Turista é preso como cambista ao vender ingressos de parentes que, por medo da zika, desistiram da Rio 2016

Fernanda Odilla - Da BBC Brasil em Londres

O americano Douglas McLean, de 45 anos, diz não saber o que fazer com tantos ingressos extras dos Jogos do Rio.

Na manhã desta terça-feira, doou um par de ingressos para um casal que estava ao seu lado no metrô a caminho da Barra da Tijuca e improvisou um anúncio oferencendo entradas.

Mas fez questão de ressaltar que vendia pelo mesmo valor ou até mais barato. O texto vinha acompanhado de um "não cambista".

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Tamanha cautela tem uma razão. Na tarde de segunda-feira, McLean foi detido em Copacabana, na porta da arena do vôlei de praia.

Ele diz que tentava vender dois ingressos por um valor menor do que os comprou quando foi abordado por dois policiais à paisana. Primeiro achou que se tratava de um assalto e chegou a chamar policiais militares para ajudá-lo. Não adiantou - foi levado para uma unidade policial.

"Me assustei. A abordagem foi muito agressiva. Eles se irritaram porque não acreditei que eram da polícia", relatou à BBC Brasil na manhã desta terça, enquanto se deslocava até o Parque Olímpico.

O americano conta que passou seis horas tentando explicar por que tinha tantos ingressos. Foi assistido por um defensor público e sentou em frente a uma juíza. Disse que sua esposa e os filhos desistiram de assistir aos eventos com medo da epidemia de zika.

Evidências

Mas o que salvou McLean mesmo foi uma reportagem de jornal, apontam ele e a decisão da juíza que lhe eximiu de qualquer tipo de punição.

Ele tinha ido a Brasília assistir ao jogo de futebol feminino entre os EUA e a Suécia. Lá, deu entrevista ao Correio Braziliense relatando exatamente o receio da família em relação ao zika.

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Além das declarações, teve sua foto publicada - e isso se transformou na melhor prova de que saiu do Texas para curtir os Jogos do Rio, e não para faturar como cambista.

"A juíza disse que essa era a melhor evidência que alguém poderia apresentar. Me falou ainda que eu poderia vender meus ingressos, desde que fosse a um valor igual ou menor ao que paguei", disse o americano, enquanto tentava vender alguns de seus ingressos extra ainda no BRT (ônibus rápido) nesta terça.

Para a sorte dele, tinha tirado, com o celular, uma foto da reportagem publicada. "Tiro foto de tudo", diz McLean.

'Herói da minha noite'

Uma das fotos que o americano faz questão de mostrar é a do defensor público Paulo Vinicius Cozzolino.

"Ele foi o herói da minha noite. Falava inglês e me defendeu bem. Falo mal português, mas vi que ele se empenhou diante da juíza", relata McLean, que foi liberado sem receber nenhum tipo de punição.

Cozzolino explica que a estratégia adotada pelo americano - de revender ingressos pelo mesmo preço ou mais barato - não é crime, "pois não se enquadra como prática reiterada com a finalidade de lucro. O problema é que muita das vezes é a palavra do agente policial contra a do turista".

O defensor diz à BBC Brasil, por e-mail, que ele e seus colegas estão indo de forma voluntária às arenas olímpicas, para atender o público que tenha problemas parecidos (ou não) ao de McLean.

"A impressão, realmente, é que o maior número de casos está ligado à prática de cambismo, muitas vezes qualificado assim de forma equivocada pelos agentes policiais. Há casos, no entanto, de toda ordem. Desde problemas relacionados à defesa do consumidor, referente a ingressos com problemas, em que estão sendo feito acordos com os responsáveis pela organização dos jogos, até os relacionados à defesa criminal", explica Cozzolino.

McLean conta que, além dele, outro turista estrangeiro foi levado para a mesma unidade policial. "O canadense me disse que chegaram a mostrar uma arma para ele."

Na manhã desta terça, o americano lamentava o fato de ter perdido o jogo de vôlei de praia entre EUA e Brasil e de ter passado aperto na delegacia. E, apesar da assistência do defensor público, dizia estar decepcionado com a polícia.

"Agora estou com medo dos ladrões, da polícia, da zika e do terrorismo", disse antes de subir pela passarela que leva ao Parque Olímpico na Barra erguendo sua plaquinha na qual oferecia seus ingressos extras.

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