Mulher tentou despistar polícia para ajudar chefe do Comitê Olímpico Irlandês a fugir no Rio

Jefferson Puff - @_jeffersonpuff - Da BBC Brasil no Rio de Janeiro

A mulher de Patrick Hickey, chefe do Comitê Olímpico Irlandês, tentou ajudá-lo a fugir da polícia na manhã desta quarta-feira num hotel cinco estrelas da Barra da Tijuca.

Também membro executivo do Comitê Olímpico Internacional (COI), o irlandês de 71 anos foi encontrado na suíte ao lado da sua após a esposa ter dito aos agentes que ele já havia retornado à Irlanda. Ela não foi detida e sua identidade não foi divulgada.

O irlandês foi preso por suspeita de facilitar a ação de cambistas, marketing de emboscada e formação de quadrilha. A polícia confiscou seu passaporte e sua credencial da Olimpíada como membro do Comitê Executivo do COI, além da sua passagem de volta para o Reino Unido, marcada para o dia 22 de agosto.

Em entrevista na semana passada à imprensa irlandesa, Hickey havia negado participar da venda ilegal de ingressos.

A polícia não descarta ouvir membros da alta cúpula do COI nos desdobramentos do inquérito.

Assustado ao ser detido, Hickey disse aos policiais que havia sofrido um infarto seis meses atrás e que tem problemas cardíacos, o que levou a equipe médica do hotel a transferi-lo para o Hospital Samaritano da Barra, onde deve passar a noite.

"Ele deve dormir no hospital para fazer exames, amanhã deve prestar depoimento à Polícia Civil e depois deve ser encaminhado ao presídio de Bangu", disse Ronaldo Oliveira, diretor-geral de polícia especializada.

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A prisão de Hickey é mais um desdobramento de uma investigação que tornou-se pública no dia 5 de agosto, quando a polícia encontrou 823 ingressos da Olimpíada num hotel na Barra que seriam entregues a clientes após terem sido vendidos por preços muito mais altos do que os de mercado.

Ingressos vendidos pelo Comitê Rio-2016 a R$ 1,4 mil, para a cerimônia de abertura, chegavam a ser comercializados, em pacotes de hospitalidade, a R$ 25 mil, segundo as investigações.

Quando anunciados, os pacotes diziam incluir recepção no Hotel Copacabana Palace e traslados entre hotéis e competições olímpicas, além de coquetéis. Na prática, os clientes foram recebidos com salgados e doces e a festa no famoso hotel em Copacabana nunca aconteceu.

A polícia diz que o esquema "pratica cambismo maquiado de venda de programa de hospitalidade".

Comitê Olímpico Irlandês

No dia 5 de agosto, o irlandês Kevin James Mallon foi detido e continua preso em Bangu desde então. Com ele foram encontrados os 823 ingressos. Já a tradutora brasileira Barbara Canieri foi detida e liberada no mesmo dia.

Estão no alvo das investigações as empresas Pro 10 e THG, com potenciais elos com o Comitê Olímpico Irlandês.

Segundo a polícia, a empresa THG, do milionário britânico Marcus Evans, dono do time de futebol Ipswich Town, que não estava credenciada para adquirir ingressos da Olimpíada, recebia as entradas por meio da Pro 10, empresa irlandesa criada em 2015 e suspeita de ter sido montada somente com o intuito de fornecer os ingressos ao esquema.

Segundo os policiais, até 30% dos 823 ingressos encontrados com o grupo tinham estampados o nome do Comitê Olímpico Irlandês - o que configuraria atividade ilegal, já que os ingressos repassados pelo COI aos comitês nacionais não podem ser colocados à venda no mercado.

A THG diz que as acusações contra ela "não têm nenhuma base" e que Mallon não vendeu ingressos, mas sim os guardou para cedê-los a colecionadores.

"Guardar ingressos para coleção é prática comum para uma empresa autorizada em tempos de Jogos", disse a empresa, afirmando que vai se defender "vigorosamente" das acusações.

A Pro 10 afirma que "sempre agiu corretamente em linha com (as regras que regem) as empresas autorizadas" e que sofreu "perdas significativas" com a apreensão dos 823 ingressos pelas autoridades.

O Comitê Irlandês também se defendeu, dizendo não haver "nenhum indicativo de erro de conduta" pelo órgão.

Outros sete mandados de prisão estão pendentes: David Patrick Gilmore (irlandês), Marcus Evans (inglês), Maarten Van Os (holandês) e Martin Studd (inglês) já haviam tido prisão decretada na semana passada. Nesta quarta-feira, mais três mandados foram expedidos para Ken Murray (irlandês), Michael Glynn (inglês) e Eamon Collins (inglês).

Dos sete, o único de que se tem registro de passagem recente pelo Brasil é Michael Glynn, que esteve no Rio de Janeiro em junho. Os outros encontram-se provavelmente em seus países de origem. A polícia civil do Rio de Janeiro os considera foragidos e já alertou a Interpol.

Ministro irlandês

A polícia afirmou nesta quarta-feira que encontrou nos celulares de Patrick Hickey mensagens trocadas com seu advogado sobre como se portar durante a chegada do ministro do Esporte irlandês, Shane Ross, ao Rio de Janeiro no último domingo, para uma reunião com o presidente do Comitê Olímpico Irlandês justamente para discutir o caso dos ingressos.

"De forma geral, Shane Ross precisa 'ser colocado em seu lugar'. O COI é uma organização autônoma e atualmente está conduzindo sua própria investigação e o fará sem qualquer interferência externa", diz no e-mail enviado a Patrick Hickey o advogado Barry Mccarthy.

"Soubemos que o ministro do Esporte da Irlanda esteve aqui (no Rio) para saber dos fatos que estavam ocorrendo, já que havia sido veiculada a notícia de que parte dos ingressos pertencia ao Comitê Olímpico Irlandês", disse o delegado Ricardo Barbosa, à frente das investigações.

"O governo e a polícia da Irlanda estão muito preocupados, mas ainda não nos procuraram diretamente. Se nos procurarem, vamos colaborar", acrescentou Barbosa.

À imprensa britânica, o ministro Shane Ross disse nesta quarta-feira estar "chocado" por seu pedido por investigações independentes sobre o caso ter sido rejeitado pelo COI e quer que o governo irlandês conduza uma apuração própria sobre o caso.

A polícia aponta como chefe do esquema o britânico Marcus Evans, cujo paradeiro é desconhecido.

Segundo a polícia, o trabalho deve prosseguir nos próximos dias e não estão descartadas novas prisões e nem convocação de membros da cúpula do COI para depoimentos.

"Isso não está descartado. A investigação está em curso e teremos que ouvir todas as partes necessárias para o prosseguimento do trabalho", afirma Barbosa.

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