País dividido terá trégua nos Jogos, diz analista francês

Daniela Fernandes - De Paris para a BBC Brasil

O Brasil é um país dividido e polarizado, mas que terá uma "trégua" durante os Jogos Olímpicos, na visão do cientista político Gaspard Estrada, diretor-executivo do Observatório Político da América Latina e Caribe (Opalc), do renomado Instituto de Estudos Políticos de Paris, conhecido como "Sciences-Po".

Estrada diz que quando o Rio foi escolhido para sediar o evento em 2016, "para o ex-presidente Lula...a Olimpíada deveria concretizar a ascensão do Brasil no cenário internacional". Mas o Brasil que recebe o evento "é uma nação dividida e polarizada, com dois presidentes brigando pelo poder", diz Estrada.

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Segundo ele, o Brasil vive nesse período um momento de "trégua Olímpica", onde as crises política, econômica e social serão momentaneamente deixadas de lado.

"É algo semelhante ao que acontecia na Grécia Antiga, quando os Jogos Olímpicos eram sinônimo de paz. As guerras eram momentaneamente interrompidas para que as competições fossem realizadas. Apesar do contexto ser diferente, o Brasil também passa por uma situação desse tipo", afirma o analista.

Estrada também afirma que, mesmo se for efetivado no cargo, o presidente interino Michel Temer terá dificuldades para governar e aprovar reformas.

"Após a trégua Olímpica, haverá, nos próximos meses, profundas lutas políticas", prevê o analista.

Ele prevê um protagonismo maior de Lula nessa luta, no caso do impeachment de Dilma Rousseff.

"Como o mais provável, no momento, é que o Lula seja o candidato do PT em 2018, se ele conseguir se manter nessa posição até lá, a disputa será mais entre Lula e o governo interino", afirma.

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Se o impeachment for aprovado, acrescenta Estrada, "os mercados, que hoje apoiam o governo interino porque não querem o retorno de Dilma, passarão a cobrar resultados e a adoção de medidas impopulares, como o corte de gastos, o que deve a aumentar o clima de tensão social" nos próximos meses.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

BBC Brasil - As Olimpíadas podem ter algum impacto na disputa política? O evento pode beneficiar o governo interino de alguma forma?

Gaspard Estrada - Michel Temer deve utilizar esse evento, considerado também diplomático e que terá a presença de vários chefes de Estado, para tentar mostrar a legitimidade de seu governo à comunidade internacional e, com isso, também à população brasileira. Poucos líderes latino-americanos confirmaram presença, o que denota embaraço com a situação política indefinida no Brasil.

Mesmo que não estejam previstos encontros bilaterais com autoridades, Temer vai receber os chefes de Estado, provavelmente tirar fotos com eles, e deve tirar proveito disso para tentar melhor sua imagem no exterior e a de seu governo, impopular, entre os brasileiros.

BBC Brasil - O início da votação do impeachment de Dilma está previsto poucos dias após o encerramento dos Jogos Olímpicos. A competição e o clima geral no país podem influenciar o julgamento?

Estrada - Não acho que o clima pós-Olimpíadas terá algum impacto na votação do impeachment. Os senadores vão votar em função de seus próprios interesses. Eles serão pragmáticos. Os votos a favor ou contra a destituição de Dilma Rousseff vão ficar atrelados a barganhas e a acertos e disputas políticas.

Basta ver o caso do senador Eduardo Braga (PMDB-AM), que decidiu votar pelo impeachment após encontro com Temer, esperando garantir, em contrapartida, o apoio do presidente interino para acelerar o processo de cassação do governador do Amazonas.

BBC Brasil - Qual é a sua visão do momento atual do Brasil?

Estrada - O processo de impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff não amenizou a crise no Brasil. Assistimos a uma batalha política e de comunicação entre o governo interino e a presidente afastada.

Diferentemente da destituição do presidente Fernando Collor, o impeachment da Dilma está dividindo o Brasil. Seu partido, o PT, tem força política. Além disso, os escândalos de corrupção atingem toda a classe política brasileira. Todas os problemas revelados pela crise não estão sendo resolvidos pelos políticos.

