Atletas militares são 'estratégia de marketing', diz pesquisador

Joao Fellet - BBC Brasil

Ainda que batam continência ao subir no pódio, os medalhistas olímpicos brasileiros que integram as Forças Armadas não têm funções militares regulares e só aderiram às corporações para sobreviver como atletas, diz à BBC Brasil Márcio Antonio Scalercio, que pesquisa a história das corporações no Brasil.

Professor da PUC-Rio e da Universidade Cândido Mendes, Scalercio afirma que o Exército, a Marinha e a Aeronáutica passaram a incorporar atletas profissionais como uma "estratégia de marketing" e atrás dos mesmos benefícios que levam empresas a patrociná-los: "ganhar um olhar positivo da sociedade".

Segundo o Ministério da Defesa, o Programa de Atletas de Alto Rendimento foi criado com o objetivo de melhorar o desempenho do país nos Jogos Mundiais Militares, ajudar o Brasil a se tornar uma potência esportiva e desenvolver a ciência do esporte.

"As Forças Armadas brasileiras já desfrutam de um elevado conceito no seio da sociedade e não dependem de campanhas específicas de marketing para melhorá-lo", disse o vice-almirante Paulo Zuccaro, diretor de Desporto Militar do Ministério da Defesa.

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Mas o professor Scalercio diz que os atletas incorporados no programa não exercem as funções militares.

"Achar que esses atletas são militares é como achar que um atleta patrocinado pelo Banco do Brasil é bancário", diz Scalercio, autor de vários estudos sobre história militar, relações internacionais e o Exército brasileiro.

Segundo o professor, esses atletas "não acordam no quartel, não têm serviço de guarda, e a grande maioria não tem obrigação militar alguma".

Dos 465 esportistas que integram a delegação olímpica brasileira, 145 participam de um programa para atletas de alto nível criado pelo Ministério da Defesa em parceria com o Ministério do Esporte antes dos Jogos Mundiais Militares de 2011, no Rio.

A iniciativa deixou o Brasil no primeiro lugar da competição e foi ampliada para turbinar o desempenho do país nesta edição olímpica. Das 15 medalhas obtidas por brasileiros até esta quinta-feira, 12 vieram de atletas do programa.

Patriotismo ou aceno ao patrocinador?

A maioria dos medalhistas prestou continência durante a premiação (segundo as Forças Armadas, o gesto é facultativo).

Para Scalercio, a continência deve ser lida mais como um aceno a um patrocinador do que como uma demonstração patriótica. "Como no uniforme olímpico não é possível estampar os brasões das forças, uma maneira de conseguir projeção é quando o atleta bate continência ao ganhar a medalha."

O professor afirma que a exaltação aos atletas militares entre os brasileiros demonstra o prestígio das corporações, "embora boa parte da população não cogite nem por um minuto servir no Exército".

"No Brasil, exceto pelos oficiais, quem serve nas Forças Armadas são as classes subalternas. A classe média não quer nem saber de passar na porta do quartel", diz.

Ele afirma ainda que a popularidade das Forças Armadas indica que a associação entre as corporações e a ditadura militar (1964-1985) vem enfraquecendo. "A ditadura não é mais uma coisa recente, e já existe uma quantidade imensa de brasileiros nascidos depois desse período."

Investimentos em relações públicas

Antes das Olimpíadas, as Forças Armadas enviaram a várias redações de jornais, revistas e portais brasileiros um kit com informações sobre cada atleta militar. Cada vitória é celebrada nas redes sociais das instituições.

Segundo Scalercio, os militares brasileiros - como os de vários outros países - hoje dão grande peso a estratégias de relações públicas.

Ele afirma que o campo ganhou importância a partir da Guerra do Golfo, nos anos 1990, quando os militares americanos "montaram um baita time de marketing para o controle das informações".

Os militares brasileiros seguiram os passos dos americanos, diz o professor, e hoje têm "um pessoal bastante qualificado" dedicado ao tema. Muitos assessores de imprensa do Exército serviram no Haiti, onde ajudavam a coordenar visitas de jornalistas para reportagens sobre a força da ONU chefiada pelo Brasil. Vários falam duas ou mais línguas.

Scalercio não vê problemas na ênfase ao setor. "Eles estão defendendo suas instituições, faz parte do que se espera de corporações."

Militares temporários

Para participar do programa do Ministério da Defesa, os atletas devem passar por uma seleção e ter seu currículo e físico avaliados. São descartados os candidatos com "tatuagem aplicada em área extensa do corpo, que possa vir a prejudicar os padrões de apresentação pessoal e do uso de uniformes exigidos nas instituições militares".

Aprovados, tornam-se militares temporários, com patente de terceiro sargento e salário de R$ 3,2 mil mensais, além de benefícios da carreira e a possibilidade de treinar em instalações militares.

Segundo as Forças Armadas, os atletas passam por um treinamento militar básico, o mesmo dado aos demais sargentos. A participação no programa pode durar oito anos.

Alguns atletas foram incorporados pouco tempo antes da Olimpíada - caso do ginasta Arthur Zanetti, prata na disputa de argolas no Rio e que se tornou membro da Aeronáutica no mês passado. Na segunda, o técnico de Zanetti, Marcos Goto, afirmou que os militares pegavam atletas "prontos" e defendeu que investissem também em categorias de base.

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Problemas estruturais

Segundo Scalercio, o patrocínio a atletas profissionais é uma das várias atividades das Forças Armadas que não se relacionam com a defesa nacional, privilégio de um país que vive em paz com os vizinhos e não enfrenta ameaças militares relevantes.

Ele afirma, no entanto, que as corporações têm "um problema estrutural" e são pouco coordenadas entre si - o que exemplifica ao citar que militares da Aeronáutica, Marinha e Exército usam fuzis diferentes.

O professor elogia o trabalho social das forças na Amazônia, onde, entre outras funções, participam do atendimento médico a comunidades ribeirinhas, e defende a ampliação desse papel.

"Deveria haver um debate sobre o tipo de Forças Armadas de que precisamos", defende.

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