A história da adolescente sul-africana que foi roubada quando bebê e quer ficar com sua sequestradora

Imagine crescer em uma família em que você é a menina dos olhos do seu pai e o centro do mundo para sua mãe. Você é feliz e está ansiosa para comemorar seu aniversário de 18 anos.

Agora imagine descobrir que a mulher que você amou toda a sua vida te sequestrou e que o homem que você chama de pai não é seu pai biológico.

Essa é a vida de Zephany Nurse.

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Zephany é o nome que seus pais biológicos, Celeste e Morne Nurse, deram a ela quando ela nasceu, em um hospital da Cidade do Cabo, na África do Sul, em 27 de abril de 1997.

Já o nome que ela usou a vida toda não pode ser publicado para preservar sua identidade. Ela é considerada a "Madeleine McCann" - a menina inglesa que desapareceu em Portugal - da África do Sul.

Uma mulher de 51 anos, cujo nome também não foi revelado, recebeu uma sentença de dez anos de prisão nesta segunda-feira após ser considerada culpada em março por roubar Zephany do hospital enquanto Celeste ainda se recuperava do parto.

O julgamento atraiu a atenção de muitos sul-africanos, que mandaram mensagem de apoio à jovem nas redes sociais.

Mas como Zephany lidou com esse julgamento?

As pessoas próximas ao caso dizem que isso destruiu a imagem que ela tinha de si mesma.

Ela disse que queria ficar com a mulher que a sequestrou, e não com os pais biológicos.

Zephany foi descoberta depois que uma das outras filhas da família Nurse começou a frequentar a mesma escola que ela e percebeu a semelhança.

Celeste e Morne Nurse suspeitaram do caso, acionaram a polícia e testes de DNA mostraram que ela era a filha biológica deles. A menina morava a poucos quilômetros da casa dos pais biológicos.

A mulher que a criou foi presa, e começou aí um dos casos mais intrigantes e emocionantes da África do Sul.

'Fui enganada'

E o que levou a acusada a um ato tão desesperado?

Durante o julgamento, foi dito que ela havia sofrido diversos abortos naturais. Ela disse que isso fez com que ela ficasse desesperada para ter uma filha.

Mas ela nega que tenha roubado a criança e afirma que não esteve no hospital no dia em que a criança nasceu.

Ela diz que recebeu a recém-nascida em uma estação de trem movimentada de uma mulher chamada Sylvia, que não foi encontrada. Essa mulher seria a responsável por tratamentos de fertilidade que ela estaria fazendo após os abortos espontâneos.

"Ninguém acredita em mim neste momento, e eu mesma sou vítima. Fui enganada e envolvida em algo que eu não sabia", disse ela à BBC em uma entrevista antes de ser condenada.

Ela também diz que assinou papéis de adoção, mas eles se perderam.

Durante o julgamento, porém, a Promotoria mostrou provas de que a mulher havia ido várias vezes à maternidade e tentado roubar crianças.

Apesar de seu marido só ter descoberto isso quando a identidade da criança foi revelada, ele ainda a apoia.

"Sempre iremos agradecê-la por ter sido uma ótima mãe" disse ele, segundo o site IOL.

Ele também falou sobre feriados que eles tiveram e família.

"Por 17 anos, tivemos uma tradição de café na cama em todos os Dias das Mães que minha mulher passou com Zephany. Eu fazia ovos, Zephany buscava as torradas, flores e presentes. Ela também fazia a decoração", disse.

Zephany está morando com o homem que ajudou a criá-la. Ele diz que ela está triste por ter "perdido sua mãe".

Psicologia x lei

O psicólogo Oliver Fachs, baseado na Cidade do Cabo, diz que é normal alguém na situação de Zephany se sentir "inquieto".

Ele diz que é normal, então, que ela queria ficar perto das pessoas que a criaram.

"Sua estrutura de significados, senso de identidade, como ela se coloca no mundo - tudo foi alterado", disse ele. "Como psicólogo, acho que o importante é saber como lidar com esta nova realidade."

Fuchs diz que a psicologia e a lei estão em lados opostos neste caso.

Enquanto sem dúvida ocorreu um crime, Zephany não tinha consciência disso até pouco tempo atrás e passou a maior parte da vida construindo laços com as pessoas que a criaram.

Ela não falou diretamente com a imprensa, mas, em comunicado emitido pelo Centro de Justiça Infantil em março, ela reclamou da forma como a mídia retrata a mulher que ela ainda vê como sua mãe.

"Vocês nunca pensam que essa é a minha mãe? Se for verdade ou não, não é para vocês brincarem com isso", disse a menina na época.

Ela também falou sobre o homem que a criou como pai.

"Como vocês se sentiriam como um pai, muito abalado mas ainda com bondade para dar apoio a sua família?"

Durante o julgamento, ela foi impedida de ver a mulher acusada e foi levada para a casa dos pais biológicos. Mas ela teve dificuldades para se conectar com eles e pediu para ficar com o pai de criação.

O amor da família Nurse, porém, é paciente e já foi testado pelo tempo.

Por exemplo, Celeste disse no julgamento que a família fazia algo para marcar o aniversário de Zephany todos os anos, com um bolo - eles sempre divulgavam a comemoração à mídia, na tentativa de encontrar a criança.

Por isso, a família biológica disse estar pronta para dar a ela o tempo que precisar e trabalhar para conquistar seu carinho e confiança.

Mas eles sentem que tiveram roubada sua vida com ela, e a experiência foi dura demais para o casal.

Enquanto testemunhava durante a audiência de leitura da sentença, Morne disse à corte que o casamento com Celeste havia sido prejudicado e que ele tiveram dificuldades em reatar a relação. Eles se divorciaram em fevereiro de 2015.

Ele desabou ao falar sobre os muitos anos que passou procurando a filha.

"Não sei como ela ficou com a Zephany por tanto tempo. Sempre procuramos por ela. A forma como eles continuaram escondendo minha filha é inacreditável", afirmou. "Não tenho nenhuma relação com minha filha e isso me machuca".

Ao dar seu veredito, o juiz John Hlophe descreveu a história da acusada como um "conto de fadas" e disse que "o júri rejeitou a história com o deprezo merecido". Ele afirmou que ela teve diversas oportunidades para devolver a criança para a família biológica.

Mas a mulher insiste que só e culpada de amar uma criança que ninguém queria.

Agora que a sentença foi dada, há o debate de como fazer uma Justiça que traga menos danos às vítimas.

Zephany perdeu a pessoa que via como sua mãe, um marido perdeu a mulher que foi presa e sua filha, e a família Nurse, que já ficou sem a filha por anos, ainda está sem ela.

Até o momento, não há vencedores nesta história.

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