O veterano ucraniano que levou saltador brasileiro a ouro inédito - e a 'climão' com francês

Fernando Duarte - BBC Brasil no Rio de Janeiro

Não foram apenas a rivalidade, o barulho da torcida e a perda de um ouro para o qual era favorito que fizeram com que o francês Renaud Lavillenie, até a segunda o grande nome do salto com vara, exibisse uma atitude pouco diplomática com o brasileiro Thiago Braz em meio ao clima geral de cordialidade expressado pela comemoração efusiva da vitória do brasileiro pelo americano e concorrente Sam Kendricks.

Lavillenie parou de falar com o agora campeão olímpico ao "comprar" uma briga que nada tinha que ver com a rivalidade esportiva: o francês e seu técnico são amigos de Élson Miranda, que até o final de 2014 era o treinador de Braz.

Um mentor que o paulista deixou para trás por causa da chance de trabalhar com Vitaly Petrov, um mito no esporte pela habilidade de "lapidar" campeões. E que apostou em Thiago não apenas por uma questão de altruísmo, mas também para driblar o desemprego.

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Treinador do lendário Sergei Bubka, campeão olímpico do salto com vara em 1988 e que dominou a modalidade em seis campeonatos mundiais, Petrov também arquitetou a carreira da russa Yelena Isinbayeva, outra colecionadora de medalhas na modalidade, mas os dois romperam relações em 2011.

Isso o aproximou do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e de sua política de buscar a expertise de treinadores estrangeiros para aumentar as chances de medalhas na Rio 2016 - um dos profissionais que comemorou sua chegada foi justamente Miranda.

Quando o saltador decidiu de mudar de mala e cuia para a Itália e treinar exclusivamente com o ucraniano, o ambiente azedou, com críticas públicas de Miranda ao ex-pupilo e a Petrov.

E afetou isso também o relacionamento com Lavillenie, o que deve ter tornado a derrota para o brasileiro no Rio ainda mais dolorida - a julgar pelas reclamações feitas nas redes sociais, em que chegou a comparar as vaias da torcida brasileira ao comportamento do público alemão diante do velocista negro americano Jesse Owens nos Jogos de Berlim, em 1936.

Petrov também arquitetou a carreira da russa Yelena Isinbayeva

Mas como culpar Braz? "De todos os treinadores com quem trabalhei, o Vitaly foi o mais refinado. Arrisquei todas as minhas fichas e não poderia estar no atletismo mais caso não tivesse resultado com ele", disse o saltador nesta terça-feira, durante uma entrevista coletiva organizada pelo COB na Barra.

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"Se Thiago tivesse ficado no Brasil, poderia não ter sido campeão olímpico. E desde o momento que o vi saltar pela primeira vez, vi que ele poderia fazer como Sergei e saltar mais de 6 metros", explicou o ucraniano, também à mesa na entrevista.

"Era necessário que tivéssemos um relacionamento bom e estreito e que passássemos a maior parte do tempo possível um com o outro. Mas Sergei tinha 11 anos quando veio trabalhar comigo, a adaptação foi mais fácil", acrescentou.

'Concentração'

Braz teve que se submeter aos métodos draconianos de Petrov, em especial uma "concentração" de dois meses antes do Jogos, período em que o saltador teve pouco ou nenhum contato com a mulher, Ana Paula Oliveira.

"O Vitaly diz que o corpo não deve ter limites. E eu acredito", contou o paulista.

Com um ouro e um recorde olímpico na bagagem, Braz agora volta suas atenções para o recorde mundial do salto com vara. Outra marca que ele poderá roubar de Lavillenie, que ficara com o ouro na Olimpíada de Londres, em 2012.

A menção do recorde, por sinal, proporcionou um momento curioso para Petrov. Na segunda-feira, tomado pela emoção, o ucraniano de 78 anos anunciou uma emocionada aposentadoria ao ser abordado pelos repórteres. Mas menos de 24 horas mais tarde já traçava planos de treinamento para o brasileiro.

"Nosso plano era superar o francês em um ou dois anos. Agora, a partir do primeiro dia de treinos, o Thiago vai ter que esquecer que é um campeão olímpico. Os treinos vão ficar cada vez mais duros", afirmou Petrov, já de volta ao estilo mais durão.

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