4 dias e muitas versões: As idas e vindas no assalto a nadadores que, diz a polícia, nunca existiu

Faz apenas quatro dias que o suposto assalto a quatro nadadores americanos no Rio foi noticiado, mas esse curto período foi suficiente para que o caso tivesse muitas reviravoltas.

Inicialmente visto como mais um episódio de violência no Rio, o relato dos atletas passou a ser encarado pela polícia como uma falsa comunicação de crime depois que informações desencontradas foram divulgadas.

Segundo o chefe da Polícia Civil, Fernando Veloso, as investigações já concluíram, por meio de testemunhas e do depoimento de um dos atletas americanos nesta quinta, que o assalto não ocorreu - e que o grupo se envolveu em uma confusão em um posto de gasolina.

Na véspera, o nadador Ryan Lochte, personagem principal do caso, havia sustentado a versão de assalto em entrevista à TV americana, ainda que mudando a versão inicial que havia contado.

Entenda, passo a passo, o caso.

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DOMINGO, 14 DE AGOSTO

Mãe de Lotche diz à imprensa que nadadores foram assaltados

O caso veio à tona quando a mãe do medalhista Ryan Lochte, Ileana, disse ao jornal USA Today e à Fox Sports Austrália que seu filho e outros nadadores americanos foram roubados após deixar uma festa no Club France, que faz parte da estrutura de hospitalidade montada pela França - durante os Jogos, governo de muitos países realizam eventos.

Ileana disse que Lochte e ao menos um colega estavam indo se encontrar com o nadador brasileiro Thiago Pereira quando o táxi deles parou em um posto de gasolina, e o grupo foi rendido por pessoas com armas e facas.

Segundo ela, Lochte e ao menos um de seus colegas estiveram sob a mira de uma arma.

"Eu acredito que eles estejam abalados. Havia alguns deles (bandidos)", afirmou a mãe do nadador ao USA Today, que relatou ter sido avisada do caso pelo filho via mensagem de texto. "Eles apenas pegaram suas carteiras, basicamente foi isso."

Comitê Olímpico Internacional diz que não é verdade

O técnico de Lochte, David Marsh, contestou o relato da mãe do nadador e disse ao mesmo USA Today que ele "não foi rendido" e que estava tentando descobrir o que examente havia ocorrido.

Porta-voz do COI, Mark Adams afirmou que a notícia de que Lochte havia sido rendido com uma arma "absolutamente não é verdade".

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Além disso, o Comitê Olímpico dos Estados Unidos (USOC) não confirmou que o atleta tenha sido assaltado.

"O USOC não confirma essa informação. Vamos esperar a confirmação dele e do comitê olímpico americano. Não temos nenhum relatório formal disso. Não foi feita, para nós nem para as equipes de segurança, nenhuma notificação formal", afirmou na ocasião o diretor-executivo de comunicações do Comitê Rio 2016, Mário Andrada.

Naquele momento, o porta-voz do comitê disse que o nadador americano estava dormindo - logo, esperava-se que ele acordasse para contar sua versão.

Lochte confirma incidente para o programa Today Show, da NBC

A rede americana NBC noticiou então ter confirmado que os nadadores Ryan Lochte, Gunnar Bentz, Jack Conger e Jimmy Feigen haviam sido assaltados à mão armada.

O próprio Lochte afirmou ao programa Today Show que o crime ocorreu.

"Nós fomos parados, no táxi, e esses caras vieram com um distintivo, um distintivo policial, sem luzes, nada além de um distintivo policial, e eles nos pararam", disse o atleta. "Eles sacaram suas armas, disseram para os outros nadadores para deitarem no chão, e eles deitaram. Eu me neguei, a gente não tinha feito nada de errado, então disse que não me deitaria no chão", descreveu.

"E então um cara sacou sua arma, engatilhou, colocou na minha testa e disse: 'Deite', e eu coloquei minhas mãos para cima", afirmou, ao explicar que mesmo assim não tinha se deitado no chão.

"Ele pegou nosso dinheiro, minha carteira... e deixou meu celular e minhas credenciais."

Comitê americano afirma que atletas foram assaltados

"Quatro integrantes da equipe olímpica de natação americana saíram da Casa da França na manhã deste domingo em um táxi, em direção à Vila Olímpica. Seu táxi foi parado por indivíduos que se passavam por policiais armados, que lhes pediram dinheiro e outros pertences pessoais", afirmou então Patrick Sandusk, um dos porta-vozes do Comitê Olímpico dos EUA.

Em comunicado, a Polícia Civil do Rio afirmou que investigava o caso. "Houve uma denúncia policial e os atletas serão escutados para prestar mais detalhes do crime."

Lochte confirma assalto nas redes sociais e depõe à polícia

Ouro no revezamento 4x100 m, o atleta publicou um post nas redes sociais contando o caso.

"Eu quero agradecer toda a minha família, amigos e fãs pelo gigantesco apoio e preocupação que eu recebi hoje. Embora seja verdade que meus colegas e eu fomos vítimas de um assalto neste domingo de manhã, o que é mais importante é que estamos a salvo e sem ferimentos", publicou Lochte.

À noite, o nadador prestou depoimento na Delegacia de Atendimento ao Turista - nele, repetiu o que havia dito um de seus colegas: estava bêbado e não se lembrava de detalhes do caso.

TERÇA, 16 DE AGOSTO

Jornal britânico divulga imagens de nadadores chegando à Vila Olímpica

Em vídeo registrado pelas câmeras de segurança publicado pelo Daily Mail, os atletas chegam à Vila Olímpica às 7h - eles haviam dito aos policiais ter deixado a festa no Club France por volta das 4h.

