O segredo de Michael Phelps: 5 Olimpíadas, 5 fases, 21 ouros (até aqui)

Tom Fordyce - Chief sports writer in Rio

Vinte e uma medalhas de ouro em Olimpíadas, mais que o dobro do que qualquer outro atleta já teve na história.

E podem vir mais. Se vencer as duas últimas provas de que participará - 200 m medley e 100 m borboleta -, o nadador americano Michael Phelps acumulará 23 medalhas de ouro, apenas uma a menos do que as 24 que o Brasil ganhou em toda a sua história olímpica.

Parece tudo muito simples para o nadador, certo? Mas a "quinta fase" da carreira de Phelps não teve nada de simples.

Seu triunfo nos 200 m borboleta na noite de terça-feira pode até parecer um milagre, já que este é um herói que, em certo momento, perdeu tudo e começou a odiar o dom que o define.

As primeiras três fase de sua carreira não davam nenhuma pista do que viria a seguir.

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Na Olimpíada de 2000, ele era "o garoto". Tinha 15 anos, mas ficou em quinto na final dos 200 m borboleta. Era o menino com transtorno de déficit de atenção que encontrou seu foco perfeito, detentor de um recorde mundial antes dos 16 anos.

Na segunda fase ele era "o estranho" - fazia uma dieta de 10 mil calorias por dia, tinha uma envergadura de 2,08 metros, calcanhares hipermóveis, pulmões com o dobro do tamanho do homem adulto médio. Na Olimpíada de Atenas, ele perdeu a "disputa do século" para o rival australiano Ian Thorpe, mas ganhou outros seis ouros.

Olimpíada de 2008, a terceira fase: Phelps era "o superstar"; oito ouros, vários recordes batidos, o mundo aos seus pés.

E aí chega a quarta fase, Londres 2012: Phelps, "o cínico".

Essa fase começou em 2009, com o escândalo causado pela foto que mostrava o herói supostamente fumando maconha. E segue por três meses de suspensão, o abandono de treinos e a perda de foco - um de seus fortes, ele era tão focado nas provas que contava braçadas em cada final para que, caso entrasse água nos seus óculos de natação, ele soubesse a distância até a borda.

"Eu não ligava", disse ele mais tarde, refletindo sobre esse período. "Não queria nada com a água. Nada."

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Phelps ainda ganhou seis medalhas em Londres, quatro de ouro. Mas foi derrotado nos 200 m borboleta por Chad le Clos, um fã dele na infância que se tornou seu algoz.

A aposentadoria deveria ter trazido alívio. Ela trouxe noitadas e novos amigos, além de um recomeço com a antiga parceira Nicole. Mas a paz não veio - nem nada para substitutir aquilo que havia dominado todos os dias de sua vida desde que ele tinha sete anos.

Então, assim como Thorpe havia feito, ele ensaiou um retorno. E, também como Thorpe, achou difícil reacender a velha chama.

No campeonato nacional americano em 2014, ele não venceu uma única final. Depois, foi parado pela polícia dirigindo acima do limite de velocidade e condenado por dirigir após beber. Foi suspenso da natação por seis meses.

E o Rio? O Rio não poderia estar mais longe a esta altura.

"Ele não tinha ideia do que fazer com o resto da vida dele", disse o técnico Bill Bowman ao jornal americano The New York Times.

"Um dia eu disse: 'Michael, você tem o dinheiro que qualquer pessoa da sua idade gostaria ou precisaria; você tem um grande influência no mundo; você tem tempo livre - e você é a pessoa mais triste que eu conheço."

E aí teve início a quinta fase.

Começou com seis semanas em uma clínica de reabilitação no Arizona. Phelps, que já havia sido o atleta mais famoso do país, ali era apenas outro paciente, fazendo a mesma terapia de grupo, ficando nos mesmos quartos espartanos e forçado a confrontar seu passado.

Assim como Thorpe, ele descobriu que medalhas não trazem felicidade, assim como a natação, coisa que ele fazia melhor do que qualquer um.

Esse era um mal que parecia afligir outros nadadores. Thorpe, por exemplo, acabou revelando que tinha problemas com depressão e álcool e pensamentos de automutilação.

Na clínica de reabilitação de Phelps havia uma pequena piscina, que o atraía instintivamente. Mas a natação não era a raíz de seus problemas? Esse buraco na sua vida não poderia ser preenchido com outra coisa?

"Para mim, o problema é que eu não tinha equilíbrio", diz Leisel Jones, que ganhou nove ouros para a Austrália antes de cair em depressão. "Não tinha mais nada, e isso me apavorava."

Phelps começou a procurar esse equilíbrio. Fez contato com seu pai Fred, com quem não falava desde 2004. Se comprometeu com Nicole. Lia livros de autoajuda e, com o auxílio de Bowman, veio a maior decisão de todas: voltaria a nadar e a buscar uma medalha de ouro.

Com isso, ele voltou a se apaixonar pela natação.

Com a inspiração, voltou também um pouco da antiga velocidade. Seu corpo, que tinha 13% de gordura em Londres, passou a ter apenas 5% no Rio. Treinando mais do que havia treinado para Pequim oito anos antes, ele chegou ao time olímpico. As pessoas começaram a falar, e então acreditar: será que o homem que havia chegado mais longe que qualquer outro poderia avançar ainda mais?

Bowman continuou com ele e Phelps teve um filho, Boomer, com a agora noiva Nicole.

Mas esse não é o velho Phelps, que tiraria qualquer coisa (e qualquer um) do caminho para não atrapalhar sua concentração.

No Rio, ele fica feliz com distrações. Nicole e Boomer estão assistindo todas as suas competições. Ele ainda nada mas, no quinto ato, há coisas mais importantes para Phelps.

"Nunca achei que ele mudaria", diz Bowman. "Ele escondeu tudo que o tornava humano por 12 anos."

Phelps ainda é tão competitivo quanto sempre foi. Mas, no Rio, se vê um Phelps diferente, com um sorriso largo e a aparência de quem está realmente feliz.

Na quinta fase, Phelps é "o renascido".

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