Rio 2016: cinco temas sensíveis para prestar atenção durante a festa de abertura

Jefferson Puff - @_jeffersonpuff - Da BBC Brasil no Rio de Janeiro

Apesar de todo o segredo, muitos detalhes sobre a cerimônia de abertura dos Jogos Rio 2016 se tornaram conhecidos nos últimos dias. De tão comentados, alguns teriam até já sido alterados tamanha a repercussão negativa gerada entre a população e a imprensa.

Diante do que foi divulgado, a BBC Brasil mapeou cinco pontos que podem criar polêmica durante o evento marcado para esta sexta-feira às 20h no Maracanã, no Rio de Janeiro, quando cerca de 1 bilhão de pessoas ao redor do mundo devem assistir ao show que declarará oficialmente aberta a primeira Olimpíada da América do Sul, após sete anos de preparação.

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A reportagem ouviu cinco especialistas para comentar o que seria a simulação de um assalto à modelo Gisele Bündchen (que teria sido eliminado do script após as críticas), o uso de elementos como samba e funk e a discussão sobre clichês brasileiros, o segmento em que os 12 mil atletas devem ser convidados a plantar mudas de árvores e o legado ambiental dos Jogos, o estímulo à diversidade sexual e a inserção inédita dos LGBTs, e a forma como o Brasil será mostrado para o mundo.

1 - Assalto e violência: "Ideia estapafúrdia, piada de extremo mau gosto"

Segundo a imprensa os organizadores da cerimônia de abertura planejavam um segmento em que, ao som de Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, a modelo internacional Gisele Bündchen desfilaria pelo campo do Maracanã e seria abordada por um jovem carioca numa tentativa de assalto. Pouco depois policiais abordariam o assaltante, que seria protegido pela gaúcha.

O tema gerou tamanha repercussão negativa entre a população e a mídia que um dos diretores artísticos do espetáculo, o cineasta Fernando Meirelles, que dirigiu o filme Cidade de Deus, veio à público para negar a inclusão do segmento. "(Seria como) essa coisa que acontece de alguém invadir o campo, e os caras (policiais) vão tirar. Era para fazer uma selfie", disse em coletiva de imprensa.

No Twitter, Meirelles chegou a negar que o "assalto" tivesse sido incluído na abertura, apesar de fotos e vídeos publicados na imprensa após um ensaio geral no último domingo.

Para Julita Lemgruber, ex-ouvidora da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro e diretora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, incluir um assalto na abertura dos Jogos seria algo "absurdo".

"Felizmente alguém com o cérebro funcionando acordou a tempo e percebeu que tratava-se de uma ideia estapafúrdia. Quando li isso na imprensa nem pude acreditar que de fato era uma proposta, pensei que só poderia ser uma piada de extremo mau gosto", diz.

Na visão da especialista, a análise passa mais pelo impacto que o segmento teria sobre os brasileiros do que a mensagem que poderia passar para o mundo. "Não vou ficar elocubrando sobre a visão que o estrangeiro teria sobre algo que nem vai mais acontecer. O fato é que devido ao número de homicídios no Brasil e a situação da segurança pública no Rio de Janeiro, com a falência das UPPs e um clima dramático, seria como fazer chacota da situação, algo totalmente inaceitável", diz.

Lemgruber também destaca o contraste entre a presença de policiais, Força Nacional e militares nas áreas de competições olímpicas, sobretudo a Barra da Tijuca e a Zona Sul do Rio, e a situação atual em favelas como a Maré e o Alemão, que nos últimos dias têm sido alvo de operações policiais e intensos tiroteios.

"De um lado temos a tranquilidade trazida pela forte militarização nas áreas da Olimpíada, e do outro as cenas absolutamente dramáticas para quem mora nas favelas do Rio, que têm acordado com tiroteios todos os dias. De um lado a presença massiva de forças de segurança, e do outro essa higienização. É quase um teatro, uma pantomima da realidade. No palco essa farsa, e nas coxias, nos bastidores, esconde-se o que ninguém quer mostrar", avalia.

2 - Mudas de árvores e legado ambiental: "Nada mais do que uma peça de marketing"

Outro tema que pode gerar polêmica é o da sustentabilidade e legado ambiental dos Jogos. Segundo informações divulgadas pela imprensa, os 12 mil atletas que desfilarão pelo Maracanã quando cada delegação será anunciada devem ganhar mudas de árvores que serão plantadas no Parque Radical, no Complexo de Deodoro, na zona norte do Rio, o que deve dar início a uma espécie de "floresta olímpica" no futuro.

Para o biólogo Mário Moscatelli, ativista que encabeça campanhas e apelos pela despoluição e recuperação da baía de Guanabara e do sistema de lagos do Rio de Janeiro há quase 30 anos, o segmento não é "nada mais do que uma peça de marketing, um ato carnavalesco, espetaculoso, que não se preocupa com o que virá depois".

