'Em cima do cavalo todo mundo é igual': a torcida no hipismo, único esporte em que homens e mulheres são rivais

Camilla Costa - BBC Brasil

Para atletas e torcedores acompanhando a prova de saltos do hipismo, no Parque Olímpico de Deodoro, soam estranhos os comentários que chamam nadadoras de "Michael Phelps de saia" e os gritos provocadores de "Marta é melhor do que Neymar". Afinal, aqui homens e mulheres são rigorosamente iguais.

O hipismo é considerado a única modalidade olímpica em que atletas de ambos os sexos disputam provas individuais e por equipe sob a mesmas condições.

A vela foi a pioneira a admitir mulheres nas equipes, em 1908. Mas hoje o esporte também tem provas exclusivamente masculinas e femininas. Na disputa à cavalo, porém, não há qualquer separação por gênero.

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"Ninguém te olha de forma diferente. É um esporte que valoriza muito a mulher. Não há comparações entre elas e os homens", disse à BBC Brasil a médica veterinária e ex-amazona profissional Miriam Demori, de 47 anos, que acompanhava da plateia.

"Esses comentários e comparações em outros esportes são lamentáveis. Nós temos tanto valor quanto os homens."

Pódio constante

Desde que começaram a participar das provas de hipismo nos Jogos Olímpicos, em 1952, as mulheres poucas vezes ficaram fora do pódio.

No adestramento individual, desde 1972 há sempre uma delas entre os três primeiros. No salto, ganham medalhas a cada dois ciclos olímpicos. No Circuito Completo de Equitação, fizeram "dobradinhas" de prata e o bronze nas últimas três edições dos Jogos.

Hoje, os dois maiores medalhistas do esporte são alemães - um homem e uma mulher.

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Para Demori, o fato de montar "desde que nasceu" e de ter exemplos femininos de sucesso no esporte fez diferença.

"Ser amazona me deu uma segurança que levei para todos os aspectos da vida."

A importância dos cavalos

Para a cirurgiã mineira Maria Fernanda Portugal, de 26 anos, a parceria com o cavalo é determinante para a igualdade de gênero no hipismo.

"Em cima de um cavalo todo mundo é igual", afirmou. "Os próprios comentaristas do hipismo focam mais no cavalo do que nos cavaleiros e amazonas. Mas as mulheres sempre são citadas em pé de igualdade com os homens."

Mesmo nas provas individuais, atletas e cavalos formam uma "equipe" - o entrosamento deles define a capacidade da dupla de ultrapassar os desafios técnicos.

Atletas já deixaram de competir por não terem conseguido encontrar o cavalo ideal, e na Rio 2016 chamou a atenção a história da hipista holandesa Adelinde Cornelissen, que resolveu abandonar os Jogos para poupar seu animal, que estava doente.

Miriam Demori explica que a necessidade de competência técnica e sensibilidade para vencer uma competição de hipismo faz com que outros elementos que diferenciem homens e mulheres, como a força física, se tornem secundários.

"Na verdade, eu acho que no hipismo as mulheres até levam vantagem, porque têm mais sensibilidade com a pista e com o cavalo."

Mesmo assim, a diretora esportiva da Federação Sueca de Hipismo, Wiveka Lundh, disse à BBC Brasil que o esporte ainda precisa de mais participação feminina em nível mundial.

"Já é bastante igualitário, principalmente na Europa. Mas fora da Europa percebemos que há menos mulheres competindo."

Os números corroboram: quase todas as mulheres participantes da prova de salto eram de países europeus e norte-americanos - além delas, havia uma da Austrália, uma do Japão e uma da China.

A equipe brasileira de hipismo é formada por 12 atletas, apenas duas das quais são mulheres. Elas não participaram da prova de salto.

Comparações

Na plateia, a mineira Maria Fernanda, que acompanha o hipismo desde a adolescência, disse achar infundadas as comparações entre mulheres e homens em outros esportes.

"Do meu ponto de vista como médica, o homem é mais ágil, tem maior explosão muscular a mais adrenalina. Então os esportes masculinos serão mais violentos e rápidos. São coisas diferentes, não faz sentido comparar com os femininos", afirmou.

"Mas me entristece um pouco que o esporte masculino dê mais dinheiro. Não sei se é só por preconceito, parece algo mais comercial. Mas pode ter um pouco dos dois. Pode ter preconceito na distribuição comercial."

Ao seu lado, o advogado mineiro Ricardo Schuchter, de 28 anos, disse que as comparações de performance ainda ocorrem mais em modalidades onde "as mulheres estão começando agora a participar de forma mais profissional e organizada" como o futebol feminino - que só teve a primeira Copa do Mundo em 1991, tornou-se esporte olímpico em Atlanta 1996 e teve seu primeiro campeonato no Brasil apenas em 2013.

"O futebol feminino vem melhorando a cada dia, mas ainda tem muito o que melhorar. Falta mais incentivo e organização. Como torcedor, ainda é não é tão legal de assistir quanto o masculino", afirmou.

"Judô, ginástica e natação já não têm essa diferença. São tão bem estruturados para homens quanto para mulheres. Ver Phelps é tão legal quanto ver (a nadadora Americana Katie) Ledecky."

' Olimpíada das mulheres '

Em meio ao debate, o casal mineiro diz acreditar que as modalidades esportivas devem se adaptar cada vez mais ao potencial físico feminino.

"Dizem que essa é a Olimpíada das mulheres, mas eu espero que seja apenas a primeira. O talento e a capacidade já eram inegáveis, mas elas tinham pouca oportunidade para mostrar que, nas devidas circunstâncias, são tão boas ou melhores que os homens", opinou a cirurgiã.

"Isso pode significar que no futebol o gol tenha que ser menor ou no basquete, como já acontece na WNBA (liga feminina americana de basquete), a bola seja menor e mais leve. Com isso elas podem mostrar todo o potencial que a natureza permite."

Já a ex-amazona Miriam Demori não se surpreende com a atual atenção às modalidades femininas. "As mulheres já se eram muito boas, mas agora a gente observa mais. Essa discussão está ganhando cada vez mais expressão."

Na classificatória do salto, 74 atletas competiram, entre eles 13 mulheres. Onze delas se qualificaram para a próxima fase.

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