Do padre ao padeiro, da princesa ao político: artista inglês junta retratos e análise de DNA para desvendar 'força' de identidade brasileira

Néli Pereira - Da BBC Brasil em São Paulo

O artista plástico britânico Marcus Lyon fotografou 104 brasileiros de diversas cidades e regiões e analisou o DNA de cada um deles para revelar a diversidade cultural do país.

Chamado de Somos Brasil, o projeto percorreu 22 mil quilômetros em seis meses para encontrar brasileiros de diferentes classes sociais, etnias e histórias com um recorte em comum: todos teriam que ser, de alguma forma, agentes de mudanças nas comunidades onde vivem.

Por isso, há desde um cacique de uma tribo no Pará que luta pela preservação da cultura indígena a uma prostituta que trabalha no combate à exploração sexual infantil, passando por empresários que lidam com projetos sociais e ativistas.

Casado com uma brasileira e pai de dois filhos - que ele considera "brasingleses" (nascidos no Reino Unido, mas que se auto definem como brasileiros) -, ele conversou com à BBC Brasil sobre o interesse na nossa identidade.

"Eu passei muito tempo no Brasil e nos Estados Unidos e o contraste entre como os norte-americanos se definem e como os brasileiros se autodefinem sempre me chamou atenção e fascinou. Nos EUA, há uma forte conexão com a 'terra mãe', e se fala em ser ítalo-americano, judeu-americano e por aí vai. Em contrapartida, aqui no Brasil, embora o povo tenha conhecimento da história pessoal e ligação com os antepassados, predominantemente se dizem apenas 'brasileiros', e eu queria entender melhor esse senso forte de identidade nacional", disse Lyon à BBC Brasil em São Paulo, onde está finalizando a edição do livro Somos Brasil, que deverá ser lançado em breve.

Além do livro, o projeto conta ainda com um aplicativo de celular para que o público possa ouvir - em português e em inglês - as histórias pessoais de cada um dos retratados. O aplicativo funciona a partir do site do artista, e é só passar o smartphone em cima das fotos para ouvir os relatos coletados durante a viagem.

"Eu quis trazer o áudio para dar voz àqueles que não tem. Há figuras públicas e conhecidas, mas muitas pessoas comuns, com trajetórias pessoais fascinantes", conclui.

Veja algumas das imagens - com trechos dos relatos que as acompanham - que integram o projeto:

O baiano João Jorge Santos Rodrigues é presidente do Olodum e relata ter imenso orgulho de suas raízes afrobrasileiras, predominantes, aliás, em seu DNA: 80% de seus genes são de origem africana (Norte da África 1%, África Centro-Oriental 6%, África Ocidental 73%). Mas ele ainda carrega 3% da Ásia ( Ásia Central 2% e Sibéria 1%), outros 15% europeus (Península Ibérica 6%, Sardenha 2% e Europa Ocidental e Central 7%) e 2% de genes de origem nativa da América do Sul.

Josicleide Nascimento de Oliveira é da comunidade quilombola Conceição das Crioulas em Salgueiro, Pernambuco. Ela relata que em sua cidade circula uma história de que sua avó foi encontrada por cachorros no meio mato e trazida por eles à cidade. No seu DNA, 35% dos genes vêm da África (31% da África Ocidental, 2% da África Centro-Oriental e 2% da África Centro-Austral) e 48% da Europa. Estes vêm da Sardenha (12%), de Judeus Sefarditas (13%), da Península Ibérica (7%), Finlândia e Norte da Sibéria (2%), Europa Oriental (4%), Europa Ocidental e Central (9%), Escandinávia (1%). Os 16% restantes são de nativos da América, dos quais 13% são da América do Norte e 3% do Sul.

Bruno dos Santos é idealizador do projeto Ateliê Padaria CaPão, no Capão Redondo, periferia de São Paulo, uma espécie de padaria e restaurante sustentável com conceito de alimentação equilibrada e custo acessível. Ele conta que sua avó foi escrava e que se identifica com a cultura negra, mas seu DNA mostra que 42% de seu material genético têm origem africana, dos quais 5% da África Centro-Oriental, 35% da África Ocidental, 1% da África Centro-Austral e 1% do Norte da África. Outros 46% são de origem europeia, dos quais 13% das ilhas britânicas, 8% da Península Ibérica, 6% da Sardenha, 9% de Judeus Sefarditas, 5% da Itália e 5% Escandinávia. Dos 12% restantes, 11% têm origem entre Nativos das Américas - dos quais 8% da América do Norte e 3% da América do Sul - e 1% do Nordeste Asiático.

