Rejeição à Rio 2016 é normal, mas pode ser amenizada com espetáculo e medalhas, diz historiador olímpico

"Às vésperas do início dos Jogos Olímpicos, a cidade vive um clima de pessimismo, ressaltado por uma crise no esquema de segurança, aumento da violência e o temor de atentados, bem como a preocupação com o peso do evento sobre a infraestrutura da cidade".

Esta é descrição feita pelo sociólogo britânico David Goldblatt do clima em Londres pouco antes da Olimpíada de 2012, para ressaltar seu argumento de que um evento desse porte tende a dividir opiniões e que o caso não poderia ser diferente no Rio de Janeiro em 2016.

Autor de The Games: A Global History of the Olympics ("Os Jogos: Uma História Global das Olimpíadas", em tradução livre), um dos mais elogiados livros dos últimos tempos sobre a história social da maior festa do esporte mundial, Goldblatt diz que a rejeição e as críticas à Rio 2016 são ainda mais compreensíveis diante dos problemas enfrentados pela cidade e pelo Brasil nos últimos dois anos.

Na semana passada, uma pesquisa do Datafolha indicou que metade dos brasileiros é contra a realização do evento no Rio - em contraste com o levantamento anterior, de junho de 2013, que revelara que 64% eram favoráveis aos Jogos.

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"Os Jogos do Rio estão no centro de um festival de desastres, que na verdade não devem ser apenas atribuídos à cidade e ao país - ficou claro, por exemplo, que o modelo de gigantismo olímpico está ultrapassado e precisa ser repensado. Ao mesmo tempo, poucas vezes na história um evento esportivo pôde ser tão acompanhado e analisado como essa Olimpíada. ", conta Goldblatt, em entrevista à BBC Brasil.

Visibilidade

"Em décadas anteriores, organizadores poderiam cometer toda a sorte de arbitrariedade e ninguém ficar sabendo. Para realizar a Olimpíada de 1988, por exemplo, a Coreia do Sul promoveu remoções forçadas de quase 800 mil pessoas, mas não havia câmeras ou mídias sociais como hoje", acrescente.

Crítico do projeto olímpico do Rio, e sobretudo por considerar que os Jogos têm baixo valor social, Goldbaltt menciona a ameaça terrorista global capitaneada pelo grupo extremista muçulmano Estado Islâmico e o escândalo de doping envolvendo a Rússia como fatores que trazem pressão indesejada para a competição sem que se possa atribuir culpa ao comitê organizador.

Mas ele acredita que o Rio, às turras com reclamações de delegações sobre o estado da Vila dos Atletas e com críticas a obras inacabadas, poderá passar por um fenômeno semelhante ao de Londres, que em 2012 ainda se mostrava preocupada com os distúrbios e saques que tinham paralisado a cidade no ano anterior, e a semanas do início da competição precisou contar com o reforço do Exército britânico para compensar a falha na entrega de seguranças treinados pela empresa G4S.

A cidade temia ainda engarrafamentos e "apagões" no metrô, e a indústria hoteleira corria contra o tempo para negociar quartos ociosos que, a um mês dos Jogos, ainda não tinham sido reservados.

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"Tudo começou a mudar com a cerimônia de abertura. Tudo bem que o orçamento foi de US$ 80 milhões, mas (o diretor de cinema) Danny Boyle deu show e ajudou a criar um clima de euforia que não ficou restrito apenas a Londres e contagiou o resto do país."

"Ajudou muito também que, logo nos primeiros dias da competição, a equipe britânica ganhou medalha de ouro atrás de medalha de ouro. Algo semelhante pode ajudar a entusiasmar o público no Rio e no Brasil", acredita Goldblatt.

Mesmo com o corte de custos no orçamento dos Jogos e a promessa de que a cerimônia carioca, nas palavras do prefeito Eduardo Paes, custará um décimo da londrina?

"Hollywood às vezes gasta centenas de milhões de dólares em um filme como Avatar e, ainda assim, não convence", brinca o britânico.

O sociólogo acredita também que o Rio pode estar passando por uma espécie de "cansaço" causado por grandes eventos esportivos internacionais - desde 2007, a cidade foi sede dos Jogos Pan-Americanos, Copa das Confederações e da Copa do Mundo.

"Isso é ainda mais complicado quando esses eventos não deixaram o legado social prometido em termos de obras urbanas. E os Jogos são o último dos problemas quando você tem servidores públicos com salários atrasados, uma economia que encolheu quase 4% no último ano e uma senhora crise política."

Assim como na Copa do Mundo, quando expectativas pessimistas deram lugar a uma atmosfera de confraternização, a Rio 2016 também pode deixar para trás uma fase de preparativos conturbados.

"Ainda é cedo para especularmos, mas um desempenho esportivo memorável, como um terceiro ouro olímpico para Usain Bolt nos 100 m, pode ser uma marca positiva. Mas é importante que não ocorram problemas."

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