Vitória sobre 'fantasmas pessoais' leva Diego Hypólito à redenção na Rio 2016

Fernando Duarte - BBC Brasil no Rio de Janeiro

Para muitas pessoas, imagens de maus momentos passam pela cabeça em situações de tensão. Mas no caso de Diego Hypólito, o "filme triste" começou a ser exibido em meio a um salto mortal.

"Aquelas cenas de Pequim me vieram à mente durante a série. Mas eu disse para mim mesmo que hoje era dia de conseguir, de deixar aquilo para trás", afirmou o atleta, que neste domingo conquistou a medalha de prata nos exercícios de solo da ginástica artística da Rio 2016.

O resultado foi ainda mais histórico para o Brasil com o bronze de Arthur Nory. Até o ouro de Athur Zanetti, em Londres 2012, o país jamais conquistara medalhas na modalidade nos Jogos Olímpicos.

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Hypólito, de 30 anos, fez mais do que exorcizar os demônios de dois Jogos Olímpicos - tanto em Pequim, em 2012, quanto em Londres, há quatro anos, ele sofreu quedas durante suas apresentações e perdeu medalhas olímpicas que pareciam iminentes.

Ao finalmente subir ao pódio, e no Brasil, o paulista superou também a luta contra a depressão, que parecia ser seu maior adversário na volta ao tablado.

Em 2013, com o fim da equipe de ginástica do Flamengo, Hypólito ficou sem clube e, tecnicamente, sem emprego e lugar para treinar.

Depois de anos no Rio, precisou se mudar para São Paulo e treinar, de favor, no clube Pinheiros. E com passou a manter uma rotina espartana - morava em um alojamento ao lado do ginásio.

A depressão profunda lhe custou a perda de 10 kg, uma internação hospitalar e diagnóstico da comunidade esportiva de que as chances de ele ir à terceira Olimpíada tinham desaparecido. Ainda mais em uma idade relativamente avançada para um ginasta de elite.

Mas mais do que a bela história de redenção esportiva e pessoal presenciada na Arena Olímpica neste domingo, a recuperação de Hypólito serviu também para evidenciar um lado "mortal" de atletas que a mídia costuma ignorar.

"Como qualquer pessoas, temos problemas. Minha cabeça foi minha grande adversária, mas eu consegui me recuperar e gostaria que isso servisse de exemplo para as pessoas que me assistiram hoje. Que a gente pode vencer, acreditar em nós mesmos", afirmou.

Efeitos invisíveis

Diversos estudos acadêmicos nos últimos anos vêm chamando a atenção para os efeitos invisíveis do estresse emocional em atletas de elite - e em especial a forma como ela pode ser ignorada por treinadores e dirigentes.

De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, 350 milhões de pessoas ao redor do mundo, de todas as idades, sofrem com algum tipo de depressão, que já é a segunda maior causa de morte global entre pessoas de 15 a 29 anos.

E embora especialistas vejam a incidência de depressão ocorrendo de forma mais comum entre atletas recém-aposentados, que sofrem para lidar com o fim da rotina de treinos e competições - o que conheceram como vida durante anos -, uma corrente de psicólogos ligados à área esportiva vê um tipo particular de episódio depressivo ligado justamente ao binômio sucesso-fracasso.

Um estudo publicado no Canadá em 2013 descobriu que a presença de um atleta em um grupo de elite o tornava mais propenso a ser depressivo. Especialmente depois de um mau desempenho.

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"O Diego precisava voltar a acreditar nele mesmo. Esse era o primeiro passo para que pudesse voltar à Olimpíada", explica Marco Goto, treinador de Zanetti e que "herdou" Hypólito em julho deste ano, quando seu então técnico, Fernando Lopes, foi afastado pela Confederação Brasileira de Ginástica por causa de acusações de abuso sexual.

"Ele chegou de cabeça boa e disposto a trabalhar. Comigo, o divã dele era treinar", disse Goto.

Mas a frase também ilustra a relutância que o meio esportivo ainda tem em aceitar a possiblidade de fragilidade psicológica entre atletas.

"Hoje em dia, o esporte já aceita bem mais a importância de um trabalho psicológico. Não estamos falando de magia ou de algum tipo de coaching, mas sim de uma ciência que não vai necessariamente fazer com o que o atleta vá ganhar medalhas", afirma Sâmia Hallage, psicóloga a serviço do Comitê Olímpico Brasileiro e que trabalha há dois anos com o ginasta.

"Acima de tudo, temos que admitir que o atleta é um ser humano como outro qualquer, enfrenta adversidades e tem história de vida."

Não por acaso, a psicóloga foi uma das pessoas que Hypólito agradeceu nas entrevistas após a prata. "Eu tive depressão, passei por um momento difícil, mas a Sâmia me reconstruiu emocionalmente", disse o atleta.

Em entrevista por telefone à BBC Brasil, porém, ela preferiu dar o crédito ao paciente.

"As adversidades ficam mais notáveis no caso de um atleta, e o Diego foi corajoso ao falar publicamente do problema que teve. Mas eu não reconstruí ninguém. A psicologia apenas ofereceu ao Diego as ferramentas. Foi ele que se reinventou e voltou a ficar feliz como pessoa. Trabalhamos ele como ser humano, não apenas o atleta."

No caso de Hypólito, a reinvenção deu em medalha. E consagrou uma perseverança que a própria equipe brasileira de ginástica hesitou em premiar.

A convocação dos atletas para a Rio 2016 só foi decidida um mês antes dos Jogos e a presença de Hypólito ficou ameaçada por ele ser especializado em apenas uma disputa - o solo. Havia uma corrente que defendia a presença de ginastas capazes de render bem em todos os aparelhos, os chamados generalistas.

"Em Olimpíadas, eu caí de bunda e de cara antes de cair de pé. Se consegui essa medalha, foi porque muitas pessoas acreditaram em mim", resumiu Hypólito.

Sobretudo ele mesmo.

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