A cinesta Dayse Beatriz Barreto de Oliveira é do Ceará e até onde ela sabe, não há nenhum japonês na linhagem da família dela, mas 10% do seu DNA é asiático, sendo 9% da Ásia Menor e 1% da Sibéria. Outros 69% são europeus (Península Ibérica 65% , Finlândia e Norte da Sibéria 2%, Escandinávia 2%). Ela ainda tem 9% de origem africana (Norte da África 2%, África Ocidental 5%, África Centro-Austral 2%) e 12% da América Nativa (Nativo da América do Norte 9% e Nativo da América do Sul 3%).

Euterpe é o nome artístico de Andressa Sousa do Nascimento, cantora e compositora de Roraima. Suas canções misturam vários ritmos regionais com samba, jazz e MPB. Seu DNA: África 21% (Norte da África 2%, África Centro-Oriental 2%, África Ocidental 16%, Centro-Austral 1%). Ainda tem 66% de origens europeias (Península Ibérica 57%, Judeus Sefarditas 2%, Ilhas Britânicas 5%, Escandinávia 2%) e 13% da América Nativa (Nativo da América do Norte 11%, Nativo da América do Sul 2%)

Herdeira da família real brasileira, a princesa Paola Maria de Bourbon Orleans e Bragança Sapieha é trineta de Princesa Isabel, nasceu em Londres e veio para o Brasil com apenas nove meses. O DNA dela, no entanto, é 100% europeu, sendo 47% da Europa Oriental e Central, 29% Escandinávia, 16% Península Ibérica e ainda Ilhas Britânicas 5%.

Atual capitão da seleção norte-americana de polo aquático, Anthony Lawrence da Rocha Azevedo nasceu no Rio de Janeiro, mas foi criado nos Estados Unidos. Medalhista de prata nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, ele diz que se sente estranho quando joga contra o Brasil por causa de sua relação com o país. Seu DNA: 2% da África (África Centro-Oriental 1% e Ocidental 1%) e 98% europeu (Judeus Asquenazes 3%, Península Ibérica 62%, Europa Ocidental e Central 4%, Europa Oriental 5%, Ilhas Britânicas 7% e Escandinávia 17%).

A paulistana Sylvia Albernaz Malhado do Carmo Guimarães é fundadora do projeto Vaga Lume, que incentiva a prática da leitura para crianças de 160 comunidades e conta com 650 voluntários. Seu DNA: 6% África (Norte da África 1%, África Centro-Oriental 2%, África Ocidental 3%), 9% Ásia (Leste do Oriente Médio 3%, Ásia Menor 5% e Nordeste da Ásia 1%) e 85% Europa (Península Ibérica 52%, Sardenha 11%, Finlândia e Norte da Sibéria 3%, Judeus Sefarditas 2%, Europa Oriental 3%, Ilhas Britânicas 14%).

A empresária carioca Leila Velez Hespanha era atendente de uma rede de fast food quando se juntou a outros três colegas para criar uma marca de produtos para cabelos cacheados, crespos e ondulados - e aproveitar para ajudar a fortalecer a autoestima de mulheres de baixa renda. Seu DNA: 32% África (Norte da África 2%, África Centro-Oriental 4%, África Ocidental 24%, África Centro-Austral 2%), 3% Ásia (Leste do Oriente Médio 2% e Sudeste da Ásia 1%), 53% Europa (Península Ibérica 50% e Ilhas Britânicas 3%) e 12% Nativa da América, dos quais 9% Nativo da América do Norte e 3% da América do Sul.

O DNA de Bekwynhka Kayapó, que também usa o nome de João Pangrá Kayapó, é 100% Nativo da América, dos quais 74% da América do Norte e 26% do Sul. Ele é cacique da aldeia krãnh-ãpari, que fica em Ourolândia do Norte, no Pará.

A geriatra Ana Claudia de Lima Quintana Arantes dedica a carreira a cuidar de pacientes sem esperança de cura. O DNA dela é majoritariamente europeu: 94% (Península Ibérica 92% e Sardenha 2%). O restante é composto por 3% Ásia Central e 3% África Ocidental.

A jornalista gaúcha Eliane Brum, colunista do site El País Brasil, tem o DNA 100% europeu - Judeus Asquenazes 2%, Península Ibérica 24%, Sardenha 6%, Itália 36%, Europa Oriental 6%, Ilhas Britânicas 6% e Escandinávia 20%.

