De infância difícil a supercampeã: o que torna a ginasta Simone Biles tão extraordinária

Quando o talento se manifesta de forma tão espetacular e incomparável, faltam palavras.

Talvez por isso cada atuação da ginasta americana Simone Biles nesta Olimpíada não seja apenas aguardada com enorme expectativa, como festejada com uma admiração e estupor que beira a incredulidade.

Biles, com seus 19 anos, 1,45 metro e 47 quilos, revolucionou o mundo da ginástica artística.

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Nesta quinta-feira, ela conseguiu a segunda medalha de ouro no Rio ao vencer a final individual geral com uma pontuação de 62.198, com uma assombrosa margem de 2,1 pontos sobre a segunda colocada, a maior já registrada na ginástica em Olimpíadas.

Ela havia conquistado seu primeiro ouro na competição na disputa por equipes.

A essa vitória se somam dez títulos mundiais - em aparelhos, por equipes e com três campeonatos no individual geral. Ela é a primeira atleta a ganhar três títulos consecutivos.

No Rio, espera-se que ela faça história mais uma vez, já que ela pode ser a primeira ginasta a ganhar cinco ouros.

Mas o que a torna notável não é apenas sua potência física, como também a forma como superou uma infância difícil marcada por uma mãe usuária de drogas.

Infância

Biles tinha apenas três anos quando os serviços sociais dos EUA tiveram que intervir para resgatar os quatro filhos de Shanon Biles, dependente de drogas e álcool. As autoridades retiraram dela a custódia das crianças.

O pai de Shanon, Ronald Biles, e sua segunda mulher, Nellie, ficaram com as meninas menores, Simone e Adria. Os irmãos mais velhos foram morar com a irmã de Ronald.

Os avós de Simone, depois, adotaram as meninas, e Simone chama Ronald de pai e Nellie de mãe.

A ginasta mantém contato com a mãe biológica e fala de forma aberta sobre sua infância.

"Quando era mais nova me perguntava o que teria sido da minha vida se nada disso tivesse acontecido. Ás vezes ainda me pergunto se minha mãe biológica se arrepende e se queria ter feito as coisas de forma diferente, mas evito me prender a essas perguntas porque não sou eu quem tem que respondê-las", disse a veículos americanos.

"32 horas por semana"

Nellie lembra que Simone sempre foi uma menina "que gostava de pular e dar piruetas" e conta como foi seu primeiro contato com a ginástica.

Uma excusão de escola teve que ser cancelada devido ao mau tempo e o colégio decidiu, então, fazer uma passeio em um centro de ginástica artística.

Simone, com apenas 6 anos, mostrou espontaneamente alguns movimentos e os instrutores ficaram tão impressionados com a menina que "ela voltou para a casa com um bilhete para os pais que dizia: Vocês já pensaram em colocar sua filha na aula de ginástica?"

Dois anos depois, ela foi descoberta por Aimee Borman, seu técnica até hoje.

"Um dia ela decidiu que seria uma grande ginasta e desde então fez tudo para atingir esse objetivo", disse Borman à revista Time.

Em sua adolescência, não houve atividades extracurriculares ou festa de formatura.

Em 2012, Simone decidiu que em vez de fazer o ensino médio tradicional estudaria em casa, o que permitiu que aumentasse sua carga de treinos de 20 para 32 horas semanais. Um ano depois, ganhou seu primeiro título individual geral no mundial.

Pura potência

O físico de Biles é notadamente diferente do da célebre Nadia Comaneci, a ginasta romena que ganhou o primeiro dez perfeito da história da ginástica na Olimpíada de Montréal, em 1976 (e que está no Rio assistindo às competições de Simone).

As séries de Comaneci, com sua estrutura corporal fina e longilínea, faziam com que seus movimentos lembrassem quase um balé.

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Já Biles é pura potência.

"Ela tem uma potência descomunal, impressionante para o tamanho dela", diz Ana Ordóñez, treinadora de ginástica no clube FlipFlap em Zaragoza, na Espanha.

Potência, explica ela, quer dizer "força com velocidade, força explosiva".

"As acrobacias de Simone, suas séries, são muito rápidas."

O fato de ela ser tão baixa pode ser uma vantagem competitiva em alguns aparelhos, já que ela tem o centro de gravidade mais próximo ao solo.

"Mas, em outros, sua altura dificulta. Por exemplo, no salto sobre a mesa ela precisa saltar na mesma altura de outras meninas tendo menos estatura. Mas sua potência faz com que consiga um salto espetacular, aterrisando muito longe da mesa, o que é muito difícil para uma ginasta desse tamanho", diz Ordóñez.

"Além disso, ela tem muita flexibilidade. Combinar flexibilidade e força é muito difícil. E ela tem uma segurança em todas as aterrisagens que chama muita atenção."

Músculos de fibra curta

Alguns meios destacam uma caracteristica inata da ginasta. Seu quadríceps e sua panturrilha têm uma porcentagem elevada de fibras musculares lb, um tipo de fibra de contração rápida.

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São fibras maiores que, diferentemente das do tipo l, se contraem rapidamente e permitem um esforço mais intenso e rápido.

Sua treinadora também disse à imprensa americana que a ginasta tem uma orientação espaço-temporal excepcional.

"Isso é algo inato e é surpreendente comprová-lo treino após treino. Você tem a sensação de que, mesmo dando voltas, ela sempre sabe onde está e como e quando vai chegar", disse Borman.

"O Biles"

Mas nenhum vantagem inata teria definido Biles se não fosse sua determinação - e as milhares de repetições.

Desde que houve uma mudança no código de pontuação da ginástica, com a dificuldade dos exercícios contando pontos na soma final, os ginastas passaram a optar por séries cada vez mais arriscadas.

Há um salto, que Biles mostrou pela primeira vez em 2013, que virou sua marca pessoal e leva seu nome (o código de pontuação da ginástica homenageia atletas criativos dandos seus nomes aos movimentos que inventaram).

"O 'Biles' é um mortal duplo esticado. Mas antes de terminar o segundo mortal ela faz um giro em outro eixo, para o lado, como se estivéssemos de pé e girássemos para a direita ou para a esquerda. Então ela combina dois eixos de rotação", explica Ordóñez.

"O duplo mortal com o corpo esticado é muito difícil, porque você precisa pegar muita altura. Além disso, ela acrescenta mais dificuldade com a rotação, que faz com que ela aterrisse sem ver o solo", acrescentou.

"Os mortais para trás são mais fáceis que os para frente. Quando ela acrescenta a pirueta, fica mais difícil ver o solo."

Sorridente

"Mas o que eu mais gosto nela é ver como ela aproveita a ginástica e está sempre sorrindo", disse Ordóñez à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

"Uma das coisas que foram potencializadas com esta Olimpíada é que as ginastas tenham este rosto expressivo, porque caso contrário parecem robôs. A gente vê outras ginastas super-sérias. Já Simone transmite essa paixão pela ginástica, aproveita e, acima de tudo, não falha, e a gente aproveita com ela."

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