'O carioca vai sentir muito orgulho de mostrar o que é o Rio', diz americana autora de guia sobre a cidade

Julia Carneiro - BBC Brasil, Rio de Janeiro

Enquanto milhares de estrangeiros chegam ao Rio para a Olimpíada, a americana Priscilla Ann Goslin, que ajudou a decifrar o Rio para estrangeiros no livro Rau Tchu Bi a Carioca - Guia Alternativo para o Turista no Rio, diz acreditar que o entusiasmo na cidade vai deslanchar com a vinda de tantos estrangeiros, fazendo aflorar a receptividade carioca e o orgulho de mostrar a cidade.

"Acho que vai ser como na Copa do Mundo. Foi aquela festa em Copacabana, aquela alegria, as pessoas querendo ficar quando terminou o evento", diz Priscilla, que mora no Rio há mais de 30 anos.

O livro, cuja primeira edição saiu em 1991, já está em sua 35ª edição e busca traduzir para os estrangeiros as idiossincrasias dos moradores da antiga Guanabara. O inventário de descrições espirituosas de manias inclui o ritual para ajeitar o biquíni na praia, entrar no mar e sair com uma balançada vigorosa dos cabelo e a linguagem corporal necessária para proferir um enfático "qual é?".

A americana veio para o Rio com seis semanas de idade, quando o pai, piloto da Panam, foi transferido para a cidade. Começou a engatinhar no Rio, literalmente. Depois a família seguiu em frente, e Priscilla viveu em cidades como Londres, Nova York e São Francisco, mas o Rio a puxava de volta. "Não tem nada para mim que se compare ao Rio de Janeiro. Acho que fui mordida por essa paixão muito jovem", diz.

"Sou a única da minha família que fez questão de voltar. Sou carioca por opção".

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Priscilla é programadora visual e mora no bairro de São Conrado, entre a Barra e a Zona Sul, "no meio da floresta", onde costuma ver tucanos e maracatus. "Eu sei que o Rio tem muitos problemas. Sei que é uma época muito difícil. Sei que há muito para ser resolvido. Mas acho que as pessoas aqui tem uma alegria à flor da pele que é contagiante. Acho isso muito sedutor."

Rau Tchu Bi a Carioca vai virar filme, uma produção de Carlos Saldanha, diretor da animação Rio.

BBC Brasil - O Rio espera receber cerca de meio milhão de estrangeiros durante a Olimpíada. Como você resumiria o carioca para os turistas chegando?

Priscilla Ann Goslin - Acho que o carioca é incrivelmente aberto e amigável. Traz as emoções à flor da pele, o que eu acho lindo.

Você vai para um banco ou entra numa fila e, quando vê, a pessoa ao seu lado começa a compartilhar os segredos mais íntimos com você, e você nunca mais vai ver essa pessoa de novo.

Acho que há uma espontaneidade, uma paixão, que são muito sedutores, especialmente para estrangeiros vindo para o Rio.

BBC Brasil - O que te levou a escrever o livro, de onde surgiu a ideia?

Goslin - Eu convivia muito com o pessoal da asa-delta e estava na praia com um grupo de pilotos, que falavam um monte de gírias, quando passaram alguns turistas. Eram aqueles turistas bem óbvios, usando meias e sandálias, só faltava um cartaz neon dizendo "turistas".

Um deles estava com um dicionário português-inglês debaixo do braço. Eu pensei: eles nunca vão entender o que está acontecendo! Eles têm que entender as gírias.

A partir daí comecei a fazer um glossário das gírias. Mas aí pensei que eles também tinham de entender o que os cariocas estão fazendo. Como os beijinhos, que você beija duas vezes, qual bochecha beija primeiro, que você beija quando chega, beija quando vai embora. A pontualidade, ou falta de pontualidade.

Em suma, como as coisas são, para que as pessoas consigam entender a essência do carioca. Foi assim que começou.

Geralmente o turista vem, passa três dias, visita o Pão de Açúcar, o Corcovado e vai embora sem realmente entender o Rio de Janeiro. E o Rio de Janeiro é o carioca. É a beleza deslumbrante da cidade, mas é o povo.

Então você tem a cidade e o povo, quem vem primeiro? Acho que é uma sinergia entre os dois, um cresce junto com o outro.

BBC Brasil - Quais foram as principais mudanças no Rio desde que você lançou a primeira edição, em 1991?

Goslin - Bem, uma coisa que nunca muda é o senso de humor do carioca. A alma do carioca continua a mesma. Mas uma coisa que mudou muito foi a transformação nas telecomunicações. Há 20 anos ter telefone era difícil, você tinha que comprar linha, e agora mudou muito a vida das pessoas menos privilegiadas, que têm celular e têm como se comunicar, e têm internet também.

Além disso, na época do primeiro livro vivíamos uma inflação incrível. Era uma inflação tão grande que você não sabia quanto seu dinheiro ia valer no dia seguinte.

E acho que está crescendo no Rio também a conscientização sobre o meio ambiente. O carioca está se mobilizando mais para proteger a sua cidade, para exigir que os governos tomem providências necessárias para manter a cidade.

BBC Brasil - Como você acha que a Olimpíada está influenciando o estado de espírito do carioca?

Goslin - Eu estou surpresa, o clima que sinto em geral é de uma certa apreensão... Acho que é um pouco de susto do que vai vir depois. A Olimpíada é uma coisa nova, é como se fosse a Eco-92, a Copa do Mundo, os Jogos Panamericanos, tudo de uma vez. É gigantesco.

