Nos Brics, Temer procura afastar desconfiança do grupo sobre seu governo

Mariana Schreiber

Em Hangzhou (China)

  • EPA

    O presidente Michel Temer se reúne pela primeira vez com os outros líderes do Brics

    O presidente Michel Temer se reúne pela primeira vez com os outros líderes do Brics

O presidente Michel Temer participou da sua primeira reunião dos Brics após a cassação de Dilma Rousseff neste domingo, buscando dissipar as desconfianças sobre seu comprometimento com o grupo - que reúne as nações emergentes, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

O encontro informal dos cinco líderes ocorreu em paralelo à cúpula do G20 realizada em Hangzhou, na China.

Os Brics ganharam destaque durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que tinha entre suas metas ampliar o peso das nações em desenvolvimento na política externa brasileira.

A queda de Dilma e a ascensão de Temer, com a nomeação de José Serra para o Ministério das Relações Exteriores, levantou dúvidas sobre a possível perda de relevância do grupo na agenda brasileira.

Em seu discurso, Temer disse que "os países do Brics são forças positivas para a estabilidade econômica global" e reafirmou seu "compromisso" com o grupo.

Ele também defendeu uma agenda que costumava ser promovida por Dilma e Lula - a necessidade de reformar a governança do FMI (Fundo Monetário Internacional) e do Banco Mundial, para aumentar o poder decisório das nações em desenvolvimento nessas instituições.

"As mudanças em curso exigem a correspondente atualização das nossas estruturas de governança global. (…) Precisamos de instâncias decisórias internacionais mais representativas e, portanto, mais legítimas e eficazes", discursou.

Quando os Brics surgiram, havia um grande otimismo em relação aos cinco países. No momento, porém, apenas China e Índia têm apresentado crescimento econômico.

Em sua fala, porém, Temer procurou passar confiança na superação da crise brasileira e apresentou aos demais líderes as medidas que pretende adotar para equilibrar as contas públicas e retomar investimentos.

"Com as medidas tomadas nos últimos meses, já há sinais de retomada da confiança na economia brasileira. Estamos seguros de que, em breve, a nossa economia voltará a crescer, em benefício dos brasileiros e da economia global", disse.

Preocupação

Em junho, a agência de notícias estatal chinesa Xinhua chegou a publicar um artigo manifestando preocupação com uma possível perda de relevância dos Brics na política externa brasileira.

O texto foi assinado pelo diretor do escritório dos serviços em português da Xinhua no Rio de Janeiro, Chen Weihua, e pelo editor internacional da agência, em Pequim, Zhao Hui.

Embora a comunicação da estatal não seja uma manifestação oficial do governo chinês, o artigo funcionou como um canal para "passar recado" e "pressionar" o Itamaraty, apurou a BBC Brasil.

"Desde a criação do Bric em 2009 (antes da adesão da África do Sul, em 2010), o Brasil sempre priorizou as relações com os membros do bloco, no âmbito da cooperação Sul-Sul, uma escolha que o governo interino parece não ter intenção de manter", destacou artigo.

"O novo ministro das relações exteriores do Brasil, José Serra, anunciou, logo após o estabelecimento do governo interino, que os focos principais da 'nova política externa' brasileira são, dentro da América Latina, a Argentina e o México, e fora dela, os Estados Unidos e a União Europeia. No caso dos Brics, Serra se limitou a dizer que o Brasil vai se esforçar para aproveitar as 'oportunidades' que o bloco oferece, mas sempre tendo o comércio e os investimentos mútuos", diz a nota.

'Amizade'

Apesar da desconfiança inicial, o governo chinês parece agora empenhado em estabelecer uma boa relação com a administração Temer.

Na sexta-feira, o peemedebista teve um encontro bilateral com o presidente chinês, Xi Jinping, em que ambos se disseram "amigos".

Os dois já haviam se encontrado outras quatro vezes no passado, quando Temer era vice de Dilma e presidente da Câmara dos Deputados. 

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