Mayra Aguiar pode seguir os passos de Ronda Rousey e trocar judô pelo MMA?

E agora Mayra? A medalha de bronze conquistada na quinta-feira na Rio 2016 fez da judoca brasileira a primeira a conquistar pódios olímpicos consecutivos. Ficou dois degraus abaixo da medalha que lhe daria o título informal de "campeã de tudo no tatame" (já tem o título mundial juvenil e adulto), em um currículo impressionante para uma atleta de 25 anos.

O desempenho na Arena Carioca 2, que fez o judô conquistar sua 21ª medalha em Olimpíadas e se tornar, pelo menos por enquanto, o esporte olímpico mais vitorioso do Brasil nos Jogos, pode colocar a gaúcha diante de uma encruzilhada esportiva e pessoal: teria chegado a hora de trocar o tatame e a austeridade financeira e cultural do judô pelo bilionário e midiático mundo do MMA, o circuito das artes marciais mistas?

Inspiração não falta: a americana Ronda Rousey, que travou uma intensa rivalidade com a brasileira no judô - as duas se enfrentaram em combates épicos cariocas, nos Jogos Pan-Americanos de 2007 e no Mundial do mesmo ano. Ambas com vitórias de Rousey - que hoje é conhecida como a "cara feminina" do MMA e desfila no circuito das celebridades de Hollywood. Isso depois de levar um bronze no judô em Pequim 2008.

E abriu caminho para mais "deserções" do tatame - a "próxima Ronda" promete ser justamente a americana Kayla Harrison, que derrotou Mayra nas semifinais dos Jogos de Londres, em 2012. Harrison, que levou o ouro na capital britânica e repetiu a façanha agora no Rio, está sendo sondada por promotores de lutas para se juntar ao "circo" do MMA, por mais que a pergunta irrite seu treinador, James Pedro.

"De jeito nenhum eu vou deixá-la ir para o MMA. Ela é bicampeã olímpica, não precisa disso. Ela é apenas a primeira mulher ocidental a conquistar dois ouros, tem a chance de fazer algo espetacular pelo esporte nos EUA", disse Pedro, uma espécie de guru da judoca, à BBC Brasil.

Na rápida entrevista coletiva após a vitória sobre a cubana Yalennis Castilho, Mayra ainda parecia falar com adrenalina nas veias. "No judô a gente aprende a cair para depois levantar, e eu tiro aqui uma lição para a minha carreira. Hoje é dia de comemorar essa medalha e essa sensação de conquistar o bronze em casa, mas logo já será hora de recomeçar o trabalho", disse a gaúcha.

No ano passado, muito se comentou sobre convites que a brasileira teria recebido da UFC, a principal empresa organizadora das lutas de MMA, e que recentemente foi adquirida por US$ 4 bilhões pela gigante do marketing esportivo WME/IMG.

Nas vezes em que falou sobre o assunto, Mayra mostrou-se aberta à possibilidade, embora tenha expressado sua preocupação com o fato de que, ao contrário do judô, o MMA permite golpes mais radicais, como joelhadas, chutes e o bom e velho soco na cara.

"Nunca levei um soco na cara na vida, nem sei como reagiria", brincou ela, no ano passado, durante uma entrevista para a TV.

Além de possíveis planos olímpicos, Mayra teria pela frente uma espécie de racha no judô brasileiro: há uma forte corrente que vê no MMA e mesmo no jiu-jitsu a promoção da violência, algo que seria essencialmente contrário à filosofia do judô, que gira em torno de conceitos como solidariedade, suavidade e mesmo espiritualidade.

Quem assiste a uma luta de MMA, ou mesmo a uma apresentação de lutadores, em que trocas de empurrões e agressões verbais são frequentes, pode perceber imediatamente uma disparidade em relação ao judo quase tão chocante quanto imagens de manchas de sangue na superfície do octógono, nome dado ao ringue da modalidade.

Mas há outra corrente menos defensiva. Tem como uma dos principais porta-vozes Flávio Canto, judoca que representou o Brasil em Olimpíadas, conquistando o bronze em Atenas (2004) e treinou jiu-jítsu como forma de melhorar sua técnica de luta no solo - uma fusão que lhe rendeu críticas de judocas mais puristas.

Canto, também conhecido por ser o fundador do Instituto Reação, onde foi descoberta a campeã olímpica Rafaela Silva, hoje é apresentador de TV e um de seus trabalhos é justamente o programa de lutas Sensei, no canal Sportv. Foi justamente neste programa que Mayra confessou, também no ano passado, ser fã do MMA e do desejo de um dia lutar com Ronda de novo.

"A decisão cabe à Mayra. Eu não a vejo fazendo a transição hoje, até porque o judô no Brasil tem mais visibilidade que nos Estados Unidos, onde é apenas mais um esporte a conquistar medalhas. Mas, ao mesmo tempo, não sei se ela vai querer também pagar o preço de mais quatro anos desse treinamento extremamente duro do novo ciclo olímpico", diz o ex-judoca Leandro Guilheiro, amigo da judoca e também medalha de bronze em Atenas.

Mayra terá 29 anos em 2020. Em tese, ainda teria juventude de sobra para tentar um ouro olímpico. Se continuar pensando em uma migração, Mayra ficaria diante de um duelo entre glória esportiva e a promessa de maior conforto financeiro que o normalmente indisponível na vida de um atleta olímpico.

Ainda mais diante da perspectiva de redução de investimentos no esporte brasileiro após a Rio 2016 - a oscilação de patrocínios é fenômeno conhecido - e em meio à maior crise econômica em décadas no país.

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