A dura vida do único policial (e bombeiro) de vilarejo do México

Juan Paullier - BBC Mundo, Ciudad de México

José de la Luz Rodríguez tem 34 anos, três filhos e 7 mil pessoas para proteger em Tepetongo, no centro do México. Ele é o único policial da cidade. E, em caso de incêndio, é também o bombeiro.

Há quase um ano, quando seu colega desistiu do trabalho, ele patrulha sozinho as 32 comunidades do município, vigiando um raio de 100 quilômetros.

Apesar da ajuda de cinco moradores locais, apenas Rodríguez recebeu treinamento, tem porte de arma e pode deter alguém.

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O policial solitário é ainda encarregado de transportar doentes, entregar mandados judiciais e as correspondências do prefeito. E também apaga incêndios - não há bombeiros em Tepetongo.

Tepetongo é um pacato conjunto de vilarejos no México, um dos países mais violentos do mundo. Não enfrenta tantos problemas nem registra ocorrências similares às das cidades nos arredores.

Ainda assim, Rodríguez gostaria de ter companhia.

Ele passa a maior parte do tempo circulando numa caminhonete ou numa viatura que está com o farol traseiro quebrado. Com um cordão de madeira pendurado no pescoço, coturno e uniforme azul, diz acreditar que a presença da polícia é importante para fazer os moradores se sentirem mais seguros.

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Mas às vezes demora 30 minutos para ir de uma comunidade a outra - a mais longe delas, El Laurel, fica a duas horas da delegacia. O policial fica alternando entre estradas de asfalto e de terra em três turnos de 24 horas.

Rodríguez reclama do cansaço, mas não perde nunca o sorriso. Diz gostar do que faz, senão teria desistido como o colega que abandonou o posto.

Como outros oito policiais inicialmente escalados para patrulhar a área não passaram no teste, a equipe nunca foi recomposta.

Ronda

Acompanhar a ronda do policial é se deparar com cenários tão pitorescos quanto cinematográficos. É também encarar muitos quilômetros de estrada.

O vilarejo Salitrillo é assustador, quase abandonado. Perto da igreja, homens assam carne ao ar livre e cavalos amarrados na porta de uma casa pastam entediados. Uma garotinha recebe o visitante entusiasmada.

Depois de marcar presença, Rodríguez segue para a próxima parada. Em Juanchorrey, o policial fala com dois homens sentados numa parede de pedra bebendo tequila e usando chapéu de abas largas. E continua a ronda passando rapidamente pelas outras comunidades.

São vilarejos que insistem em não desaparecer, mesmo com a migração em massa para os Estados Unidos. Na década de 1970, Tepetongo chegou a ter mais de 30 mil habitantes - a maioria atravessou a fronteira.

Para a polícia, cuidar das comunidades de Tepetongo não é um trabalho tão difícil - as pessoas que ali moram são pacíficas.

Há brigas de família, e às vezes os moradores bebem demais. O banco da cidade está fechado há quase duas décadas, restando aos ladrões roubarem apenas algumas vacas, pouco além disso.

"As pessoas não vivem com medo", diz o morador José Cupertino González Muro, enquanto prepara uma tortilla com abacate e queijo. Ele conhece o policial, de quem é um parente distante, desde criança.

A situação na região ficou mais calma há uns três anos. Antes, conta Muro, traficantes costumavam passar armados em seus carros, e havia roubos e sequestros.

Mas hoje, não mais. Ele não explica o que mudou, só diz que o policial solitário ganha reforço da polícia estadual ou do Exército quando ocorre algo mais sério.

Muro já foi prefeito de Tepetongo e lembra que, quando administrou a cidade pela primeira vez, no final dos anos 1980, também havia apenas um policial para 18 mil habitantes.

Mas há quem diga que vive com medo, como Manuel, de 78 anos, um fazendeiro que passa boa parte do tempo sentado na praça do vilarejo de Buenavista.

"A coisa não é fácil, há insegurança. Tenho medo de assalto, de sequestro, de deixar minha esposa sozinha. Existe roubo de gado. Os oficiais de segurança são muito poucos. Se houvesse mais, poderiam patrulhar com mais frequência, mas não é o suficiente", afirma.

Uma vizinha, que não se identifica, atravessa a mesma praça onde Manuel descansa para reclamar.

"Os auxiliares são inúteis, sem preparação, estão lá porque eles têm mais nada para fazer, não servem muito. Não sabem como lidar com bêbados e esse tipo de coisa"

Segundo ela, o policial, um sobrinho distante de seu marido, "é querido".

Delegacia

Enquanto Rodríguez faz a ronda, os auxiliares dele ficam na delegacia de paredes verdes, que tem uma recepção de três metros quadrados, uma cela, dois quartos com camas e um banheiro.

Na parede do fundo, há uma bandeira do México, um calendário, um poster de João Batista batizando Jesus e o equipamento de trabalho - um cassetete, algemas e dois bonés. Ao lado, a TV exibia o humorístico mexicano Chaves.

Há também um rádio, quatro walkie-talkies, um monitor que mostra a imagem de quatro câmeras localizadas nos lados direito e esquerdo da rua, da cela e da sala principal.

No balcão, fica o controle remoto da televisão e relatórios listando todos os deslocamentos.

No dia 8 de julho, alguém registrou saída para fazer entregas, transportar o juiz, atender a dois acidentes - um no posto de gasolina e outro no meio-fio -, uma ronda numa comunidade próxima e retornos à delegacia.

De repente o telefone toca. "Segurança pública, boa tarde", responde o atendente. Alguém procura pelo policial solitário, que não está - só volta mais tarde.

A função do auxiliar é atender ao telefone, fazer relatórios e às vezes acompanhar o chefe.

Ele admite que precisou aprender a conviver com o tédio. A única "arma" que pode transportar é um mata-moscas - Tepetongo é famosa pela quantidade de mosquitos.

Uma placa lembra a morte do prefeito Carlos Robles Filimon dentro da própria delegacia, em 2013. "Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, isto é, dos quais são chamados segundo o seu propósito", diz a mensagem.

Duas semanas depois de assumir o cargo, contam os assistentes, Filimon perguntou a um dos policiais se havia trazido o revólver.

Ao ouvir que sim, pediu a arma emprestada. Avisou que iria se matar e disparou duas ou três vezes. Ninguém naquela pacata região entendeu o porquê.

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