Após prisão de suspeitos de seguir EI, muçulmanos condenam extremismo e relatam preconceito

Luis Kawaguti - BBC Brasil, Sao Paulo

Dezenas de muçulmanos de diversas nacionalidades lotam o salão principal da Mesquita do Brasil, em São Paulo, para as tradicionais orações de sexta-feira. Após as convocações iniciais para a cerimônia, o sheik Adbel Hamid Metwaly inicia o sermão da semana:

"Nosso assunto de hoje é quem está promovendo o terrorismo e as agressões", diz, em árabe.

Seu discurso ocorre um dia após autoridades brasileiras anunciarem a prisão de brasileiros acusados de jurar fidelidade à organização extremista autodenominada Estado Islâmico e tentar preparar um atentado durante a Olimpíada do Rio, que começa no próximo dia 5.

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"O assunto hoje é sobre esse grupo que atende pelo nome Estado Islâmico. Não é um Estado e não é islâmico. Não tem nada a ver com o Islã. Muçulmanos não são terroristas e os terroristas não são muçulmanos", acrescenta o sheik aos fiéis.

Metwaly preside o Conselho Superior de Teólogos e Assuntos Islâmicos do Brasil (CSTAIB), órgão que reúne representantes das cerca de 120 mesquitas e comunidades islâmicas do país.

A maioria da audiência de fiéis na cerimônia é originária de países do Oriente Médio e do norte da África. Os muçulmanos brasileiros que não falam árabe ouvem a um tradutor com grandes fones de ouvido brancos.

Postura semelhante foi adotada em boa parte das mesquitas do Brasil após a operação policial ganhar os noticiários.

O objetivo era passar não só aos fiéis, mas também à sociedade brasileira, a mensagem de que o Islã não prega a violência - e que quem o faz não estaria seguindo a religião corretamente.

Na Mesquita do Pari, uma das maiores de São Paulo, a presença incomum de repórteres de diversos veículos de imprensa surpreendeu clérigos e os cerca de 2 mil fiéis, distribuídos em três andares do prédio.

O sheik Rodrigo Rodrigues aproveita a presença dos jornalistas para mandar reforçar a mensagem à sociedade:

"Quem dera o povo conhecesse o Islã. O Islã não incentiva maldade", diz, alternando entre árabe e o português.

"A forma como veículos de comunicação transmitem os fatos muitas vezes tem injustiças."

Críticas

Na Mesquita do Brasil, o sheik Metwaly afirmou aos presentes que a origem do terrorismo remete ao mal, a "satanás".

Segundo ele, os que optam pelo caminho do terror "não entenderam corretamente o Islã" e estão mal intencionados.

"Eles seguem a religião por um tempo, deixam a barba crescer, usam roupas muçulmanas e acham que podem falar em nome da religião. Isso não podemos permitir."

Durante a cerimônia, o sheik também pediu aos integrantes da comunidade que denunciem qualquer pessoa que infrinja as leis do Brasil.

"Mesmo que sejam nossos filhos, é preciso denunciar às autoridades."

Metwaly explicou uma das estratégias adotadas na Mesquita do Brasil para evitar interpretações erradas do Islã por recém-convertidos: Lá, o interessado em adotar a religião tem de frequentar aulas por um período que vai de seis meses a um ano.

O objetivo é que essa pessoa consiga absorver informações importantes e passe a ser conhecida pelos religiosos e pela comunidade. Só depois disso é incentivada a se converter de fato.

Mas nem sempre é possível identificar quem está mal intencionado.

O sheik Jihad Hammadeh, presidente do conselho de ética da União Nacional das Entidades Islâmicas (UNI), disse à BBC Brasil um dos presos na Operação Hashtag frequentava a mesquita do Pari - era, afirmou, um rapaz tranquilo.

"Ele é um integrante da comunidade como qualquer outro e frequentava a mesquita como qualquer um, independente de seu histórico. Nunca tive reclamação dele, senão a gente já teria avisado (as autoridades) e aconselhado."

Hammadeh contou que houve alguns casos de extremistas que frequentavam uma mesquita no Rio de Janeiro. A Polícia Federal foi acionada e, segundo ele, verificou que os suspeitos não eram muçulmanos.

Preconceito

Segundo líderes muçulmanos, a divulgação da operação da Polícia Federal trouxe uma consequência negativa: o preconceito contra os adeptos da religião, baseado na falta de informação.

O sheik Hammadeh afirmou que os relatos de discriminação contra a comunidade muçulmana cresceram recentemente.

"As pessoas estão com receio, então elas se enclausuram. Os muçulmanos estão com a sensação de que todo mundo está contra eles. Talvez quem está de fora não sinta isso, mas quem está sofrendo essa agressão psicológica sente que os olhos estão sobre eles", disse.

Para ele, os islâmicos estão desconfortáveis, se sentindo tachados como ameaça ao fazer tarefas simples, como ir ao supermercado. "Ele sai na rua e pensa que todo mundo está olhando para ele por ser muçulmano. Mas às vezes ninguém está nem aí."

Mas os religiosos dizem acreditar que eventuais problemas serão superados.

"A comunidade islâmica no Brasil é muito antiga e nesse tempo todo não tivemos nenhum problema em termos de convivência com o povo. Nós fazemos parte da comunidade brasileira e sempre tivemos todo o respeito, vivemos em paz e fizemos tudo por uma convivência pacifica", disse Metwaly.

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