Nadadora americana que 'destrói' colegas masculinos nos treinos é promessa da Rio 2016

Fernando Duarte - BBC Brasil

Katie Ledecky é um dos trunfos não apenas da delegação dos Estados Unidos na briga por medalhas, mas uma das esperanças do Comitê Olímpico Internacional para ofuscar, com seu protagonismo e desempenho, controvérsias esportivas e não esportivas envolvendo a Olimpíada do Rio.

Ela é a grande candidata a pendurar um festival de medalhas no pescoço durante a competição. Seu colega de equipe Michael Phelps, dono de 19 ouros conquistados ao longo de três Olimpíadas, chega ao Rio mais velho e sem o amplo favoritismo de outrora.

Aos 19 anos, a nadadora fez fama com a voracidade nas conquistas de medalhas e de recordes. Era apenas uma adolescente quando venceu os 800m nos Jogos de Londres 2012. Nos últimos quatro anos, conquistou ainda dez medalhas de ouro em Mundiais e se tornou a mais rápida nadadora do mundo nas distâncias de 400m, 800m e 1.500m.

Ela é a primeira nadadora do mundo a ganhar os 200m, 400m, 800m e 1.500m em uma mesma competição - fez isso no Mundial de 2015.

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'Derrubar a moral'

Porém, o que pareceu mais impressionante aos olhos do público americano foi a revelação de que a americana sistematicamente usa suas braçadas para tripudiar de preconcepções sobre gênero: em abril, Conor Dwyer, campeão olímpico do revezamento 4x200m em Londres, contou que Ledecky sistematicamente supera colegas masculinos em treinamentos da seleção dos EUA. Com uma facilidade que teria causado crises de confiança.

"Eu vi Katie destruir um monte de caras nos treinos. Ela é capaz de derrubar a moral de homens em uma piscina", contou Dwyer.

O problema é que a superioridade de Ledecky sobre colegas femininas é ainda maior, o que deu a seu treinador, Bruce Gemmel, a ideia de usar homens como companheiros de treino para a nadadora - por mais que o orgulho deles fique ferido quando a trupe, que inclui o próprio filho do treinador, Andrew, invariavelmente falha em acompanhar o ritmo da moça de 1,83m.

"Não vou mentir. É irritante perder para uma menina, mesmo que ela seja uma detentora de três recordes mundiais. Não estamos acostumados com isso", confessou um dos parceiros de treino de Ledecky, Matthew Hirschberger, ao jornal The New York Times.

Guerra dos sexos

Tal desempenho faz com que mídia e analistas esportivos nos EUA se deliciem imaginando o que a nadadora poderia fazer em uma situação real de competição. A opinião geral é a de que as condições de treino, em que nadadores passam horas repetindo exercícios, são diferentes da rapidez de uma prova.

Em distâncias menores, como os 200m e 400m, a maior força corporal média masculina poderia ser intransponível para Ledecky.

Em longas distâncias, porém, a história poderia ser um pouco diferente. E embora o recorde mundial da americana nos 1.500m (15m25s48s) - a única prova longa que homens nadam nos Jogos Olímpicos - fique longe dos melhores tempos do mundo e tenha sido insuficiente para que ela ficasse entre os oitos finalistas da prova de Londres-2012, há quem diga que Ledecky certamente nadaria mais rápido na companhia de concorrência mais forte.

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Por enquanto, nenhuma mulher conseguiu chegar a menos de 13 segundos de seu recorde nos 1.500m e sete segundos nos 800m.

"Eu não me atrevo a apostar contra Katie. Ninguém parece ser capaz de saber o quão rápido ela ainda pode nadar", diz Andrew Gemel, que fala não apenas com a experiência de ser especialista na distância dos 1.500m, mas de ver a colega de treinos disparar à frente na piscina.

Para se ter uma melhor ideia de quão raro é ver uma nadadora - ou mesmo um nadador - dominar tantos eventos, muitos na mídia americana fazem uma comparação com o atletismo. É como se Usain Bolt vencesse não apenas suas provas de velocidade, mas também subisse ao pódio em disputas de longa distância, como a maratona.

Amadorismo

Também é surpreendente o fato de a fama não ter feito a nadadora seguir o caminho de colegas de esporte e buscar o profissionalismo - algo que juntaria dólares ao ouro que coleciona. Especialistas em marketing esportivo dizem estimar que Ledecky hoje poderia estar conseguindo ganhar pelo menos US$ 10 milhões por ano em patrocínios e afins.

A opção pelo status de amadorismo (ela continua a nadar representando sua universidade) não vem apenas do fato de que a nadadora vem de uma família de classe média alta e com menos pressões financeiras, mas da preocupação dos pais da nadadora com os sacrifícios da vida profissional - se ela optasse pelo profissionalismo, não poderia ir para a universidade, por exemplo, e Ledecky em breve começará o estudos na prestigiada Stanford, de quem recebeu uma bolsa de estudos.

"O dinheiro certamente não é algo que me deixa tentada", disse a nadadora em entrevistas à imprensa americana.

Os pais de Ledecky também protegem a nadadora do interesse da mídia. Recusam pedidos e mais pedidos para que ela apareça na infinidade de talk shows da TV americana. "Mas ela logo será a estrela de um reality show com audiência de bilhões", brincam seu treinadores, referindo-se à Rio 2016.

Como as competições de natação já ocorrem nos primeiros dias dos Jogos, antes mesmo de Bolt se aquecer, em breve as atenções do mundo estarão voltadas para a americana.

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