Segundo avaliação dos policiais, eles aparentam calma e não estarem tão bêbados a ponto de não poderem dizer onde haviam sido roubados nem que táxi os tinha transportado até o local.

QUARTA, 17 DE AGOSTO

Em nova entrevista à NBC, Lochte altera versão do caso

O apresentador da NBC Matt Lauer detalhou no horário nobre da emissora uma conversa que teve com Lochte.

Se antes ele havia dito à própria NBC que os ladrões, passando-se por policiais em uma falsa blitz, pararam o táxi, nesse novo momento afirmou que a abordagem ocorreu quando o táxi parou em um posto de gasolina para que os nadadores fossem ao banheiro.

Foi então, continuou, que dois homens com armas e distintivos se aproximaram do carro e ordenaram que os nadadores descessem e se deitassem no chão. "Quando eles voltaram ao táxi e pediram ao motorista para ir, disse Lochte, o motorista não respondeu, e os nadadores foram abordados na sequência", afirmou a NBC em texto sobre o caso.

Lochte também disse ao apresentador que a arma foi apontada em sua direção, o que não batia com sua descrição inicial sobre um revólver ter sido colocado contra sua cabeça.

Questionado sobre essas divergências, o nadador de 32 anos disse que foi uma "descaracterização traumática" (traumatic mischaracterization, no original em inglês) motivada pelo estresse do momento.

O apresentador também questionou o nadador se os atletas estavam tentando encobrir algum comportamento constrangedor. "(Mas ele) interrompeu-me rapidamente, negando enfaticamente aquilo", afirmou o jornalista.

Justiça determina retenção de passaporte dos atletas

Decisão emitida pela Justiça do Rio ordenou que os passaportes dos atletas fossem apreendidos para evitar que eles deixassem o país.

Segundo a polícia, a ideia era entender o que exatamente eles fizeram na madrugada do suposto assalto.

O Comitê Olímpico americano afirmou então, em nota, que "por questões de segurança" não poderia dizer onde os atletas estavam, mas reforçou que continuaria "a cooperar com as autoridades brasileiras".

"A polícia local chegou à Vila Olímpica nesta manhã e pediu para se encontrar com Ryan Lochte e James Feigen e recolher seus passaportes com o objetivo de assegurar futuramente o testemunho dos atletas. A equipe de natação saiu da vila após o fim da competição e nós não temos condições de apresentar os atletas."

Logo ficou claro que Lochte não estava mais no país.

Seu advogado, Jeffrey Ostrow, disse à BBC que o nadador retornou antes da expedição das decisões judiciais.

Gunnar Bentz e Jack Conger são retirados de avião pela polícia

À noite, Gunnar Bentz e Jack Conger, os dois que não haviam falado com as autoridades anteriormente, foram retirados por policiais civis do avião no qual deixariam o país no aeroporto do Galeão e levados para depor - segundo informações reveladas depois, eles se mantiveram em silêncio.

O quarto atleta, James Feigen, teria feito reserva de passagem online, mas não foi localizado pelos policiais.

Bentz e Conger foram liberados, mas com a condição de que voltassem a falar sobre o incidente nesta quinta.

18 DE AGOSTO, QUINTA

Reviravolta repercute intercionalmente e confusão em posto é revelada

Jornais e redes de TV dos Estados Unidos deram grande destaque à ação que impediu a saída do Brasil de Bentz e Conger do país.

E o caso assumiu ares de escândalo nas redes sociais, nas quais passou a ser comentado com a hashtag #lochtegate, referência a Lochte.

Alguns jornalistas defenderam os atletas, como a colunista de esportes do USA Today, Nancy Armour, que fez uma série de duras críticas às autoridades brasileiras: "A coisa mais esperta que Ryan Lochte fez foi sair da cidade", escreveu.

Mas depois foram reveladas as imagens das câmeras do posto de combustíveis da avenida das Américas, na Barrra da Tijuca, mostrando um desentendimento entre o grupo de atletas e funcionários do estabelecimento.

Segundo fontes policiais, eles teriam feito confusão e danificado o banheiro do local e foram liberados apenas após pagar pelos prejuízos. A polícia havia sido chamada, mas só chegou ao local quando eles já haviam sido liberados pelos seguranças, apontam as conclusões policiais.

Mais tarde, Bentz e Conger voltaram à delegacia para prestar depoimento, e em entrevista coletiva, o chefe da Polícia Civil, Fernando Veloso, disse que as investigações concluíram que não houve roubo, mas uma confusão no posto após os atletas terem praticados atos de vandalismo no banheiro do local.

Segundo ele, os nadadores pagaram R$ 100 e US$ 20 pelos prejuízos e foram libertados.

Veloso afirmou que um dos dois atletas americanos que foram impedidos de viajar - Bentz e Conger - admitiu não ter havido roubo durante depoimento nesta quinta - como ele não havia falado com a polícia antes, não pode ser acusado de falsa comunicação de crime, apenas esclareceu a versão contada pelo colega, disse o policial.

"Eles não foram vítimas dos fatos criminosos que relataram ter sido."

"Até o momento eles não pediram desculpas. Como pessoas públicas, que influenciam outros grupos de pessoas, eu acho que caberia um pedido de desculpas não à policia, mas aos cariocas, que viram a imagem da sua cidade manchada por uma historia fantasiosa, que já sabemos que foi fantasiosa", declarou Veloso.

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