"Não é missão dos atletas salvar a natureza. Eles estão aqui para competir. Serão 12 mil árvores, e eu espero que ao menos 10% delas sobrevivam. Plantar é fácil, cuidar é difícil. Vamos ver quantas sobreviverão daqui um ano", indica.

Sobre as polêmicas em torno da ausência de legado ambiental dos Jogos no Rio de Janeiro, Mario ressalta tratar-se de "mais uma promessa não cumprida, a exemplo do que ocorreu nos Jogos Panamericanos, em 2007".

Os organizadores tinham prometido tratar 80% do esgoto que deságua na baía de Guanabara. Mas, segundo o Estado do RJ, eles conseguiram apenas aumentar a taxa de 11% para 51% - e não foi possível despoluir a Lagoa Rodrigo de Freitas nem as lagoas da região da Barra da Tijuca e Jacarepaguá,

"Não se pode falar em zero legado ambiental, porque trataram um pouco do esgoto que chega à baía. Nos prometeram um avião Jumbo e nos entregaram um teco-teco. Adianta muita coisa? E se houver crítica na mídia e entre a população, após a abertura, é tarde demais. Para a natureza, pouco importa criticar agora. Isso deveria ter sido feito cinco anos atrás", diz.

Moscatelli lamenta o que considera uma "oportunidade perdida". "Mais uma vez perdemos uma chance, como nos Jogos Panamericanos. Vai demorar para termos um estímulo tão grande como uma Olimpíada para resolvermos os problemas da baía e das lagoas", ressalta.

3 - Samba, funk e clichês: "Somos múltiplos, mas ao nos apresentarmos e dizer quem somos é impossível não haver reducionismos"

Apesar de terem anunciado o distanciamento de clichês e estereótipos para ilustrar a cultura brasileira, segundo relatos da imprensa, os organizadores incluíram na abertura diversos segmentos em que aparecem o samba e o funk, além de terem convidado cantores e artistas que construíram suas carreiras em torno destes ritmos. Ao lado de cada delegação devem entrar ritmistas tocando tamborins e cuícas e, ao final do show, escolas de samba como Mangueira, Portela e Mocidade Independente transformarão o Maracanã num grande Carnaval.

Para Roberto DaMatta, um dos mais respeitados antropólogos do país, historiador formado pela UFRJ e PhD em antropologia pela Universidade de Harvard, apesar das críticas e polêmicas que a inclusão dessas referências podem suscitar, é normal que ao nos "apresentarmos para o outro, ocorram reducionismos".

"É muito difícil não cair em clichês e estereótipos porque ao dizer quem somos estamos essencialmente fazendo um exercício de redução. Na realidade, sabemos que somos múltiplos, mas neste momento precisamos colocar uma etiqueta que diga que somos brasileiros, isso é natural, não tem saída", disse ele à BBC.

Para ele, se a cerimônia ocorresse na Alemanha, seriam retratados elementos como a cerveja, as paisagens da Baviera, a Oktoberfest. Se fosse na França, apareceriam Edith Piaf, queijo camembert e o can-can, se fosse na Itália, certamente estaria incluída uma referência a alguma ópera ou até ao Vaticano e ao papa, e se fosse na Rússia começaria com a apresentação de um balé russo.

"Pelo que eu ouvi na mídia não vai ser só samba e funk. Também vai ter bossa nova, tropicália, Gilberto Gil, Caetano Veloso, referências às praias cariocas, à hospitalidade brasileira", diz.

Sobre o momento em que o 14 Bis, invenção de Santos Dumont no início do século 20, é montado e levanta voo em pleno Maracanã, e as possíveis criticas de que este seria um dos poucos momentos em que grandes conquistas do Brasil são ressaltadas no show, DaMatta diz que seria difícil retratar outros feitos que não esse.

"Não inventamos nada. Não temos uma grande marca de automóveis, não temos nenhuma grande invenção tecnológica que não o 14 Bis. Como é que você mostraria o Carlos Chagas descobrindo a doença de Chagas num show como esse? Com um microscópio no meio do estádio? O que mais incluiríamos além do Santos Dumont?", questiona.

DaMatta diz que, apesar das potenciais críticas, o brasileiro precisa ter em mente que, apesar do fato de o momento ser de crise inédita na história contemporânea do país e que "não se trata do momento ideal para sediar uma Olimpíada", há outros lugares do mundo em situação pior. "Imagina fazer uma Olimpíada em Paris neste momento, com o número de ataques terroristas lá recentemente. Quem iria?", diz.

4 - LGBTs e diversidade sexual: "É melhor do que nada, mas Brasil ainda mata muitos LGBTs e momento atual é de retrocesso"

Incluído na abertura dos Jogos como um dos pontos de destaque, o tema da diversidade sexual deve gerar debate tanto entre os setores conservadores que desaprovam a ascensão dos LGBTs e da união entre pessoas do mesmo sexo, como entre ativistas da área, devido ao potencial uso de clichês ou ausência de críticas ao Brasil.

