a desenvolver estruturas antiterrorismo, mas sem transformar a nação em uma prisão de Alcatraz.

Quando a polícia antiterrorismo pede para vistoriar um local, eles não dizem apenas: "Derrame uma carga de concreto e espere o melhor".

Cada medida recomendada foi testada com base em critérios reconhecidos internacionalmente, incluindo uma especificação oficial do Instituto Britânico de Padrões.

Então, dependendo da localização, muitas das barreiras, cada vez mais integradas à nossa paisagem, foram testadas para ver se elas conseguem resistir a um impacto frontal de um caminhão de sete toneladas conduzido a 80 km/h.

O exemplo mais conhecido pode ser encontrado no Estádio Emirates, casa do Arsenal em Londres.

As letras gigantes com o nome do clube, dispostas do lado de fora, são também um escudo maciço. Se um ataque de caminhão como o de Nice ocorresse contra o estádio, elas iriam absorver a energia da colisão.

O caminhão provavelmente seria esmado em pedaços. Outros locais públicos em todo o Reino Unido têm sido igualmente protegidos.

No entanto, obviamente ninguém quer ver barreiras maciças na frente de resorts à beira-mar.

Mas mesmo nesses casos há medidas que podem reduzir o risco: barreiras rodoviárias temporárias feitas com grandes blocos de concreto armado podem ser implantadas em poucas horas antes de eventos públicos e até mesmo serem firmemente ancoradas no chão com o mínimo de perturbação e impacto na paisagem.

Medidas menores, tais como a instalação de uma série de pequenas barreiras, podem frustrar um ataque de caminhão até a chegada da polícia.

Essas estratégias são vistas em grandes eventos políticos, como conferências de partido, mas nem tanto em eventos públicos.

Um ataque semelhante ao de Nice poderia acontecer no Reino Unido? É bem provável que sim e é por isso que o Reino Unido tem guias para os organizadores de eventos, incentivando-os a pensar em como eles podem evitar os riscos de se tornar um alvo para o terrorismo.

O guia para grandes eventos ao ar livre tem 81 páginas e começa incitando os organizadores a seguir alguns passos fundamentais:

  • Identifique a ameaça - o que significa buscar conselhos de pessoas que a conhecem
  • Estabeleça o que você quer proteger e o que é mais vulnerável
  • Identifique os melhores pontos de segurança para se proteger caso ocorra um ataque
  • Reveja e certifique-se de que você fez tudo certo

Então, quando as autoridades francesas investigarem as circunstâncias de como o caminhão foi capaz de causar tal tragédia, elas terão de se perguntar se têm um sistema nas mãos que pode protegê-los de atrocidades como essas.

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