'O meu país precisa de mim': quem são os atletas que formam a delegação palestina na Rio 2016

Jefferson Puff - @_jeffersonpuff - Da BBC Brasil no Rio de Janeiro

Se a maior satisfação possível para os líderes das delegações que participam dos Jogos Olímpicos é ver seus atletas voltando para o alojamento com medalhas no peito, Ghayda Abuzayyad, chefe de missão da Palestina, diz que "apenas estar" na Olimpíada e ver seus esportistas competindo, apesar de todas as barreiras e dificuldades, "já é uma grande vitória".

Com seis atletas e 19 pessoas no total, trata-se da maior delegação palestina da história dos Jogos - eles competem em natação, atletismo, judô e hipismo.

Reconhecido como um Estado independente por mais de 150 países, incluindo o Brasil, a Palestina tem situação política e econômica atrelada a Israel, que mantém restrições e embargos - ambos disputam territórios.

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Dos seis competidores, somente dois nasceram e treinam nos territórios palestinos (Faixa de Gaza ou Cisjordânia).

Natural da cidade de Gaza, onde também foi criado, o velocista Mohammed Abukhousa competiu na manhã deste sábado nos 100 metros rasos. A nadadora Miri Alatras, que competiu nos 50 metros livre na sexta-feira, vive em Belém, na Cisjordânia.

Os outros quatro são descendentes - dois nasceram na Alemanha e têm pai palestino. Mayada Al-Sayad, do atletismo, vive em Berlim, e Simon Yacoub, do judô, treina em Leipzig.

Christian Zimmermann, do hipismo, tem dupla nacionalidade alemã/palestina e é o primeiro atleta a representar o território no esporte. Filho de pai palestino, o nadador Ahmed Gebrel nasceu no Cairo (Egito) e é o primeiro atleta local a participar de duas Olimpíadas.

Falta de estrutura

Os atletas palestinos são convidados pelo Comitê Olímpico Internacional para participar dos Jogos numa espécie de "cota" para Estados em desenvolvimento e sem infraestrutura de treinamento.

"Não temos as condições mínimas que os outros países têm. Não temos pista de atletismo e os campos de treinamento têm restrição de acesso. Não temos infraestrutura de esporte", conta a chefe da delegação.

Assim, apesar de não se qualificarem em campeonatos mundiais e eliminatórias pré-olímpicas, os palestinos podem competir ao lado de todos os outros atletas.

Mohammed Abukhousa, por exemplo, correu os 100 metros rasos ao lado do jamaicano Usain Bolt na manhã deste sábado. "Ele tinha treinado muito em Gaza e estava confiante, mas infelizmente sofreu uma contusão e foi retirado de maca da pista", lamenta Abuzayyad.

Em conversa com a BBC Brasil enquanto assistia às provas de atletismo, a nadadora Miri Alatras, de 22 anos, disse se sentir muito feliz de estar no Rio.

"Não é fácil. Não existe piscina olímpica na Palestina. Treino numa piscina simples, de 25 metros, e é por enfrentar esses desafios que me sinto ainda mais feliz de estar na Olimpíada", conta.

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Com diploma de administração de empresas, ela diz não ter a intenção de deixar a Cisjordânia. "Moro em Belém e não vou sair para treinar em outros lugares. Porque amo o meu país, e o meu país precisa de mim", diz.

'Atravessamos barreiras'

Dada a situação peculiar dos territórios palestinos, a chefe da delegação ressalta as dificuldades com as quais tem que lidar.

"Atravessamos tantas barreiras para estar aqui. Barreiras econômicas, políticas, diplomáticas, falta de recursos, de infraestrutura. Realmente é um desafio e uma vitória só termos chegado até o Rio de Janeiro", acrescenta.

Questionada sobre a existência de algum patrocínio aos palestinos, a chefe da delegação é enfática: "nada".

Segundo Abuzayyad, a entrada no Maracanã durante a cerimônia de abertura dos Jogos foi um dos momentos mais especiais de sua vida - o desfile da delegação palestina foi acompanhado de muitos aplausos das cerca de 60 mil pessoas presentes no estádio.

"Foi inesquecível. Foi algo muito, muito especial para nós, e certamente um momento histórico para a Palestina. Nós sabemos que o Brasil tem uma relação muito especial com a Palestina e também sabemos que os brasileiros são um povo muito caloroso, mas a recepção na abertura foi algo muito emocionante", conta a chefe da delegação.

Ela, que também participou dos Jogos de Londres, em 2012, na equipe técnica, já tinha vindo ao Rio no ano passado.

"É uma cidade linda. As pessoas nos recebem muito bem. É incrível. Não posso deixar os atletas irem para casa sem um tour pelo Corcovado e o Pão de Açúcar. Eles vão ganhar um tour da cidade, sem dúvida nenhuma."

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