BBC Brasil - Quais são os principais problemas que continuam sendo deixados de lado?

Estrada - A grande promiscuidade entre o dinheiro e a política, causada por um sistema eleitoral que funciona mal. No Brasil, as campanhas são caras demais, basta ver os ganhos dos marqueteiros. Na França, por exemplo, há uma quantia máxima para as despesas de campanha, que não é calculada em função dos gastos mais elevados na eleição anterior.

O sistema também favorece a fragmentação de partidos no Congresso, dificultando a aprovação de medidas, o que abre espaço para barganhas e problemas éticos. São falhas estruturais e tenho dúvidas de que a necessária profunda reforma política seja realizada. Não há interesse em mudar o sistema atual. O PMDB e os partidos do centrão são os maiores beneficiários do sistema. Vejo a situação com pessimismo e acho que a lição da crise não está sendo aprendida.

BBC Brasil - Como deverá ser o futuro governo Temer, caso o impeachment seja aprovado pelo Senado?

Estrada - O governo Temer terá muitas dificuldades para governar e acredito que a crise vá continuar. O governo interino não tem força política para aprovar as reformas necessárias, como os cortes de gastos. O Temer vai ter de enfrentar as pressões do mesmo Congresso que se recusou a adotar medidas de austeridade propostas por Dilma Rousseff em 2015. O Congresso continua fragmentado e vai exigir contrapartidas para votar medidas consideradas impopulares.

Além disso, o governo Temer tem baixo índice de aprovação, de apenas 13% segundo pesquisas. Elas também revelam que muitos consideram o governo interino ilegítimo e que 60% defendem eleições antecipadas.

BBC Brasil - Qual é a sua avaliação da proposta anunciada por Dilma de propor plebiscito sobre eleições presidenciais antecipadas?

Estrada - É a última cartada dela e, ao mesmo tempo, isso responde a um anseio popular, como revelam as pesquisas.

O Congresso abriu um precedente que pode permitir a derrubada de um presidente por motivos políticos. Alguns defendem que ainda não está claro se a Dilma realmente fez algo que justifique sua destituição.

BBC Brasil - Há perspectivas de melhoria da situação econômica no governo Temer? Organizações internacionais preveem recessão no Brasil também em 2017.

Estrada - O governo Temer tem dados sinais ambíguos. De um lado, ele anuncia cortes nos gastos da saúde e da educação e questiona a eficácia de programas sociais. Por outro, permite aumentos salariais do funcionalismo, que recebeu reajustes importantes, apesar do discurso de austeridade prometido por Temer.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, tem uma boa imagem nos meios financeiros. Os mercados, que não tinham confiança na gestão de Dilma, têm dado sinais de boa vontade em relação ao governo interino, mas acho pouco provável que isso dure muito tempo. A economia brasileira estava indo mal com a Dilma e continua indo mal com o Temer.

BBC Brasil - Há algum avanço na situação do país?

Estrada - Eu diria que, em vez de avançar, há mais retrocessos. Antes, havia uma agenda em relação às minorias. Ao nomear uma equipe composta apenas por homens e brancos, além de ministros envolvidos em escândalos de corrupção, Michel Temer dá sinais de que ele prefere manter o status quo, a mesma situação anterior.

BBC Brasil - Em seu artigo publicado em jornais internacionais, como o francês Libération , na quarta-feira, o senhor escreve que a Justiça se tornou, em parte, um instrumento de provocação política. Por quê?

Estrada - A tripla crise no Brasil, política, econômica e social, também revelou a falta de pluralismo na mídia, que tratou a situação com parcialidade e de forma incompleta.

A Justiça tem desempenhado um papel crucial na revelação dos escândalos de corrupção que pesam sobre a elite política, isso é certo. Mas algumas ações, como a condução coercitiva do presidente Lula, podem, a meu ver, serem questionadas. É importante que a Justiça continue suas investigações e atue em função das provas encontradas.

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