Como os Britânicos evitaram 'ressaca olímpica' de pódios na Rio 2016 - e o que podem ensinar ao Brasil

Fernando Duarte - BBC Brasil no Rio de Janeiro

Diante do clima de celebração nacional que marcou os Jogos Olímpicos de Londres (2012), em que a equipe britânica obteve seu melhor resultado em termos de medalhas em mais de 100 anos, as autoridades esportivas do país alertaram para uma possível queda de desempenho na Rio 2016.

A postura conservadora agora parece modesta: em quadras, campos, pistas ringues e piscinas cariocas, o Team GB não só superou a quantidade de medalhas obtidas em casa como ainda obteve seu melhor resultado no quadro geral de medalhas (67) na era mais moderna dos jogos, ficando atrás apenas dos EUA e à frente da China.

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O desempenho britânico, ainda que tenha superado em apenas duas medalhas a competição de 2012, foi surpreendente porque desafiou uma espécie de lei de desempenho esportivo: países que sediam os Jogos têm apresentado queda de rendimento na edição seguinte da competição. Uma lista que incluiu os próprios chineses, ganhadores de 100 medalhas em 2008, quando Pequim foi sede, e de 88 em Londres quatro anos mais tarde.

Como explicar o sucesso britânico? A resposta não é tão simples, mas está intimamente ligada ao que o país "inventor" de uma série de esportes modernos pôde chamar de fiasco retumbante na Olimpíada de Atlanta, em 1996. Naquele ano, o Team GB terminou a competição com 15 medalhas (uma de ouro, oito de prata e seis de bronze), ficando em 36o lugar na classificação geral, atrás até do Brasil.

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O desempenho causou tamanha comoção entre mídia e público que o então primeiro-ministro, John Major, tomou a decisão de usar fundos das loterias britânicas para financiar o esporte de alto nível no país. Isso causou uma derrama de dinheiro: para os jogos 1996, o investimento foi de aproximadamente R$ 80. Para o ciclo olímpico de 2016, o valor total foi de mais de R$ 1,3 bilhão - menos que a estimativa de pelo menos R$ 2 bilhões investidos pelo Brasil no esporte de alto nível para a Rio 2016.

E foi mais de 10% maior que no ciclo olímpico de Londres 2012.

"Foram 20 anos de investimentos que resultaram em ciclo ciclos olímpicos consecutivos de crescimento no número de medalhas. Nenhum outro país conseguiu isso", disse neste domingo Bill Sweeney, presidente do Comitê Olímpico Britânico (BOA).

Bons resultados

As 15 medalhas certamente se multiplicaram em jogos seguintes, mas antes que alguém simplesmente veja uma correlação direta entre dinheiro e resultados, especialistas apontam para um característica interessante do programa britânico. O UK Sport, órgão responsável pelo gerenciamento dos recursos, não hesitar em priorizar modalidades que obtenham bons resultados e que ofereçam perspectivas de medalhas em pelos menos duas Olimpíadas.

Isso, por exemplo, ajuda a explicar o sucesso dos britânicos em esportes como o ciclismo, o que mais deu medalhas ao Team GB na Rio 2016 (12). O sucesso da modalidade em Londres, quando também conquistou 12 medalhas, valeu um investimento 36% maior que no último ciclo olímpico. Esportes que mostraram potencial em 2012, como a ginástica artística, também se beneficiaram de aumentos no orçamento - a ginástica britânica saltou de quatro para sete medalhas na Rio 2016, incluindo os ouros olímpicos inéditos de Max Whitlock.

Em contrapartida, esportes "periféricos" sofrem, sobretudo os que não têm tradição no país. Isso explica por que os britânicos sequer tiveram representantes no basquete e handebol na Rio 2016, modalidades que em Londres se beneficiaram da classificação automática do país sede.

Beneficiadas pelo dinheiro da loteria, as federações esportivas investiram em centros de treinamento e em tecnologia esportiva, além da procura por novos talentos.

A abordagem britânica tem seus críticos. "O sistema é eficiente, mas é brutal. Certamente há retorno de investimento, porque as medalhas estão aumentado. Mas há questões que podemos colocar aqui: o que dizer de esportes que não estão ganhando medalhas, como o basquete, mas que tem imenso potencial de recrutamento em centros urbanos britânicos", questiona Borja Garcia, especialista em políticas esportivas da Universidade de Loughborough, no Reino Unido.

Acadêmicos como Garcia se incomodam com a ênfase em resultados olímpicos diante de pesquisas mostrando tendência queda na participação da população em esportes na Londres pós-olímpica. "O argumento de que medalhas resultam em aumentos sustentáveis de participação esportiva não é perfeito", completa.

Autor de um dos livros mais comentados deste ciclo olímpicos, que discute as razões por trás do que se pode chamar de sucesso e fracasso de nações no quadro de medalhas, o pesquisador alemão Danyel Reiche, analisou o modelo esportivo de diversos países, incluindo o britânico. Ele elogia a eficiência dos britânicos, mas não acredita que seja um modelo universal.

"Existe uma tendência dos países de enfatizar apenas esportes que possam render medalhas, incluindo nações que investem ainda mais especificamente, como no caso da Jamaica (todas as 11 medalhas do país na Rio 2016 vieram do atletismo, incluindo os três ouros de Usain Bolt). O problema é que medalhas não refletem a popularidade de esportes. O mais importante me tudo isso é que a população pratique esportes", diz Reiche.

"Isso é especificamente importante no caso de países ocidentais enfrentando o aumento dos índices de obesidade em sua população, como também é o caso do Brasil. O Brasil pode aprender a organizar suas instituições de esporte de elite como faz a Austrália, e precisa promover cada vez mais a entrada de atletas femininas, como fizeram os americanos", completa.

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