Com menos barreiras, 'Phelps negro' pode surgir em 8 anos, diz historiador americano

Fernando Duarte - BBC Brasil

Na noite da última quinta-feira, a americana Simone Manuel se tornou a primeira mulher negra a ganhar uma medalha de ouro olímpica em um evento individual na natação ao empatar com a canadense Penny Oleksiak na prova 100m livre da Rio 2016.

O enunciado já sugere que o resultado não poderia ser tratado apenas como uma questão esportiva - e a própria nadadora sentiu isso quando teve de responder até a perguntas sobre a brutalidade policial contra jovens negros de seu país durante a entrevista coletiva no Centro Aquático Olímpico.

O feito de Manuel também evidenciou o que diversos acadêmicos americanos apontam como o efeito de décadas de discriminação racial nos EUA e em diversos países do mundo, incluindo o Brasil.

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Uma dessas vozes é a do historiador Jeff Wiltse, autor de um polêmico estudo que liga o racismo à prática da natação entre os americanos.

Ele celebrou a vitória de Simone como "um passo importante" rumo a uma maior inclusão social no esporte, que classifica como um dos "mais brancos" dos EUA. E também para derrubar o que chama de "mitos esportivos" - durante décadas, circularam teorias de que negros seriam inferiores a brancos em provas aquáticas.

Tais teses não sofreram grandes abalos mesmo quando, nos Jogos de Seul, em 1988, o surinamês Anthony Nesty surpreendeu ao derrotar o ídolo americano Matt Biondi na final dos 100m borboleta e conquistar a primeira medalha olímpica de um atleta negro na natação.

Quatro anos mais tarde, em Barcelona, ele foi bronze na mesma prova.

"A história da natação nos EUA tem dois momentos de boom na disseminação do esporte, e em ambos a discriminação racial e social falou mais alto, desde a proibição da entrada de negros nas piscinas públicas dos anos 20 e 30 à privatização do esporte nos anos 50 e 60, quando clubes particulares surgiram nas áreas mais ricas do país", explicou Wiltse à BBC Brasil.

"Isso também alimentou estereótipos que nadadores como Simone Manuel estão ajudando a derrubar. Eu não tenho dúvidas de que mais atletas negros estarão no time americano na próxima Olimpíada e que em oito anos poderemos ter um 'Michael Phelps' negro ou uma 'Katie Ledecky' negra ganhando múltiplas medalhas."

Mas, para o historiador, o debate deveria se concentrar em temas maiores que os resultados competitivos: a disparidade na participação de brancos e negros na prática da natação nos EUA precisa ser tratada como uma questão de saúde pública, avalia.

"Estudos mostram que, nos EUA, 70% das crianças negras têm pouca ou nenhuma habilidade de natação e que se afogam três vezes mais que crianças brancas. Isso é algo perigoso e resultado justamente da falta de políticas de inclusão e que não pode ser mudado apenas por resultados competitivos."

Afogamentos

Um relatório de 2014 da Organização Mundial da Saúde colocou o Brasil em terceiro lugar no ranking mundial de mortes por afogamento, com 6.487 óbitos em 2011, mas não existem estatísticas tão detalhadas como nos EUA.

No entanto, há indicadores de que a situação não seria tão diferente assim no que diz respeito a piscinas públicas e o acesso a clubes.

No campo esportivo, o país tem apenas um nadador negro medalhista olímpico - o baiano Edvaldo Valério, que integrou o time de revezamento 4x100m bronze nos Jogos de Sydney, em 2000. A equipe brasileira nos Jogos de Londres, há quatro anos, não contou com atletas negros. Na Rio 2016, Etiene Medeiros é a única negra do time.

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A ausência de mais negros no pódio da natação em comparação com outros esportes já foi alvo de intensos debates que incluíram a possível influência da raça no desempenho esportivo, especialmente diante de exemplos análogos.

Nos 100m rasos, a prova mais nobre do atletismo, apenas um velocista branco conseguiu até hoje correr abaixo da marca de 10s e a última vez em que um venceu a prova na Olimpíada foi em Moscou, em 1980 - os Jogos daquele ano foram boicotados pelos EUA, que ganharam a prova 16 vezes desde que ela entrou no programa olímpico, em 1928.

"Isso deu margem para o todo tipo de pseudociência sobre predisposições genéticas entre brancos e negros. Há registros históricos de exploradores europeus do século 15 falando sobre a habilidade aquática de habitantes da África Ocidental. Essa disparidade é socioeconômica", afirma o antropólogo e nadador Phillip Whitten, autor e coautor de 18 livros sobre natação.

Nos últimos anos, a Federação Americana de Natação investiu milhões de dólares no programa "Make a Splash" (algo como "respingue água"), destinado ao ensino do esporte em áreas mais pobres e que desde 2009 deu aulas para mais de três milhões de crianças.

Wiltse elogia a iniciativa, mas afirma que ela é insuficiente para cuidar das disparidades, que também afetam crianças hispânicas - 60% delas têm pouca ou nenhuma habilidade, em comparação com 40% das brancas.

"É preciso um esforço de construção de piscinas públicas e da facilitação de acesso para a população de classe mais baixa, o que inclui americanos brancos. Mas o exemplo de Simone é importante porque ajuda desmistificar os estereótipos raciais. Isso já é uma grande vitória", finaliza.

Mesmo que tenha falado que preferia não ver sua cor objeto de tanta atenção da mídia, Simone Manuel sabe que virou uma senhora garota-propaganda para outros jovens negros.

"Dediquei minha medalha para as pessoas que me inspiraram a continuar no esporte e espero que agora inspire outras a cair na piscina. Elas podem ser boas nisso", brincou.

E, como sugerem as estatísticas, Simone também pode ajudar a salvar vidas.

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