Esporte da porta-bandeira do Brasil luta por sobrevivência olímpica

Fernando Duarte - BBC Brasil

Por duas vezes nos últimos 11 anos o movimento olímpico teve um momento "paredão", digno de reality show, em que esportes ficaram ameaçados de perder suas vagas nos Jogos.

Na mais recente votação, em 2013, por muito pouco a votação não teve efeito direto sobre uma das estrelas brasileiras da Rio 2016: o pentatlo moderno, em que compete Yane Marques, escolhida para carregar a bandeira do país sede na Cerimônia de Abertura, nessa sexta-feira, foi uma das modalidades na mira dos dirigentes do Comitê Olímpico Internacional (COI) para ficar fora da Olimpíada de Tóquio, em 2020.

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O pentatlo sobreviveu ao paredão, mas a ameaça pode voltar a rondar de perto modalidade nesta terça-feira, quando a assembleia do COI, que está sendo realizada no Rio de Janeiro, poderá votar pela inclusão provisória de até cinco esportes em Tóquio - surfe, skate, escalada artificial, caratê e beisebol. Uma inclusão, a princípio, provisória, mas que pode fazer uma senhora sombra sobre Yane - que ganhou bronze em Londres 2012 - e outros pentatletas.

Em 2103, quem acabou eliminada foi a luta olímpica, que eventualmente ganhou uma sobrevida entre os 28 esportes olímpicos depois de muitas promessas de sua federação internacional para tornar o esporte mais dinâmico e atraente, tanto para a TV quando para as faixas mais jovens do público, um segmento que o COI considera crucial para o futuro do Movimento Olímpico.

Ênfase no público jovem

Ao fim de cada edição dos Jogos, a entidade avalia as modalidades do programa e estuda novas inclusões. Nos últimos anos, a ênfase no público jovem ajudou a explicar a entrada do ciclismo mountain bike e BMX nos Jogos.

Modalidades como o surfe e o skate não poderiam ser mais opostas ao pentatlo em termos de formato e imagem, por mais que a combinação de esgrima, hipismo, natação, corrida e tiro (as cinco modalidades do pentatlo) tenha sido idealizada por ninguém menos que o aristocrata francês Pierre de Coubertin, o pai fundador do movimento olímpico, e que faça parte das Olimpíadas desde 1912.

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O skate também é uma das pontas de lança da bilionária indústria dos esportes radicais, ao passo que o pentatlo tem uma imagem bem mais elitista e ligada aos círculo militares - Yane Marques, por exemplo, é sargento do Exército.

Sem falar que rampas e acrobacias são bem mais chamativas na TV. Ou o fato de que é muito mais barato para um jovem tentar se equilibrar em um skate do que custear lições de natação, esgrima, equitação e tiro.

"Um esporte como o nosso não pode abrir mão de nossos valores históricos, mas tampouco podemos menosprezar a necessidade de nos mantermos relevantes e atraentes", disse, em uma recente entrevista, o presidente da Federação Internacional de Pentatlo Moderno, o alemão Klaus Schormann.

Novo formato

Isso, por exemplo, levou a discussões como a da criação de um novo formato de disputa, em que as competições tivessem lugar em uma mesma arena e, em vez de durar dois dias, durassem apenas cinco horas.

Após os Jogos do Rio, o COI fará uma nova rodada de avaliações, visando aos Jogos de 2024. Levará em conta uma série de quesitos que incluem repercussão, venda de ingressos e interesse da mídia. Neste ponto, a escolha de Yane Marques como porta-bandeira foi boa publicidade para o esporte.

Mudanças como o uso de pistolas a laser em vez do uso de munição nos eventos de tiro ajudaram o esporte em termos logísticos, e Schurmann lembra que o sistema de disputa do hipismo, em que os cavalos são sorteados entre os participantes e fornecidos pela organização dos eventos, diminuem os custos para os atletas.

Se isso vai ser suficiente para garantir a sobrevivência do esporte, é outra história. O pentatlo foi criado como uma espécie de teste de capacidade atlética mais apropriado para um soldado.

E desde a década de 90 fala-se que está com seus dias contados no programa olímpico. Observadores do movimento olímpico, no entanto, afirmam que a capacidade do esporte de escapar do corte não será para sempre tão forte.

Ainda mais com a possível concorrência de modalidades mais difundidas ao redor do mundo e com ídolos de apelo mais global. Que o diga o fato de Tony Hawk, skatista que virou celebridade televisiva e tema de videogame, ser um dos nomes fazendo lobby em prol do esporte radical. No caso do pentatlo, o trunfo é cada vez mais a memória do barão.

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