Maior parte de benefícios de Olimpíadas vai para comitê e empreiteiras, diz pesquisador americano

Joao Fellet - BBC Brasil

De todas as cidades que sediaram Olimpíadas nas últimas décadas, só Los Angeles não teve prejuízos, diz à BBC Brasil o pesquisador americano Stanley Engerman.

Professor de economia e história da Universidade de Rochester (Nova York), Engerman estudou o impacto dos Jogos nas contas das cidades que abrigaram as últimas edições do evento. Segundo ele, os ganhos das sedes costumam ficar bem abaixo dos seus gastos com a construção dos estádios e o cumprimento de exigências dos organizadores.

Los Angeles só escapou da tendência, diz o professor, porque já tinha quase todos os estádios prontos e conseguiu atrair vários investidores privados quando abrigou os Jogos de 1984.

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Em entrevista à BBC Brasil, ele afirma que a Olimpíada de 2016 deverá dar prejuízo ao Rio e que, conscientes dos altos custos, cada vez mais cidades se recusam a participar das disputas para receber o evento.

Engerman, de 80 anos, leciona sobre a economia do esporte e do entretenimento e é reconhecido como um dos maiores especialistas nos EUA sobre os aspectos econômicos da escravidão.

Leia os principais trechos de sua entrevista à BBC Brasil.

BBC Brasil - Em 2012, o senhor escreveu um artigo dizendo que a combinação entre a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016 teria um impacto negativo nas finanças do Brasil. A previsão se confirmou?

Stanley Engerman - Não tenho acompanhado em detalhes, mas claramente tudo tem ocorrido como o previsto. Li sobre o quão desastrosa a Olimpíada está sendo para as contas do Rio. Os Jogos certamente trouxeram mais visibilidade para a cidade e para o Brasil. Vejo muitas notícias sobre os esportes aquáticos que ocorrerão em águas poluídas, sobre a crise econômica e os escândalos de corrupção na política. A verdade é que essas notícias não ajudam a trazer turistas.

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BBC Brasil - Houve alguma Olimpíada que trouxe melhoras significativas à cidade que a acolheu?

Engerman - Um caso sempre mencionado é o de Barcelona, que, como resultado da Olimpíada, construiu um excelente sistema de metrô. Alguns dizem que o metrô não poderia ter sido construído sem a Olimpíada.

Mas o sistema foi construído com um custo muito alto, porque é preciso considerar o dinheiro que Barcelona perdeu por ter recebido a Olimpíada. Será que não poderiam ter feito o metrô sem absorver todos os custos dos Jogos?

BBC Brasil - Por que os Jogos trazem prejuízos?

Engerman - O que ocorre é que a maior parte do dinheiro - principalmente os pagamentos das TVs por direitos de transmissão - acaba indo para o Comitê Olímpico. Quem ganha dinheiro é o comitê e as construtoras que fazem as obras. Muito pouco vai para a cidade sede.

No ano em que Atenas sediou a Olimpíada (2004), o turismo na cidade caiu. Eles foram obrigados a construir cerca de 20 estádios. Quase todos estão subutilizados, mas precisam ser mantidos caso venham a ser usados no futuro.

Em Atlanta (1996), esperava-se que muitas pessoas de fora trariam dinheiro para a cidade, mas a maioria dos ingressos foi vendida num raio de 100 milhas (cerca de 160 km) dali. Em Pequim (2008), aquele estádio maravilhoso onde fizeram a abertura virou um shopping.

Em Londres (2012), há uma discussão sobre o que fazer com o estádio de atletismo. Diziam que, depois dos Jogos, ele poderia ser usado para partidas de futebol, mas o estádio precisa de uma reforma e ainda não se sabe se ela deve ser bancada pela cidade ou pela liga futebolística.

BBC Brasil - Há alguma forma de evitar os prejuízos? É possível sediar os eventos sem construir elefantes brancos?

Engerman - Os comitês que organizam as Olimpíadas e a Copa do Mundo agem como monopólios. Eles impõem condições muito duras. O discurso é: "Se você quiser sediar a Olimpíada, precisará desses novos estádios; se quiser a Copa do Mundo, terá que ter jogos em diferentes cidades e prover transporte para essas cidades". Enquanto houver vários competidores buscando sediar os eventos, eles tirarão vantagem. Não há muito o que os países ou cidades possam fazer.

A exceção é Los Angeles. A cidade tem muitas faculdades pequenas e já tinha muitos estádios prontos ao sediar os Jogos de 1984. Eles também tiveram um empreendedor muito bom, Peter Ueberroth, que fez várias empresas se interessarem pelos Jogos e investirem dinheiro na cidade.

Li que estão pensando em reduzir algumas exigências para as Olimpíadas, mas talvez isso leve décadas, até que deixe de haver muitas cidades competindo.

BBC Brasil - Por que tantas cidades ainda concorrem para sediar os Jogos?

Engerman - Primeiro, porque pensam que haverá muito turismo durante o evento, o que nem sempre ocorre. Também argumentam que os Jogos serão uma desculpa para construir um sistema de transporte, como no caso de Barcelona.

Elas também pensam que ganharão bastante prestígio e glória por receber as Olimpíadas. Mas isso é questionável, porque na maioria dos casos as cidades que abrigam os Jogos já costumam ser conhecidas e não há sinais de que o movimento aumente depois da Olimpíada.

Alguns dizem que, no futuro, todas as Olimpíadas serão na Rússia ou China, porque são países com governos autoritários e que não precisam justificar tanto o uso de dinheiro público.

Mas isso está começando a mudar. Boston era cogitada como uma das competidoras para a Olimpíada de 2024, mas, após alguns estudos, o prefeito desistiu de concorrer. Ele foi muito criticado no início, mas, depois que se divulgaram os cálculos sobre a Olimpíada de Londres, mais pessoas passaram a apoiá-lo.

Algumas cidades na Escandinávia também se recusaram a competir por edições futuras. Alguns dizem que, no futuro, todas as Olimpíadas serão na Rússia ou China, porque são países com governos autoritários e que não precisam justificar tanto o uso de dinheiro público.

BBC Brasil - Muitos argumentam que a Copa do Mundo e a Olimpíada tornam os moradores locais mais confiantes e felizes. Isso não compensaria os gastos?

Engerman - Isso é algo muito difícil de medir e se tornou um dos últimos refúgios de quem defende sediar esses eventos. Quanto você pagaria por essa felicidade? Ela não vem de graça.

As pessoas estão começando a perceber que sediar esses eventos é uma forma de perder muito dinheiro rapidamente. Você poderia fazer uma pesquisa e perguntar quanto elas estariam dispostas a pagar pela Olimpíada e ver se isso é próximo de quanto elas serão cobradas. Acho que muitas delas pensariam duas vezes. Esses eventos só são atraentes se você não olhar para os custos.

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