Brasil quer ampliar laços com maiores potências, diz novo embaixador nos EUA

João Fellet - @joaofellet

Da BBC Brasil em Washington

  • Agência Senado

Indicado pelo presidente interino Michel Temer para chefiar a embaixada do Brasil em Washington, um dos postos mais prestigiados da diplomacia nacional, o embaixador Sérgio Amaral diz que o governo brasileiro quer "ampliar as relações com as cinco potências [EUA, China, Rússia, França e Reino Unido] que compõem o equilíbrio multipolar".

A fala reforça a mudança no discurso sobre a política externa brasileira e contrasta com a postura das gestões anteriores, que diziam privilegiar as relações com países emergentes e a chamada cooperação Sul-Sul.

Em entrevista à BBC Brasil por telefone na tarde de terça-feira, na qual demonstrou impaciência em alguns momentos, Amaral disse que priorizará no novo cargo áreas em que Brasil e EUA têm maior convergência, como direitos humanos e meio ambiente, e que retomará negociações para a construção de "parques temáticos ambientais" na Amazônia.

"Temos um grande número de projetos de cooperação expressos em mais de 50 comissões, acordos, memorandos, projetos - seja de governo a governo, seja com grande participação do setor privado. Então temos aí uma base muito boa sobre a qual trabalharmos", ele diz.

Amaral, de 72 anos, foi porta-voz do presidente Fernando Henrique Cardoso e ministro do Desenvolvimento e Comércio Exterior no governo do tucano. Como diplomata, chefiou as embaixadas do Brasil em Paris, em Londres e junto à OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Antes de aceitar o convite para voltar ao Itamaraty, passou um longo período no setor privado e se tornou conselheiro de várias empresas e organizações, entre as quais a petrolífera Total, a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e a ONG WWF.

Cautela em Washington

A indicação de Amaral já foi aceita pelo governo americano, mas ele ainda terá de passar por uma sabatina no Senado brasileiro em agosto, antes de embarcar.

O embaixador chegará a Washington num momento em que autoridades americanas agem com cautela em relação ao cenário político brasileiro.

A Casa Branca anunciou recentemente que o presidente Barack Obama não assistirá à abertura da Olimpíada no Rio. Para alguns analistas, a decisão sinaliza o receio do americano em chancelar abertamente o novo governo do Brasil antes da conclusão do impeachment.

Na semana passada, o congressista democrata Alan Grayson, da Flórida, disse em discurso que o governo Temer estava "minando a democracia" ao adotar políticas que, segundo ele, foram reprovadas nas urnas.

Amaral, porém, diz que a fala do congressista é "muito pouco representativa" e que a ausência de Obama se dará num momento doméstico sensível para os EUA e não poderia ser interpretada como uma cautela.

"Eles [Departamento de Estado americano] emitiram, logo após a primeira votação do impeachment no Senado, uma nota muito equilibrada, [dizendo] que não viam uma ruptura na democracia, que o Brasil estava seguindo seus preceitos constitucionais", afirma.

Outro desafio do embaixador, segundo observadores das relações Brasil-EUA, será ampliar a projeção do país no influente universo de lobistas, escritórios de advogados e think tanks de Washington.

Think tanks são centros de pesquisa e debate que buscam influenciar políticas públicas. Muitas dessas organizações são dirigidas por ex-congressistas ou ex-funcionários do Executivo e chamadas a opinar com frequência em assuntos de governo.

Nos últimos anos, a embaixada do Brasil fechou uma parceria com um prestigiado think tank de Washington - o CSIS (Center for Strategic and International Studies) -, mas mesmo a embaixada brasileira reconheceu em reportagem da BBC Brasil em 2015 que a presença do país nesses centros ainda era tímida quando comparada à de outros emergentes.

Questionado se o Brasil estava subrepresentado nessas organizações, Sérgio Amaral listou alguns brasileiros que atuam em think tanks em Washington e perguntou, com ironia, se o repórter de fato morava na cidade.

"O Brasil tem pessoas muito influentes em Washington. (...) Acho, sim, que pode fazer mais, mas não é verdade que Brasil esteja sem voz em Washington."

Parques temáticos na Amazônia

Amaral diz que um dos seus objetivos nos EUA será retomar os diálogos com o Smithsonian (rede de museus e centros de pesquisa financiada pelo governo dos EUA) para a criação de "parques temáticos ambientais" na Amazônia.

Ele diz que as tratativas começaram na gestão do embaixador Rubens Ricupero em Washington, nos anos 90, quando a embaixada ajudou o Smithsonian a criar um pavilhão sobre a Amazônia no zoológico de Washington.

Após o contato, Amaral diz ter proposto ao Smithsonian a criação de parques temáticos na Amazônia que atraíssem turistas e gerassem oportunidades econômicas, mas o diálogo não avançou.

Um dos parques, segundo o embaixador, aproveitaria o acervo do museu Goeldi, em Belém. Em outro, animais seriam alimentados em áreas que pudessem ser visitadas por turistas. Outro parque, diz ele, teria um túnel em plexiglass no rio Negro "para que os turistas visitassem o fundo do rio".

Ambição 'bem maior'

O embaixador rebateu avaliações de que a política externa brasileira havia se tornado menos ambiciosa no governo Temer.

No discurso de posse no Itamaraty, Serra não listou entre suas prioridades a obtenção de uma vaga permanente para o Brasil no Conselho de Segurança da ONU, um objetivo antigo do país. O chanceler também pediu estudos que identificassem embaixadas brasileiras na África e no Caribe que pudessem ser fechadas.

Serra disse que a diplomacia voltaria a refletir os interesses do Estado brasileiro, e não as "conveniências e preferências ideológicas de um partido político", e que medidas que possam ter servido ao interesse nacional em outros momentos "podem não ser mais compatíveis com as novas realidades do país".

Alguns analistas e diplomatas - como o embaixador Celso Amorim, que chefiou o Itamaraty nos anos Lula - criticaram a nova postura e disseram que ela faria o Brasil perder importância no mundo.

Para o embaixador Sérgio Amaral, porém, o governo Temer sinaliza uma ambição "bem maior" do que a da gestão anterior ao buscar ampliar os laços com as principais potências globais.
Ele afirma ainda que o fato de Serra não ter citado o Conselho de Segurança não significa que o país não queira a vaga. Sobre a África, "a única menção é que talvez tenhamos embaixadas demais lá" e que é preciso "reavaliar as prioridades num momento em que faz redução de despesas".

Amaral voltou a se irritar com uma pergunta sobre a insatisfação de funcionários do Itamaraty com o atraso de pagamentos - problema que ele diz ter sido resolvido com a liberação de R$ 580 milhões nos últimos dias - e afirmou que não notou qualquer falta de motivação entre os diplomatas nas vezes em que visitou o ministério.

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