Rio 2016: Festas e viagens atraíam clientes ricos de 'máfia dos ingressos', diz polícia

Jefferson Puff - @_jeffersonpuff - Da BBC Brasil no Rio de Janeiro

A empresa britânica que está na mira de uma investigação da Polícia Civil do Rio de Janeiro sobre revenda ilegal de ingressos da Rio 2016 atraía clientes de alto poder aquisitivo com coquetéis, festas e pacotes em hoteis de luxo. Um ingresso de valor médio de R$ 1,4 mil poderia acabar saindo por até R$ 25 mil.

Na última sexta-feira, policiais foram até um hotel na Barra da Tijuca e prenderam o irlandês Kevin James Mallon e a brasileira Barbara Carnieri durante uma recepção no dia da abertura dos Jogos, quando clientes da empresa THG receberiam os ingressos, comprados por até US$ 8 mil.

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"O trabalho de monitoramento e investigação levou um ano, e no dia da prisão em flagrante localizamos 813 ingressos com o grupo. O valor real somado de todas as entradas chega a R$ 626 mil, mas com a venda ilegal o grupo teria lucros exorbitantes, de até R$ 10 milhões", disse à BBC Brasil o delegado Ricardo Barbosa, da Delegacia de Defraudações, que chefia o inquérito.

Segundo Barbosa, o suposto esquema é maior do que o do grupo que foi acusado - e ainda responde na Justiça - por venda ilegal de ingressos na Copa do Mundo.

A britânica THG, que também foi citada no caso da Copa, não estava credenciada para a compra de ingressos diretamente com o Comitê Olímpico Internacional (COI). Outra empresa, a Cartan Global, baseada nos EUA, fazia a intermediação.

A origem dos ingressos ainda não foi esclarecida. Além dos que eram obtidos por meio da Cartan de forma supostamente idônea, acredita-se que outros estivessem destinados à "família olímpica", como é chamado o grupo de dirigentes e personalidades ligadas ao Movimento Olímpico.

Segundo o jornal britânico The Guardian, parte dos ingressos apreendidos pela polícia continha o nome do Comitê Olímpico Irlandês. Em nota ao jornal, a entidade negou ter conhecimento disso e disse que faria uma investigação imediata para averiguar o assunto.

Investigação

Supeitos de ligação com a THG, o irlandês Kevin James Mallon e a brasileira Barbara Carnieri foram transferidos para o presídio de Bangu, na Zona Oeste do Rio, e devem enfrentar processo.

A THG não estava credenciada para revender ingressos do COI nos Jogos do Rio, embora tivesse obtido acordos para isso nos Jogos de Londres 2012 e nas Olimpíadas de Inverno de Sochi (Rússia) 2014.

O dono da THG seria o britânico Marcus Evans, dono do time de futebol inglês Ipswich Town. Kevin Mallon portava um crachá do grupo de Evans. Com 69 escritórios e milhares de funcionários, a THG é uma das maiores empresas mundiais de ingressos e pacotes de hospitalidade esportivos.

O irlandês Mallon é suspeito de associação criminosa, marketing de emboscada (como é chamada a estratégia de se associar de forma indevida a um evento para obter benefícios de um patrocinador oficial) e facilitação de cambismo. Já a brasileira é investigada por marketing de emboscada. A reportagem não conseguiu localizar seus advogados.

O delegado Barbosa disse que o trabalho está "apenas começando" e que mais detalhes da operação devem vir à tona nos próximos dias. "Há muitas evidências contra o grupo, que já atuou no mesmo esquema em vários eventos em diferentes países, mas no Brasil teve insucesso nas atividades criminais pela segunda vez, tanto na Copa do Mundo quanto na Olimpíada."

Cambismo

Segundo Barbosa, havia sete clientes na festa no momento do flagrante, entre estrangeiros e brasileiros. "São pessoas de poder aquisitivo muito alto, de todos os cantos do mundo. Algumas compravam apenas ingressos, outras, os pacotes completos de hospitalidade. As sete prestaram depoimento como vítimas e foram liberadas", afirmou.

"Eles ficaram muito surpresos, mas decidiram colaborar com a investigação. Houve muita frustração, já que todos acreditavam estar comprando algo válido e dentro da lei. Em seu site, a THG expunha de forma ilegal o logotipo Rio 2016, dando a entender que estava acreditada a revender ingressos, o que era mentira", disse Barbosa.

Em uma outra investigação, que corre em paralelo, a Polícia Civil do Rio realizou prisões e apreendeu ingressos e cartões de crédito clonados para comprar ingressos de alto valor e revendê-los a um preço menor, de forma ilegal.

Somando os dois inquéritos, os policiais realizaram 25 prisões e apreenderam cerca de 1,2 mil ingressos que foram devolvidos ao COI para serem cancelados.

A segunda investigação apura um tipo de cambismo mais tradicional e de menor escala. Ingressos com valor real de R$ 4.600, para a cerimônia de abertura, eram vendidos a cerca de R$ 3 mil e cada integrante da quadrilha esperava ter lucro entre R$ 40 mil e R$ 50 mil até o final dos Jogos.

"Em comum, as duas investigações têm como alvo o cambismo, mas a primeira envolve valores muito mais altos e as estratégias de hospitalidade que buscavam agregar mais valor aos ingressos ilegais, incluindo-os em pacotes voltados a empresários de alto poder aquisitivo de todo o mundo", afirma Barbosa.

Comitê Rio 2016 e Copa do Mundo

Donovan Ferreti, diretor de ingressos do Comitê Rio 2016, disse que os organizadores montaram um grupo com a polícia dois anos atrás com o objetivo de combater as vendas ilegais.

"Abrimos nossa base de dados à polícia e cooperamos com as investigações. Neste momento, não temos todas as informações, mas estamos mais do que dispostos a ajudar, exatamente porque queremos garantir que os ingressos estejam nas mãos dos torcedores a preços justos", disse.

Em 2014, o CEO da THG, James Sinton, chegou a ser preso no Rio de Janeiro por suspeita de envolvimento em esquema ilegal de venda de ingressos da Copa do Mundo, mas pagou fiança e responde em liberdade.

Também em 2014, o britânico Raymond Whelan foi detido com o franco-argelino Mohammadou Lamine Fofana, sob suspeita de chefiar uma quadrilha de venda ilegal de ingressos da Copa. Whelan era CEO da Match Services, empresa que detinha exclusividade na revenda de ingressos da Fifa em pacotes de hospitalidade, incluindo hotéis, passeios e traslados.

Entradas para a final da Copa, no Maracanã, chegaram a ser comercializadas por até R$ 35 mil, o grupo chegava a lucrar R$ 1 milhão por partida. Preso em 14 de julho de 2014, Whelan foi solto dias depois e aguardou o julgamento em liberdade.

Em fevereiro de 2015, a Justiça do Rio entendeu que as acusações deveriam ser retiradas, e o processo contra ele foi arquivado, embora outros dez acusados continuem respondendo pelo caso.

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