Romênia tem inédito 'bloco do eu sozinha' na ginástica artística

Fernando Duarte - BBC Brasil no Rio de Janeiro

Se ter competidores atuando sozinhas ou sozinhos na ginástica artística numa Olimpíada não é algo novo, dado o rigoroso sistema de classificação para competições de alto nível, a imagem de Catalina Ponor sendo felicitada apenas pela comissão técnica da Romênia na Rio 2016 foge - e muito - do ordinário.

Um dos países mais tradicionais do esporte, com 72 medalhas olímpicas, 25 delas de ouro, a Romênia não apenas pela primeira vez na história da competição falhou em se classificar para a disputa por equipes como apenas Ponor conseguiu vaga para as disputas na Arena Olímpica do Rio, que começaram neste domingo.

O fracasso romeno ficou ainda mais desconfortável porque 2016 marca os 40 anos da inesquecível apresentação de Nadia Comaneci nos Jogos de Montreal, quando ganhou cinco medalhas olímpicas, três delas de ouro, e conseguiu uma até então inédita nota 10.

Ironicamente, as romenas viram o sonho da equipe ruir justamente no Rio, durante um evento classificatório disputado em abril, em que tiveram desfalques por lesões. Mas isso apenas ressaltou o que especialistas na ginástica veem com a decadência do esporte no país: a competição de teste carioca era a última chance das romenas depois de péssimos resultados em torneios maiores, como o Mundial.

A própria presença de Ponor na Rio 2016 é mais um sinal de que as coisas não vão bem. Ela tinha encerrado sua carreira depois dos Jogos de Londres, com cinco medalhas no currículo (incluindo três ouros em Atenas 2004) e uma série de problemas médicos. Mas voltou à ativa em 2014, ao lado de outras veteranas, para tentar ajudar a equipe romena a frear sua queda no ranking mundial.

Porém, nem essa força-tarefa foi capaz de salvar a pátria. A desclassificação teve na Romênia o mesmo impacto emocional do 7 a 1 levado pela seleção brasileira de futebol na última Copa do Mundo. Atletas e treinadores criticaram a falta de investimento no esporte e a Federação Romena de Ginástica teve seus métodos de treinamento e formação de atletas seriamente questionados, enquanto países sem tradição na ginástica, como Bélgica e Holanda, conseguiram classificar equipes pela primeira vez em décadas.

Pressão?

Mas se engana quem pensa quem Ponor chegou cabisbaixa ao Rio. A romena, apelidada de Tulipa Negra, ao menos nas mídias sociais parece estar divertindo mais do que nunca. Seu Instagram está repleto de selfies na Vila Olímpica, para o deleite de seus mais de 53 mil seguidores. Um séquito que inclui brasileiros, surpreendentemente, já que Ponor foi a grande rival da gaúcha Daiane dos Santos.

"Não é que vou deixar de sentir falta de competir com a equipe, pois estivem em duas Olimpíadas com as meninas e foi uma experiência inesquecível", diz a romena, que mede 1,56m.

"Só que isso ao mesmo tempo tira muito a pressão dos meus ombros, porque não vou precisar ter a responsabilidade de carregar o time. Se cometer erros, a culpa é minha, e não prejudico ninguém. E vice-versa", completa.

Ao menos a delegação romena olímpica não é o que se pode chamar de pequena. Tem mais de 150 integrantes, e é com eles que a ginasta também posta fotos animadas do grupo. Ponor parece estar curtindo também a pouca atenção que o ocaso romeno lhe trouxe: longe do auge de sua forma, ela não aparece como medalhista na Rio 2016 em nenhuma das previsões de medalha publicadas por publicações como a revista americana Sports Illustrated.

"Não estou me colocando a pressão de uma medalha, apenas quero fazer o meu melhor na competição. É um prazer estar aqui no Brasil porque os torcedores daqui sempre tiveram o maior carinho comigo", diz a Tulipa Negra, com um sorriso.

Mas a pressão continua sobre os ombros de Ponor. Razvan Ionascu, jornalista e ex-agente da ginasta, afirma que a crise da ginástica romena pode ser amenizada caso Ponor saia do Rio com uma medalha - em especial nos exercícios da trave, seus preferidos.

"Ela pode até dizer que não, mas continua carregando a Romênia. E ela sabe disso".

E em meio à crise, a solidão de Catalina parece ter acordado os romenos. Incluindo a grande Comaneci, para quem a situação do país na Rio 2016 pode servir como uma chance preciosa de mudanças.

"Terei um nó na garganta quando ver a competição por equipes sem a Romênia. Mas essa Olimpíada precisa servir de exemplo para repensemos nossa preparação de atletas. Catalina não vai durar para sempre e nem pode fazer tudo sozinha em uma equipe", afirmou Comaneci, hoje com 54 anos, em uma entrevista coletiva na semana passada.

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