O cicloativista curitibano Jorge Gomes de Oliveira Brand também é conhecido por Goura, nome que ganhou quando foi batizado pelo Hare Krishna, aos 18 anos. O DNA dele é 91% europeu (Judeus Asquenazes 3%, Península Ibérica 31%, Sardenha 12%, Itália 14%, Finlândia e Norte da Sibéria 4%, Judeus Sefarditas 2%, Europa Oriental 8%, Ilhas Britânicas 17%), 4% África Ocidental, 3% Ásia Central e 2% de americanos nativos do Sul.

A paulista Dagmar Rivieri Garroux é conhecida com "Tia Dag", fundadora da Casa do Zezinho, organização que trabalha com crianças e jovens em situação de alta vulnerabilidade social na zona sul de São Paulo. O DNA dela é 98% europeu, dos quais 43% vem da Itália, 52% da Península Ibérica e 3% da Sardenha. Os outros 2% restantes vêm do Norte da África.

A empresária Luiza Helena Trajano Inácio Rodrigues, proprietária do Magazine Luiza, tem DNA predominantemente europeu, 81%, dos quais 59% são da Península Ibérica e 6% das ilhas britânicas, 3% da Sardenha, 10% da Itália e 3% de Europa Ocidental e Central. Os 19% restantes vêm da África (Norte da África 5%, África Centro-Oriental 1% e África Ocidental 13%).

O padre Julio Renato Lancellotti é pároco da pequena Igreja de São Miguel Arcanjo na Mooca, zona leste de São Paulo, e trabalha com moradores de rua, sem-teto, usuários de drogas e ex-presidiários. O DNA dele é 81 europeu (Península Ibérica 50% , Sardenha 8%, Itália 16%, Finlândia e Norte da Sibéria 4%, Judeus Sefarditas 3%) e os outros 19% vêm da Ásia Menor.

Nascida Claudia Dias Batista de Souza em São Paulo, Monja Coen, principal representante do budismo no Brasil, tem DNA 86% europeu (Sardenha 6%, Judeus Sefarditas 2%, Ilhas Britânicas 9%, Judeus Asquenazes 2%, Península Ibérica 54% e Escandinávia 13%), 6% da África (Norte da África 5% e África Centro-Oriental 1%), 3% da Ásia (Leste do Oriente Médio) e 5% Nativa da América, sendo 3% do Norte e 2% do Sul.

Luiz Roberto Barros Mott é antropólogo, historiador e professor da Universidade Federal da Bahia. Ele é também fundador do Grupo Gay da Bahia, que forma ativistas e pensadores dos direitos da comunidade LGBT. No seu DNA, 96% dos genes são de origem europeia (Península Ibérica 50%, Sardenha 5%, Itália 7%, Finlândia e Norte da Sibéria 3%, Judeus Sefarditas 2% Europa Ocidental e Central 25%, Europa Oriental 4%) 2% asiática do Leste do Oriente Médio e 2% da África Central.

O artista plástico baiano Enock Boaventura Silva tem um ateliê no coração do Pelourinho e carrega no DNA 2% de origem norte-africana. A predominância - 96% - é europeia (Península Ibérica 86% e Ilhas Britânicas 10%) e outros 2% são de nativos da América do Sul.

A paraibana Maria de Lourdes Araújo Barreto é profissional do sexo desde os 15 anos e ajudou a fundar o Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará, que também atua no combate à exploração sexual infantil e o tráfico humano. Seu DNA: Ásia 6% (5% Ásia Menor e 1% Ásia Central), Nativo da América do Norte 9%, Nativo da América do Sul 3%, Europa 65% (64% Península Ibérica e 1% Ilhas Britânicas) e África 17% (África Ocidental 12%, Norte da África 3% e África Centro-Oriental 2%).

O paulistano Eduardo Matarazzo Suplicy já foi vereador, deputado estadual e federal e senador. Seu DNA: Norte da África 1%, Ásia Menor 9%, Europa 88% (dos quais 8% Europa Ocidental, 12% ilhas britânicas, 16% Itália, 46% Península Ibérica, 3% judeus sefarditas, 3% Sardenha). Os outros 2% são de nativos norte-americanos.

O vendedor ambulante baiano Antonio José de Amorim (Toninho) tem DNA predominantemente africano: 64% (2% do Norte da África, 4% da África Centro-Oriental, 56% da África Ocidental e 2% da África Centro-Austral). Além disso, tem 1% do Sudeste da Ásia, 10% de Nativos da América do Norte e 2% de Nativos da América do Sul. Outros 23% são europeus: Sardenha 6%, Ilhas Britânicas 2%, Península Ibérica 12% e Escandinávia 3%.

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