Mas acho que ao mesmo tempo o carioca vai sentir muito orgulho de mostrar para o mundo o que é o Rio de Janeiro. A gente já viu isso na Copa do Mundo. Foi aquela festa em Copacabana, aquela alegria, as pessoas querendo ficar quando terminou o evento.

BBC Brasil - Há alguma frase que para você resume o espírito carioca?

Goslin - Acho que alegria, otimismo. Eu adoro como as pessoas sempre querem ver o lado bom das coisas e não querem focar no negativo.

BBC Brasil - O Rio tem muitos problemas. Desigualdade, violência, realidades muito diferentes longe de praias como esta aqui (São Conrado). Você não está falando apenas de um carioca mais privilegiado, da Zona Sul?

Goslin - Acho que o carioca tem muitas faces. Sempre acho que o Cristo está com os braços abertos abraçando todas as pessoas que vêm para o Rio. Às vezes depende de que lado você mora, de baixo de que braço do Cristo Redentor.

Um lado é mais privilegiado, e vive lado a lado com as favelas. Acho que esses lados se encontram na praia, onde todo mundo está junto e a cidade é mais democrática.

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BBC Brasil - Vivemos no passado um momento de bastante otimismo com a cidade, com a perspectiva da Olimpíada, com o aumento de investimentos, a implantação das UPPs (as Unidades de Polícia Pacificadora). Mas agora há um certo choque de realidade, com uma nova escalada de violência, e episódios trágicos como por exemplo a queda da ciclovia na Avenida Niemeyer. Você acha que o carioca está desiludido?

Goslin - Por mais que o carioca queira ser otimista, acho que existe aquela pergunta - e quando acabar? O que vai sobrar para nós aqui do Rio? Eu temo isso. Estou adorando ver agora que os tapumes estão caindo. Que estão terminando as obras. Isso está bonito. Está ótimo. Mas como vai ser depois? Isso vai ser mantido?

O problema da ciclovia aqui em São Conrado foi um desastre horrível, nunca podia ter acontecido. Então acho que, como uma tragédia dessas aconteceu, o carioca perde ainda mais a confiança no evento como um todo. Fica parecendo uma coisa apressada para impressionar o resto do mundo. Mas acho que vai ser um sucesso, que vai dar tudo super certo. Vai ser um show, vai ser uma festa.

BBC Brasil - O país vive um momento de polarização e acirramento político. Você sente que isso se reflete também no comportamento do carioca?

Goslin - É interessante, porque sendo estrangeira eu procuro puxar conversas com meus amigos cariocas sobre o que eles acham do quadro político no Brasil, do impeachment, da situação em geral. E é um papo que não gera retorno. Acho que eles não querem muito conversar. Pelo menos não comigo. Geralmente dizem que está tudo maluco, uma droga, assim ou assado, mas a conversa para por aí.

BBC Brasil - Você vê o Rio com muito encantamento, mas os hábitos cariocas também enfrentam críticas. Há quem diga que não se trata de informalidade, mas sim de ineficiência, que o carioca não tem compromisso... Há toda essa rivalidade entre Rio e São Paulo...

Goslin - Se vem do paulista, eu acho que é inveja (risos). Eu acho que é muita inveja do carioca em geral. Acho que o Rio sempre teve essa fama de malandro, de que passa o dia todo na praia, que não faz nada e não é sério. E isso não é verdade. Pelo contrário. O carioca trabalha para caramba. Leva a vida a sério à beça.

Só que faz do jeito que faz, com essa alegria que tem na alma. Pode ser que isso dê a impressão de que são mais folgados. E não são. É uma alegria de vida que o carioca tem na alma, em tudo que eles fazem.

BBC Brasil - Há algo do carioca que você gostaria de levar de volta para os EUA, ou algo dos EUA que você gostaria de trazer para o Rio?

Goslin - Quem escreveu o livro comigo foi o Carlos Carneiro, e logo depois ele se mudou para os EUA. Ele está lá desde aquela época, morando no Arizona. É um carioca da gema, mas adora lá. Acho que é porque ele leva essa atitude, essa irreverência, esse senso de humor do carioca. Então ele vive lá com as conveniências, as facilidades de lá, mas com esse jeito carioca dele.

Eu não. Como sou anglo-saxã, eu chego lá e perco toda essa espontaneidade que eu tenho aqui no Rio. Eu volto a ser aquela pessoa séria, preocupada com a hora, estressada, fechada. Então eu levaria esse jeito de ser do carioca, tão lindo, tão espontâneo. Essa alegria de ser carioca.

BBC Brasil - E o que traria?

Goslin - Tudo que funciona tão facilmente. O que eu canso aqui é que custa muito tempo e energia ir ao banco, resolver as coisas da vida. Não é muito eficiente. E lá é uma eficiência total. Então traria isso para cá.

BBC Brasil - Você já mora no Rio há mais de 30 anos. Tem algo que ainda te choque na cultura carioca, ou que você ainda está aprendendo?

Goslin - Sempre quero aprender a ser mais carioca. Acho que o que aprendo mais a cada dia é não me levar tão a sério. Carioca é tão relaxado, tão de bem com a vida, tão feliz.

E eu que sou anglo-saxã, com mãe finlandesa ainda por cima... É uma cultura muito melancólica, aquela coisa mais dramática, então o Rio me ajuda a tirar isso e não me levar tão a serio. A me soltar. Adoro aquela musica de Gonzaguinha. De cantar e não ter medo de ser feliz.

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