Coronel que planejou esquema de segurança da Olimpíada diz que parte das diretrizes é ignorada

Felipe Souza - BBC Brasil, Sao Paulo

Seis meses de planejamento diário com representantes da Força Nacional de todos os Estados do país, um mapeamento detalhado de áreas de risco e o estudo de diretrizes para evitar riscos na Olimpíada no Rio de Janerio. Parte dessas informações foram descartadas pelo comando da Força Nacional durante os Jogos, de acordo com o ex-diretor da Força Nacional que planejou o esquema de segurança na Olimpíada.

Segundo coronel Nazareno Marcineiro, parte do seu planejamento não está sendo seguido. "Eu saí da Força Nacional em dezembro e a execução ficou por conta de outras pessoas. E quem recebe um planejamento feito não tem tempo de estudar e improvisa muito, ao contrário de quem conhece e pode seguir mais precisamente", disse à BBC Brasil.

O coronel reformado da Polícia Militar em Santa Catarina afirmou que o seu planejamento abrangia a área de todas as regiões previstas para sediar competições, inclusive o Parque Olímpico.

Ele conta que entre as diretrizes estava previsto que os carros da Força Nacional fossem escoltados por um batedor do Rio de Janeiro quando precisassem sair dessas áreas. Mas não foi isso o que ocorreu na última quarta-feira.

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Na ocasião, um carro da Força Nacional entrou sozinho por engano na favela da Maré, com alto índice de violência, e foi alvo de diversos disparos. O soldado Hélio Andrade, de Roraima, foi atingido por um tiro de fuzil na testa e chegou a passar por cirurgias, mas não resistiu e morreu após ser resgatado na Vila do João.

O Ministério da Justiça, que responde pela Força Nacional, informou que o esquema de segurança na Olimpíada "transcorre de acordo com o previsto". A pasta informou que não irá se manifestar em relação às declarações do ex-diretor da Força Nacional.

A Comissão Estadual de Segurança Pública e Defesa Civil para os Jogos Rio 2016 informou ter estabelecido protocolos de ação para os Jogos com mais de 20 agências numa operação integrada de segurança. O órgão estadual informou que o Ministério da Defesa ficou com a responsabilidade de atuar nas vias expressas e outras áreas.

Corte de custos

O coronel Marcineiro disse que desistiu de comandar a segurança da Olimpíada após divergências com o governo. Segundo ele, "estavam mais preocupados em fazer a segurança pessoal e ainda queriam cortar custos".

"Tinha que recrutar 10 mil homens, mas temos apenas 7.500. Eu já perdi os cabelos da cabeça por causa de problemas durante minha carreira e não queria ter mais esse", afirmou o coronel.

Ele diz, porém, que gostaria de estar no comando da tropa, alegando que isso evitaria muitos erros e transtornos, mas não se arrepende de ter saído porque seguiu seus "princípios éticos e morais".

Por outro lado, ele não culpa o atual comando pela morte do agente que entrou na favela.

"Nesse caso específico, a viatura poderia estar em uma emergência, a caminho do aeroporto ou algum imprevisto. Agora, é o cúmulo uma viatura (de forças de segurança) precisar evitar entrar em algum local. A aceitação pacifica dessa situação é constrangedora e entristecedora e só ocorre porque o Estado se faz ausente e permite isso", disse.

O presidente do sindicato da Força Nacional, Elisandro Lotin de Souza, também disse que o planejamento feito pelo coronel foi descartado pela atual gestão. "As reuniões de planejamento tinham escalas, planejamento minuncioso. É um erro primário colocar 7 mil agentes de segurança para trabalhar num local que não conhecem sem nenhum batedor. É uma tragédia anunciada", disse o sindicalista.

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Souza opina que a favela da Maré deveria ter sido ocupada antes do início da Olimpíada por se tratar uma região de alto risco localizada na rota do principal aeroporto da cidade, o Galeão.

"Se já sabia que aquela área era dominada por traficantes, porque não dominaram? Nem placa de sinalização tem. Se não tem efetivo para isso, deveriam ao menos fechar as entradas. Se um turista se perder vai cair lá dentro e vai morrer", disse.

A Secretaria de Estado de Segurança informou que o Complexo da Maré estava no cronograma de pacificação, mas, "por conta da crise financeira que assola o Estado, as bases fixas exigidas pelo Comando da Corporação não foram construídas para a conclusão da instalação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP)" e "o processo de pacificação foi adiado".

A pasta afirmou que tinha 1.350 policiais prontos para a ocupação do Complexo da Maré em abril de 2015.

"Lamentável acidente"

O presidente interino, Michel Temer, declarou luto por três dias após a morte do agente da Força Nacional e afirmou que isso não manchará os Jogos Olímpicos. "Foi um lamentável acidente, mas que foi imediatamente combatido, digamos assim. Houve, de qualquer maneira, a presença muito significativa das forças federais e estaduais, que lá se acham", disse.

Um dos policiais que estavam no mesmo carro do agente morto também teve ferimentos leves. Um terceiro policial saiu ileso.

O ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, afirmou que não há ajustes a serem feitos no esquema de segurança dos Jogos porque já "há um planejamento feito" e mudá-lo "seria uma irresponsabilidade".

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