Felipe Oliva, ex-membro do Conselho Municipal de Políticas LGBT de São Paulo e integrante do Grupo de Advogados pela Diversidade Sexual e de Gênero, vê com bons olhos a inserção da temática no show e a participação da modelo internacional Lea T, primeira transexual a ter papel de destaque numa abertura na história dos Jogos.

Para ele, no entanto, é importante lembrar que, apesar de todo o clima de festa e celebração da diversidade, os LGBTs ainda são mortos em grande número no Brasil e o país trilha atualmente um caminho de retrocesso e obscurantismo na área.

"Há uma forte contradição entre a teoria e a prática. É interessante terem dado essa oportunidade inédita aos transexuais, mas ao mesmo tempo o Brasil é o país que mais mata transexuais e travestis no mundo", diz.

Dados da ONG Transgender Europe (TGEU) compilados entre janeiro de 2008 e março de 2014 indicam que o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, com 604 mortes registradas no período. De acordo com o Grupo Gay da Bahia, que há anos compila os índices de assassinatos de LGBTs, somente em 2015 foram 318 mortos, sendo 52% gays, 37% travestis, 16% lésbicas e 10% bissexuais. Em 2014 foram 326 assassinatos. O levantamento é feito em 187 cidades brasileiras.

"Espero que além da festa, o momento sirva para as pessoas refletirem sobre o fato de que o país ainda não aprovou a criminalização da homofobia nem a lei que permite que transexuais e travestis alterem seus nomes em documentos de forma universal. Além disso, deve-se ressaltar que o governo interino atualmente no poder eliminou o ministério encarregado dos direitos humanos onde estava incluída a atenção aos LGBTs e já recebeu a bancada conservadora e religiosa para reuniões mas recusou sentar-se à mesa com os movimentos LGBTs", avalia.

Para Oliva, apesar de avanços nos últimos anos e da inserção histórica na cerimônia de abertura, o consenso entre os movimentos LGBTs é de o momento atual no país é de "retrocesso e medo do que está por vir".

5 - Etnias, crise, 'gambiarras' e possíveis vaias: "Estrangeiros devem só reforçar imagem que já têm do Brasil"

Ao longo dos preparativos para a cerimônia de abertura dos Jogos os organizadores não esconderam que a crise econômica, que forçou redução de 30% no orçamento do Comitê Rio 2016 e por consequência diminuiu as verbas para o show, foi um fator importante nas decisões sobre o que incluir e o que deixar de fora.

Em fevereiro, o vice-presidente do consórcio responsável pelos eventos da Olimpíada, Flávio Machado, negou, em entrevista à BBC Brasil, que as cerimônias fossem ser "simples", mas reconheceu que as verbas eram muito menores do que as de Londres (2012) e Pequim (2008), por exemplo, e que diretores artísticos precisariam ter criatividade por não poderem "esbanjar".

Além disso, ele ressaltou que o clima no país não era propício a exageros. Diante disso, muitos elementos do show teriam se apoiado em "gambiarras", ou improvisos, que também seriam retratados como uma das forças do brasileiro.

A imprensa também divulgou recentemente que no momento de ressaltar a história e a composição étnica brasileira, a cerimônia mostra índigenas, africanos e portugueses, mas não dá destaque às diversas ondas de imigração que ajudaram a formar a população do país.

Para Guilherme Casarões, professor de Relações Internacionais da FGV e da ESPM, tais aspectos devem somente reforçar a imagem que o mundo já tem do Brasil. "Elementos como esses tendem a reforçar a imagem do jeitinho brasileiro, do país que faz tudo em cima da hora", diz.

Sobre a crise econômica, o especialista considera que será algo indissociável quando a mídia estrangeira avaliar a abertura. "Anos atrás, a imprensa de fora ainda era otimista, enquanto o Brasil já dava sinais de crise. Agora perderam essa ingenuidade. É natural que não tenhamos uma abertura tão grandiosa como a de Londres ou Pequim. Houve limite orçamentário e não seria condizente com a situação atual do país", avalia.

Casarões diz que teria sido interessante incluir outros grupos étnicos que ajudaram a construir a população brasileira, como japoneses, italianos, alemães, judeus, libaneses, sírios, e, mais recentemente, haitianos. "Seria complicado, no entanto, decidir se incluiriam todo mundo. Se ficasse alguém de fora haveria críticas. Outra coisa é que a sociologia brasileira tem essa ideia cristalizada de que a formação do país é realmente de índios, africanos e portugueses", diz.

Em meio às especulações na imprensa de que o pronunciamento do presidente interino Michel Temer seja acompanhado de vaias e de como isso pode repercutir para o mundo, Casarões acredita que não há como esconder a crise.

"Anos atrás a mídia estrangeira ainda era otimista com o Brasil, apesar de já darmos sinais de derrocada. Agora, a crise econômica e política é tão escancarada que ninguém tem mais ingenuidade com a nossa situação. Se houver vaias, serão um infeliz sintoma do momento que o país está atravessando e entre os estrangeiros dificilmente haverá surpresa ou choque. É o que estão esperando", diz.

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