Quais são os seis tipos de vaias da torcida brasileira na Rio 2016

Claire Bates - BBC News Magazine

Da esgrima à natação, do basquete ao tênis, atletas foram intensamente vaiados no Rio de Janeiro. E enquanto as vaias são comuns na maioria das Olimpíadas - apesar da ideia de que seja um momento em que o espírito esportivo deve reinar -, já está claro que a Rio 2016 é mais barulhenta que os Jogos mais recentes.

A BBC News fez uma lista com os seis tipos de vaias mais comuns durante a Olimpíada no Brasil, na tentativa de explicar ao público internacional esse fenômeno que vem sendo um dos mais discutidos pela imprensa esportiva:

1. Vaiar por diversão

O público brasileiro tem uma tendência a escolher " um lado" - torcer por um time, ou um atleta, e vaiar os rivais. Mas eles podem trocar essa lealdade num piscar de olhos.

"Os torcedores brasileiros parecem ser bem igualitários. Eles são capazes de vaiar atletas de muitos países. É muito difícil de identificar o porquê da vaia a um outro atleta", disse o diretor de comunicação do Comitê Olímpico Internacional, Mark Adams.

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A mesma reação foi identificada pelo especialista em Jogos Olímpicos da Universidade de Salford, Andy Miah.

"Eu fiquei surpreso com o quanto eles são verbais e achei uma falta de espírito esportivo toda essa gritaria e vaia. Até eu perceber que era a forma que eles encontraram de se envolver com o drama do evento", diz.

"Não é malicioso. Eu estava na esgrima ontem e eles estavam vaiando os jogadores e depois torcendo muito e apoiando muito quando eles ganharam. É tudo parte do teatro que é o que eles curtem".

Ele ainda opina que há diferenças com Londres 2012: "era muito mais quieto, quase nunca tinha gritaria, só aplausos".

2. Vaiar os favoritos

O público na Rio 2016 demonstrou uma clara preferência pelos azarões. Em uma das primeiras partidas de basquete, os torcedores apoiaram a Croácia enquanto vaiavam os favoritos - a seleção espanhola. A Espanha então começou a perder e foi derrotada por 72-70.

Esse não é um fenômeno novo.

Durante a Olimpíada de Atenas, em 2004, por exemplo, os torcedores apoiaram a equipe de futebol masculino do Iraque - durante uma semifinal contra o Paraguai - e vaiavam cada vez que os paraguaios ficavam com a bola.

De acordo com o professor de história da mídia da Universidade de Sussex, na Inglaterra, David Hendy, a vaia é "uma tradição nobre" e um lembrete de que o espetáculo é sobretudo para o público, mais do que para os competidores.

"E o público sempre vê tudo em termos dramáticos - um conflito entre heróis e vilões", explica.

3. Vaiar os russos

Por causa a revelação de um esquema estatal de doping e da decisão do Comitê Olimípico de não suspender todos os atletas, os russos encontraram uma reação particularmente hostil do público no Rio de Janeiro.

As vaias começaram logo na entrada da delegação russa no Maracanã durante a cerimônia de abertura.

"Os russos sempre iriam ser vaiados porque muitos pensam que o COI não deveria ter comprometido os Jogos", diz Andy Miah.

A nadadora russa Yulia Efimova, que foi banida por 16 meses em 2013 e conquistou o direito de competir novamente no Rio de Janeiro depois de apelar ao Tribunal Arbitral do Esporte, foi vaiada durante toda a competição dos 100 metros peito nas eliminatórias e na final, na qual levou a medalha de prata.

Ela caiu no choro depois que o ouro foi para a americana Lily King, que comentou: "isso só prova que você pode competir limpa e ainda chegar ao topo do pódio".

O boxeador russo Evgeny Tishchenko demonstrou frustração com a reação negativa do público aos atletas russos.

"É uma pena que o público se comporte dessa forma, apoiando quem quer que esteja contra a Rússia", disse ele ao jornal Chicago Tribune.

"Estou bastante irritado com isso. É a primeira vez que eu enfrento esse tipo de tratamento. Para falar a verdade, estou um pouco decepcionado".

4. Vaias políticas

Ao declarar os Jogos Olímpicos abertos na cerimônia de abertura, o presidente interino Michel Temer foi vaiado.

Temer assumiu em maio depois da suspensão de Dilma Rousseff e foi vaiado apesar dito apenas uma frase. Mas as vaias quase se dissiparam em meio aos fogos de artíficio e à música, até porque o nome de Temer não chegou a ser anunciado.

Mas essa não é a primeira vez que uma Olimpíada é um catalisador para a insatisfação com a elite política de um país. O ex-chanceler George Osborne e a então ministra do Interior - e atual premiê - Theresa May foram vaiados na entrega de medalhas durante a Paralimpíada de Londres 2012.

"Foi uma resposta visceral e instantânea de um público indignado com as políticas para os deficientes físicos e que se sentiam sem voz", diz Hendy.

5. Vaias patrióticas

Os fãs brasileiros foram rápidos em demonstrar apoio aos atletas nativos ao vaiarem vigorosamente seus oponentes.

O tenista alemão Dustin Brown foi vaiado até depois de cair e torcer o tornozelo durante uma partida com Thomaz Bellucci, apesar de ter recebido aplausos e apoio quando se levantou para ser levado ao hospital.

O francês Renaud Lavillenie queixou-se publicamente da vaias que ouviu no Engenhão na noite em que perdeu de Thiago Braz no salto com varas. "Dei tudo de mim e não tenho nenhum arrependimento. Uma prova inacreditável! Só estou decepcionado com a total falta de respeito do público. Isso não é digno de um estádio olímpico", afirmou.

"As Olimpíadas sempre foram sinônimo de respeito internacional. Então as vaias podem distrair e até evitar que os atletas tenham o melhor desempenho", diz Rhonda Cohen, psicóloga do esporte da Universidade de Middlesex, na Inglaterra.

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O boxeador camaronês Hassan N'Dam N'Jijam certamente não ficou feliz ao perder a luta contra o brasileiro Michel Borges depois de muitas vaias pantomímicas. Segundo ele, o barulho pode ter influenciado os juízes.

Os atletas argentinos também foram vaiados durante a cerimônia de abertura só porque são... argentinos - nossos vizinhos e rivais, especialmente no futebol.

E há o caso da goleira da seleção feminina de futebol dos Estados Unidos, Hope Solo, que postou fotos nas redes sociais falando sobre o vírus da Zika e foi vaiada ao coro de "Zika!"durante a partida contra a Nova Zelândia.

Mas os torcedores não reservaram as vaias apenas aos estrangeiros. A performance ruim dos jogadores brasileiros da seleção de futebol também provocou vaias depois das partidas contra a África do Sul e o Iraque.

6. Vaia aos juízes

Até os juízes olímpicos caíram nas vaias do público brasileiro.

Como anfitriões, os brasileiros conquistaram uma vaga na final do salto sincronizado de 10 metros masculino, apesar de os atletas não terem chances na competição. Inevitavelmente, os juízes consistentemente deram notas baixas, gerando vaias nervosas do público.

Mas vale lembrar que nada se compara à final de ginástica masculina em Atenas 2004. O russo Alexei Nemov animou o público com uma rotina de barras arriscada, e, quando os juízes o avaliaram com notas baixas, ouviu vaias por sete minutos ininterruptos.

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