Os atletas que trocaram a Vila Olímpica da Rio 2016 por um transatlântico 6 estrelas

Mayra Sartorato - Da BBC Brasil em São Paulo

Ao contrário da maioria dos atletas americanos que disputam a Rio 2016, os 50 jogadores e jogadoras de basquete do país - além da comissão técnica - não ficarão alojados na Vila dos Atletas, mas sim em um transatlântico luxuoso chamado Silver Cloud e que chegou na quarta-feira à costa carioca.

O navio é um dos poucos de categoria seis estrelas do mundo e está separado do cais do porto por uma tela de material antibalístico, que resiste até a tiros de fuzil.

Segundo o site oficial da embarcação, o Silver Cloud é "espaçoso, ainda assim intimista" e "transporta apenas 296 hóspedes" em suas "suítes espaçosas com vista para o mar e varandas privativas".

Uma tripulação de 222 funcionários acompanha os passageiros durante as viagens - número que deve aumentar por causa das duas equipes de basquete, masculina e feminina. Embora não conte com quadras de basquete, ele tem academia e piscina em seus mais de 157 metros de extensão.

A delegação americana não explica oficialmente o motivo da escolha. Em entrevista à BBC Brasil, o diretor de comunicações do USA Basketball (como é conhecida a federação americana de basquete), Craig Miller, não quis entrar em detalhes. "Não há nada que eu possa acrescentar sobre isso", disse.

"Só posso dizer que não ficaremos na Vila Olímpica (outro nome dado à Vila dos Atletas), o que não é nenhuma novidade, já que não ficamos lá desde a Olimpíada de 1992."

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A ausência dos atletas do basquete na Vila Olímpica não causou grandes surpresas porque estes raramente são alojados no mesmo local em que fica o resto da delegação do país. Em edições anteriores dos Jogos, quando não ficaram em navios, os atletas do basquete dos EUA se hospedaram em hotéis ou outras acomodações mais luxuosas.

Mesmo no comunicado da decisão às autoridades brasileiras, não houve grandes explicações. "Não falaram de segurança (quando comunicaram a decisão). É uma opção de hospedagem. Sem nenhum motivo além do gosto pessoal", disse à BBC o secretário de Turismo do Rio de Janeiro, Nilo Sergio Felix.

Para Marcel Soares, ex-jogador de basquete da seleção brasileira que tem quatro Olimpíadas no currículo, optar pelos navios "é uma questão de segurança e comodidade", pricipalmente levando em conta o status de celebridade mundial de vários dos integrantes da equipe americana, como Kyrie Irving (Cleveland Cavaliers), Carmelo Anthony (New York Knicks), Paul George (Indiana Pacers), Klay Thompson, Kevin Durant e Draymond Green (os três do Golden State Warriors).

"Quando os americanos ficaram na Vila Olímpica de Moscou, por exemplo, mal conseguiam sair do lugar por causa de tantos pedidos de foto quando eram vistos", diz ele.

Para Larry Taylor, jogador de basquete americano naturalizado brasileiro que defendeu a seleção brasileira em Londres 2012, "o time americano tem muitos atletas famosos, o que deve atrapalhar".

Ele acha, entretanto, que os jogadores americanos acabam perdendo com isso. "Na Vila Olímpica, você conhece outros jogadores do mundo, as estrelas - normalmente pessoas que você só vê pela televisão - e convive com elas".

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Mas ficar hospedado em outros lugares não é privilégio apenas dos jogadores de basquete dos EUA. O futebol brasileiro masculino, por exemplo, afastou-se das acomodações oficiais nas últimas três Olimpíadas. Neste ano, também ficará fora da Vila, já que apenas duas partidas serão realizadas no Rio.

Atenas

A única vez em que os atletas de basquete dos EUA tinham ficado em um navio antes foi na Olimpíada de Atenas, há 12 anos - quando a equipe do masculino ficou apenas com o bronze, depois de perder para a Argentina na semifinal. Na ocasião, ficaram hospedados no Queen Mary 2, tido na época como o maior e mais luxuoso transatlântico em atividade no mundo.

Na ocasião, parte das cabines não usadas pelos atletas foi hospedada por turistas comuns pelo equivalente hoje a R$ 27 mil por pessoa, para otimizar o uso do navio - a mesma estratégia está sendo adotada agora com o Silver Cloud.

Apesar do preço alto, o Queen Mary 2 operou com 95% de lotação - incluindo o time americano. "Eles não me disseram por que ficariam em navios. E, para ser sincero, eu não perguntei. Só os recebi a bordo", relembra o consultor Kostas Veloudakis, que organizou a permanência americana no Porto de Pireu, em Atenas, e que supervisionará a segurança do Silver Cloud na Baía de Guanabara.

"Eu tinha um dos maiores times do mundo nos meus navios e estava provando à comunidade internacional que o porto de Pireu era seguro. O resto não interessava tanto".

Na ocasião, os jogadores e jogadoras de basquete contaram com os serviços de uma equipe de 270 pessoas que, dividida em três turnos, os atendia 24 horas. A segurança teve o reforço de uma empresa especialista em segurança marítima contratada pelo Ministério de Ordem Pública da Grécia.

A intenção era frustrar "possíveis ameaças terroristas". "Estávamos preparados para tudo. Por exemplo, o time estimava embarcar no navio em 15 minutos; nós conseguimos em oito", relata Veloudakis.

Em 2016, mais uma vez, a segurança do time americano estará sob a tutela do consultor grego. Ele diz que o Píer de Mauá estará tão seguro quanto o Pireu esteve em 2004, "apesar do momento crítico com terrorismo que o mundo está vivendo".

Além disso, conta que nada será feito de diferente por causa do time americano. "Poderia ser o time grego, o croata ou o americano: tomaríamos as mesmas precauções. São hóspedes, de qualquer forma".

Mas, segundo ele, a maior preocupação em ter o time americano a bordo não é a segurança, e sim a "questão cultural". "Porque, obviamente, falando como grego, é mais fácil receber outro grego que um americano", resume.

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