Com status de 'patinho feio e amaldiçoado', futebol masculino tem chance de redenção na Rio 2016

Fernando Duarte - BBC Brasil no Rio de Janeiro

Com uma história olímpica marcada por decepções que vão além de uma "maldição" em termos de resultados, o futebol masculino brasileiro conseguiu, durante boa parte da Rio 2016, angariar mais antipatia do que apoio da torcida.

Essa situação, porém, virou de ponta-cabeça nos últimos dias: neste sábado, a equipe liderada por Neymar enfrenta a Alemanha, no Maracanã, carregando as esperanças até dos setores do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) que não morrem de simpatia pela presença da modalidade nos Jogos.

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A medalha de ouro olímpica é o único título que falta à coleção de títulos da seleção de futebol brasileira, que conta com cinco Copas.

A seleção também tem a chance de fazer história pelo resto da delegação, junto com a dupla Isaquias Queiroz e Elton Souza, que disputarão também no sábado a final da prova da categoria C2 1.000 na canoagem.

Com uma vitória em um desses casos, o Brasil pode chegar ao sexto ouro nestes Jogos, superando sua melhor marca até agora - os cinco obtidos em Atenas (2004) e nesta edição.

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É uma atmosfera bem diversa da que marcou boa parte da campanha do time depois dos empates sem gols contra África do Sul e Iraque na primeira fase e da recusa dos jogadores em dar entrevistas após as partidas.

Para aumentar o "climão", a seleção feminina fez uma campanha que, pelo menos até a semifinal, impressionou pela eficiência em campo e atitude considerada mais humilde e mesmo olímpica na opinião de público e mídia.

Isso reforçou ainda mais a tensão normalmente existente entre a Confederação Brasileira de Futebol e o COB. No meio olímpico brasileiro, causa desconforto o distanciamento dos jogadores de futebol em relação ao resto da delegação.

Muitos atletas, treinadores e dirigentes de outras modalidades também se ressentem da divisão de espaço com o futebol, o esporte que tradicionalmente já concentra as atenções no Brasil.

A questão, por sinal, é internacional. A Fifa, entidade controladora do futebol, e o Comitê Olímpico Internacional (COI) nunca concordaram 100% em como ter o esporte nos Jogos.

Diferentemente da Copa do Mundo, em que as equipes podem levar os jogadores que bem entenderem, o torneio olímpico é historicamente marcado por restrições.

Até os Jogos de Moscou em 1980, era a proibida a participação de atletas profissionais, algo que impediu o Brasil de enviar seus melhores jogadores, incluindo um certo Pelé, que deixou o amadorismo quando tinha apenas 16 anos.

Com a entrada de profissionais, a Fifa começou a se preocupar com a possibilidade de o torneio olímpico virar uma "segunda Copa do Mundo".

Em 1992, nos Jogos de Barcelona, a entidade impôs um sistema em que, com exceção de três "coringas", todos os jogadores precisavam ter até 23 anos.

Só o que não mudou foi a rotina de tropeços do Brasil na busca pelo ouro. A participação do país teve início em 1952, mas a primeira vez que a seleção olímpica conseguiu chegar perto de uma medalha foi em 1976, quando perdeu para a então União Soviética na disputa do bronze.

A primeira medalha veio apenas em 1984, uma prata. Em três ocasiões (1980, 1992 e 2004), a seleção sequer conseguiu se classificar nas eliminatórias sul-americanas, também ao contrário da Copa do Mundo, em que esteve presente em todas as edições já realizadas.

A prata também veio em 1988 e nos Jogos de Londres, há quatro anos, desta vez já com Neymar em campo - e a seleção havia sido bronze em 1996 e 2008.

Ao contrário de outras campanhas mais recentes, porém, "a classe de 2016" é um dos times menos "badalados" já enviados pelo Brasil. Apenas Neymar, por exemplo, esteve em uma Copa do Mundo ou ocupa um papel de destaque no futebol internacional.

E, além da "maldição", a seleção enfrentará no Maracanã justamente o fantasma do 7 a 1 recebido da Alemanha nas semifinais do Mundial de 2014, em Belo Horizonte.

O Brasil, porém, chega embalado por uma sequência de três vitórias, 12 gols marcados. A equipe dirigida pelo desconhecido Rogério Micale também não sofreu nenhum gol em toda a competição.

"Sabíamos desde o início que jogaríamos sob pressão e isso (a mudança de expectativas) não muda coisa alguma. A medalha de ouro é o que nos interessa culturalmente porque ainda não a conquistamos, então vamos trabalhar da mesma forma", explica Micale.

Mas o principal trabalho do treinador é controlar a ansiedade também de milhões de torcedores que veem na partida uma chance histórica de redenção.

Equipes mais fortes, como a Argentina e o México, campeão olímpico de 2012, fizeram campanhas fracas e puseram adversários como Honduras no caminho de Neymar e cia até final. Fica no ar a impressão de "agora ou nunca".

"Vou ter outra chance (de ser campeão) em casa. Não haverá outra melhor. Nós jogadores estamos vivendo um sonho e é uma realização muito grande poder disputar a Olimpíada no Brasil", disse o jogador, em uma entrevista ao site da CBF.

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