'Esporte não oficial': como febre da troca de broches trouxe veteranos das Olimpíadas ao Rio

Camilla Costa - BBC Brasil

No início da manhã, antes mesmo que a loja oficial da Rio 2016 abra as portas para os visitantes em Copacabana, praticantes do "esporte olímpico não oficial" tomam seus lugares em mesas em frente ao local para garantir a "largada".

Alguns deles acumulam participação nas Olimpíadas de verão e de inverno dos últimos anos, mas, este esporte não requer muito treino. Basta conseguir seu primeiro broche olímpico ou "pin", como são chamados em inglês os distintivos, e propor uma troca.

Desde o início dos Jogos, Copacabana tornou-se um dos principais pontos de troca e venda de pins, que há mais de 30 anos é o mercado paralelo mais quente da Olimpíada.

"A mania explodiu nos Jogos de Inverno de 1980, em Lake Placid (EUA) e floresceu em Los Angeles 1984. Daí a coisa foi crescendo", diz à BBC Brasil o colecionador canadense Harvey Davids, de 72 anos, que está na sua 16ª Olimpíada praticando a "troca de pins".

"Hoje é realmente um esporte olímpico não oficial. Basta ver a quantidade de pessoas aqui."

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Desde as 09h até cerca de 23h, de fato, o movimento nas mesas onde ficam Davids e outros colecionadores estrangeiros não para.

Tradição

Eles conseguem seus adereços junto a delegações, patrocinadores e veículos de comunicação internacionais - que distribuem os acessórios para marcar presença nos Jogos.

A distribuição é gratuita, mas como as fontes são muitas, os colecionadores veteranos se reúnem num "mercado paralelo" para trocá-los.

"Os mais valiosos são os oficiais da Rio 2016. Primeiro os das delegações de cada países, depois os dos veículos de comunicação, em seguida qualquer um que tenha os mascotes e, por último, os dos patrocinadores", explica Davids.

O canadense mergulhou na onda dos pins em 1988, quando os Jogos de Inverno foram para sua cidade, Calgary, no Canadá.

"Eu já estava no negócio de colecionáveis, e no início esse era apenas mais um para mim. Mas gostei e faço isso desde então. E agora estou em Copacabana, num dia ensolarado, sabe?"

Com ele, está o grego Jannis Joannidis, um amigo que fez em Atenas 2004. Agora, os dois viajam juntos de quatro em quatro anos, e passam os dias provocando um ao outro - e negociando com os clientes.

"Ainda tenho amigos que conheci em 1987, antes da Olimpíada de Calgary, por causa dos pins. E vou fazendo mais amigos pelo caminho. É meu hobby agora", diz Davids.

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O câmbio dos pins é flutuante: os que vêm de patrocinadores podem ser trocados pelos de outras empresas ou alguns de edições passadas dos Jogos Olímpicos, que já circulam há mais tempo.

Já para conseguir os pins dos países pode ser preciso desembolsar mais de um broche menos valioso. Especialmente se o país em questão tiver uma delegação pequena - isso significa que menos exemplares do adereço estarão circulando.

'Give me pin, please!'

Entre atletas, membros de comitês, voluntários e funcionários da organização dos Jogos a troca de broches é, desde Paris 1924, uma tradição olímpica, segundo o comitê Rio 2016.

Nos anos 1980, o mercado paralelo foi oficializado em Lake Placid e em Los Angeles surgiu o primeiro centro organizado de troca, que atraía mais de 10 mil pessoas por dia.

A cada dois anos, voluntários como a universitária carioca Luanda Fragoso, de 19 anos, contraem a "febre do pin" e se juntam ao movimento olímpico paralelo.

"É o nosso 'mercado negro'. Às vezes a gente nem diz um 'oi, tudo bem'. Já vamos olhando a credencial e dizendo 'Quanto pin! Vamos trocar?'. Ou então 'eu pego água para você se você me der um pin. E assim flui", explica à BBC Brasil.

"Eu era completamente leiga nisso, não tinha trazido nenhum. Aí ganhei o primeiro, comecei a fazer trocas e fui crescendo no mercado do pin. No início, trocava pela conversa, por um sorriso, por um favor - brincando, claro, mas se rolasse um pin, ótimo."

Seu colega Jhonatas Gomes, um ator de 21 anos, diz que a troca já teve ao menos um efeito educativo, para além do acúmulo de broches. "Eu não falo inglês, mas já aprendi algumas coisas: 'You have pin for me? Give me pin please!'."

'Caíram dentro'

No ponto informal de troca e venda de colecionáveis em Copacabana, comerciantes brasileiros também se surpreenderam com a febre do pin.

"É um fenômeno. O pessoal daqui caiu dentro. Tem uns que nem perguntam preço, chegam pedindo três, quatro, cinco e saem levando", diz à BBC Brasil o pernambucano Ezequiel Cesar, de 50 anos de idade e 40 deles no Rio.

Cesar, um dos poucos brasileiros presentes, está ali para trocar e vender as moedas de um real especiais da Rio 2016 - cada uma delas sai por R$ 10.

"Agora, no fim da Olimpíada, a venda das moedas já está fraca, porque quem compra é estrangeiro e eles já têm. Mas os pins, não. As bancas aqui ficam cheias todo dia, toda hora", afirma.

A venda, tanto de pins quanto de moedas, é tratada com certo pudor pelos estrangeiros, que dizem ser principalmente colecionadores.

No entanto, a maioria deles compra broches genéricos da Olimpíada em seus países de origem - ou faz os seus próprios - para conseguir os mais raros no Rio e pagar pela jornada.

Em Copacabana, eles cobram de R$ 15 a R$ 30, a depender do valor do acessório. E se dividem em turnos e alguns chegam a dormir no local para assegurar seu ponto nas mesas de madeira.

"Em Londres, não me deixavam vender, mas aqui vendo alguns porque a viagem é muito cara. Não vou ganhar dinheiro, mas se puder ao menos cobrir a viagem, melhor", diz à BBC Brasil o espanhol Daniel García, de 26 anos, que é garçom em Madrid.

Ele veio ao Rio com o amigo Sergio González, de 33 anos, que está na quinta olimpíada. Para González, que começou a colecionar broches na infância, durante a "febre do pin" em Barcelona 1992, os exemplares mais valiosos também são o passaporte para a entrada nas arenas olímpicas. Desta vez, como espectador.

"Tenho ingressos para todos os dias, muita gente troca os pins por eles. Falei com um executivo da NBC (rede de TV americana) que me prometeu ingressos para a final de basquete. Vamos ver se ele volta aqui mesmo."

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