Olimpíada em casa não basta para melhorar torcida brasileira, diz líder de 'Chapolins torcedores'

Camilla Costa - BBC Brasil

"Tem momentos em que me irrito com a torcida brasileira. Brasileiro só sabe torcer para MMA e futebol", reclama o paraense Rui Tofolo, de 28 anos, um dos criadores do famoso grupo dos "Chapolins torcedores", onipresente nas competições olímpicas.

A torcida brasileira chamou a atenção da plateia internacional durante a Rio 2016 e causou polêmica pelas vaias e pelo entusiasmo, considerado "excessivo" em alguns esportes. Mas Rui acha que o apoio aos atletas olímpicos deixou a desejar.

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"Quando um coro começa, tem que continuar por pelo menos cinco minutos. Mas, aqui, dura 30 segundos e para."

"No handebol, brasileiros só gritam quando o goleiro ou goleira defende. É necessário um lance expressivo para eles começarem a se empolgar. E não torcem quando o time está perdendo", diz.

Levantar os atletas olímpicos é a filosofia do grupo - formado por dez paraenses, um paulista e um cearense - que se veste como o personagem mexicano Chapolin Colorado, trocando as cores originais de sua fantasia, vermelho e amarelo, pelas cores da bandeira brasileira.

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Desde 2011, eles já estiveram nos dois últimos Jogos Pan-Americanos - em Guadalajara, no México, e em Toronto, no Canadá - na Olimpíada de Londres 2012, nos Mundiais de handebol feminino na Sérvia, em 2013, e na Dinamarca, em 2015, e no Mundial masculino no Catar, também em 2015.

Para a Copa 2014, no entanto, decidiram ir "à paisana", diz Rui.

"É muito fácil torcer para o futebol, mas e a nossa canoagem? Isaquias (Queiroz) ganhou três medalhas. A gente estava lá desde Toronto. O Brasil é carente de torcida nos outros esportes."

Apesar do entusiasmo dos brasileiros com a Olimpíada recém-terminada, ele não acredita que os atletas nacionais terão, a partir de agora, o apoio necessário.

"Precisaríamos de um pouco mais do que uma Olimpíada aqui para a torcida mudar. Precisamos ter mais campeonatos mundiais aqui, mostrar ao torcedor que há outros atletas. Hoje, a torcida que reúne os brasileiros é na quarta-feira e no sábado, quando há jogos de futebol na TV."

Rivalidade de mascotes

O grupo chegou ao Rio de Janeiro no dia 4 de agosto, munido de 720 ingressos e 500 bonecos do Chapolin brasileiro, chamado de "Medalhito" - uma novidade criada em 2015 para presentear o time brasileiro de handebol feminino, a "maior paixão" dos integrantes.

O mascote, no entanto, chegou às mãos do vencedor da primeira medalha do Brasil no tiro esportivo desde 1920, Felipe Wu.

A entrega do boneco aos atletas chegou a ser alvo de polêmica com o Comitê Rio 2016. Ao aparecer nas fotos de quase todos os medalhistas brasileiros, o Medalhito estaria ofuscando o mascote oficial dos Jogos, Vinícius.

"Mais perto do final (da Olimpíada), começou a incomodar a Rio 2016, porque eles não davam o mascote a todos os atletas. E o preço deles nas lojas é caro, acho que não supriram as expectativas deles de vendas", alfineta.

Segundo Tofolo, os organizadores abordaram o grupo em pelo menos duas competições para exigir que eles parassem de presentear os atletas, sob pena de serem removidos das arenas pela Força Nacional.

"No vôlei de praia feminino, chegaram a tirar os mascotes das mãos dos atletas e também de jornalistas mexicanos e brasileiros", diz.

"Nosso objetivo é apenas torcer, nós não ganhamos nada com isso, não temos patrocínio. E não rivalizamos com os mascotes oficiais. Temos até uma foto de todos eles juntos na nossa página no Facebook."

Procurado pela BBC Brasil, o Comitê Rio 2016 afirmou que "não há registro de qualquer orientação" para abordar torcedores com mascotes alternativos nos estádios.

'Filosofia'

O grupo dos Chapolins reúne pessoas de 26 até 45 anos, de profissões variadas como médico, estudante, enfermeiro e contador.

"Começamos com quatro integrantes em Guadalajara, para tentar trazer a torcida do México para o nosso lado. Foi um sucesso enorme", lembra Rui.

"Fazemos amizades com os presidentes de confederações, com os atletas. Nosso objetivo é que, quando as pessoas olhem para a arquibancada, saibam que a gente está lá."

A presença dos 12 Chapolins nos estádios e arenas da Rio 2016 chamou a atenção das emissoras de TV e dos participantes das redes sociais, que se perguntavam como eles conseguiam estar em todas as competições.

Todas não, mas quase, esclarece o gerente de projetos Rui, que criou o grupo em 2011 ao lado de seu irmão, Rubens, de 45 anos. "Não conseguimos ir às provas de tiro, porque coincidia com outros jogos."

"É cansativo. Havia dias em que tinhamos seis competições para ir. Nem sempre dá para ficar até o final", afirma Rui Tofolo.

O grupo considera o Mundial de handebol feminino na Sérvia, em 2013, a sua maior aventura dos Chapolins Torcedores.

"Na época éramos 11, os únicos brasileiros em um estádio de 25 mil pessoas. Vimos o Brasil ganhar um título inédito sobre a dona da casa. Os torcedores nos provocavam mesmo, eram hostis", relembra o paraense.

"Um rapaz chegou a nosso lado, disse que era sérvio, mas torceria para o Brasil. Depois do jogo, nos contou que ele e outros que estavam perto eram da polícia e estavam nos protegendo. Depois, nos pediram que tirássemos a fantasia, e saímos de lá num carro escoltado por eles. Até hoje, somos amigos no Facebook."

Por isso mesmo, os Chapolins não condenam os brasileiros pelas polêmicas vaias na Rio 2016.

"Isso é normal, os atletas têm de estar acostumados. Se o adversário vai jogar, você vai torcer como? Vaia mesmo! Já fomos a países onde é muito pior", diz.

Ele critica, no entanto, o que diz ser "falta de filosofia de torcida" em alguns casos.

"Ouvimos na esgrima e no boxe gritos de 'Uh, vai morrer' e ' Fura ela'. De onde se tira essa filosofia para torcer? Não estão entendendo o esporte."

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