Amuletos, toalhas molhadas e corcundas: as superstições de campeões olímpicos na busca por medalhas

Fernando Duarte - BBC Brasil no Rio de Janeiro

Com um arsenal de câmeras e programas de computador, usados para estudar minuciosamente táticas e movimentos de jogadores adversários, o vôlei é um dos esportes que mais se fia no auxílio da tecnologia para obter vitórias.

Mas nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, o técnico da seleção feminina, José Roberto Guimarães, recebeu uma injeção de ânimo ao avistar um voluntário corcunda na entrada da Vila Olímpica.

Em 1992, quando comandou a equipe masculina na conquista do ouro olímpico, em Barcelona, então o primeiro do Brasil em um esporte coletivo, Guimarães tinha sido servido antes do torneio por um garçom corcunda em um restaurante da cidade espanhola.

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Vinte anos depois, ele acreditou ter recebido um sinal.

"Eu toquei na corcunda dele, fingindo estar trocando um pin, e fiz um pedido para que fossemos à final olímpica", contou o treinador, pouco depois da vitória, de virada, sobre as americanas na partida final.

Até para os padrões de José Roberto Guimarães e sua coleção de manias, foi um caso extremo de superstição - durante a campanha de Barcelona, o treinador impediu que um jogador fizesse a barba, para que não interrompesse uma sequência de vitórias.

Mas nem de longe ele é o único. No mundo do esporte olímpico, superstições, mandingas e manias acompanham atletas, treinadores e dirigentes.

Elas incluem rituais "disfarçados". O lendário nadador americano Michael Phelps, por exemplo, gira os braços pelo menos três vezes antes de subir no bloco de partida para as competições de natação. Estranho, mas algo bem menos surpreendente do que o hábito do cavaleiro japonês Yoshiaki Oiwa de jogar sobre ele e o cavalo antes de uma corrida.

A halterofilista americana Morghan King diz usar a mesma calcinha e o mesmo par de meias com que começou a competir - devidamente lavados antes de cada nova competição, ela faz questão de ressaltar.

Já a ciclista britânica Laura Trott, campeã olímpica em Londres, gosta de pisar em uma toalha molhada antes de colocar as sapatilhas de corrida, para ficar com as meias úmidas - isso porque ganhou uma corrida júnior quando acidentalmente competiu com as meias nessa condição.

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Bichos de pelúcia viram amuletos, muitas vezes até levados ao local de competição.

Quando venceu o salto em distância nos Jogos de Pequim, em 2008, por exemplo, a brasileira Maurren Maggi tinha na mochila, além de material esportivo, o cachorro de pelúcia Leão. Na Rio 2016, a atleta australiana do rúgbi Evania Peite tem um canguru que carrega até mesmo para a mesa de refeições.

Superstição universal

Os exemplos acima mostram que a superstição parece ser universal no mundo esportivo, e não ligada a uma cultura específica. E é levada a sério por estudiosos do esporte: diversos estudos defendem as mandingas e afins como processos que podem reforçar a confiança de atletas diante de situações de incerteza.

Existem dois chamados benefícios: um deles é que os rituais evitam que se pense demais em coisas negativas, servindo como um escudo contra ansiedades e os nervos. O outro é um efeito placebo que ajuda a criar uma sensação de controle.

"Na psicologia, chamamos isso de locus de controle externo, que é a expectativa de que o desempenho seja influenciado por coisas como um amuleto. E isso, curiosamente, não está relacionado à crença religiosa. Não estamos falando de quem se benze, por exemplo, mas de quem acha que usar meias de uma cor pode ser uma ajuda especial", explica Paula Teixeira Fernandes, coordenadora do Grupo de Estudos em Psicologia do Esporte e Neurociências da Unicamp.

Fernandes explica que comportamentos supersticiosos são muito mais comuns em esportes individuais, em especial o tênis e a ginástica artística. Mas também se observa com frequência em pelo menos dois jogos coletivos: o basquete e o vôlei.

"São modalidades que tem momentos de 'isolamento'. No vôlei, por exemplo, jogadores supersticiosos têm toda uma rotina na hora do saque. Mas é nos individuais que ele é muito mais comum. Especialmente em momentos de maior tensão, justamente as competições."

Seria uma espécie de transtorno obsessivo compulsivo esportivo? Fernandes discorda.

"Em nossa experiência no trabalho com atletas de base e profissionais, vimos que os atletas exibiam o comportamento supersticioso dentro de quadra, e não em situações normais."

Mas os especialistas hesitam em encorajar demais comportamentos supersticiosos. Em Londres, a empresa Inner Drive, conhecida pelo trabalho com jogadores profissionais de futebol da Liga Inglesa, usa uma abordagem que estimula o atleta a confiar mais em aspectos que realmente estão diretamente ligados ao desempenho esportivo.

Brad Busch, coordenador da Inner Drive, diz que a melhor maneira é o próprio atleta analisar suas rotinas de preparação para identificar o que é uma forma de relaxamento e o que pode se tornar comportamento irracional.

"Se alguém esquece as meias da sorte em casa e fica ansioso, isso se transforma de rotina benéfica para uma superstição que atrapalha", explica Busch em suas palestras.

Até porque nem sempre as superstições se aplicam ao próprio supersticioso. Laura Unsworth, da equipe de hóquei sobre grama britânica, costuma policiar hábitos das colegas de time que, na sua opinião, influenciam resultados.

E isso inclui penteados: em um torneio internacional, proibiu que uma colega de time alisasse os cabelos antes das partidas depois de uma derrota.

Psicólogos também alertam para uma realidade: por mais confiável que seja a mandinga, não é ela que está ganhando o jogo.

"Se o atleta não estiver bem, não há objeto da sorte ou rotina que vai levar a medalha para ele", finaliza Fernandes.

Um exemplo? O fato de que quatro das 23 medalhas olímpicas conquistadas por Phelps não são de ouro...

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