Trump e Brexit: 5 fatores em comum

  • Chip Somodevilla/Getty Images/AFP

Certamente o Brexit e a vitória de Donald Trump são os dois eventos de maior repercussão internacional em 2016 - e talvez os mais impactantes dos últimos tempos. Mas eles estariam, de certa forma, conectados?

A comparação é atraente. Tanto o referendo que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia quanto a vitória do republicano surpreenderam atores políticos e econômicos e grande parte da opinião pública.

Em ambos, análises, pesquisas e as expectativas do mercado internacional foram contrariadas pelo voto popular. Também em comum, os dois eventos geraram incertezas sobre o futuro da política e da economia mundial.

Confira cinco fatores que podem conectar o triunfo de Trump e a vitória do Brexit.

1. Discurso anti-imigração

O discurso contra a imigração teve grande projeção tanto na campanha pelo Brexit quanto na retórica de Trump - o ressentimento de uma parte importante da população americana contra estrangeiros e refugiados foi capitalizada pelo republicano.

As promessas de deportação de 11 milhões de imigrantes ilegais e da construção de um muro na fronteira com o México fizeram o presidente eleito ganhar popularidade com esse grupo.

Preocupações com a imigração e, em especial, com o livre fluxo de cidadãos europeus também foram fatores determinantes para a mobilização do eleitorado britânico que votou à favor do Brexit.

O bordão de "retomar o controle das fronteiras" foi enfatizado na campanha conduzida por Nigel Farage e outros líderes dos movimentos pela saída da União Europeia.

A exemplo de vários outros analistas, Martin Sorrell, chefe da empresa de publicidade multinacional WPP, vê a imigração como um fator-chave para as escolhas de britânicos e americanos.

De acordo com ele, esse tema "inclinou a balança dos eleitores de forma significativa".

2. Decepção com a gerência da economia e reação contra a globalização

Diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, o brasileiro Roberto Azevêdo postou uma série de mensagens no Twitter felicitando Donald Trump. E dizendo:

"É claro que muitos sentem que o comércio não está funcionando para eles. Devemos enfrentar isso e nos certificar de que o comércio possa trazer maiores benefícios para a maioria das pessoas", escreveu.

A mensagem reflete o entendimento de que setores importantes da classe trabalhadora se sentem excluídos pelo processo de globalização - trata-se de um sentimento que ganha força tanto nos EUA quanto no Reino Unido.

Especialmente após a crise de 2008 essa camada da população tem visto os seus ganhos sofrerem reduções substanciais, enquanto empregos tradicionais se mudam para países emergentes ou em desenvolvimento.

Nos Estados Unidos, essa população se sente representada pelo discurso de Trump, que promete proteger as classes trabalhadoras americanas e impor barreiras comerciais.

A comparação com o Brexit nesse sentido já foi sugerida por David Axelrod, assessor de Barack Obama, em um artigo publicado em junho. Ele destacou que as mesmas forças antiglobalização que impulsionaram o Brexit também deram suporte à campanha de Trump.

"Há um aspecto fundamental que todas as economias desenvolvidas têm que enfrentar, que é o fato de que a globalização e as mudanças tecnológicas têm marginalizado milhões de pessoas, que têm visto seus salários diminuírem", escreveu Axelrod.

Já o analista da BBC Mark Mardell, que também tem comparado os dois fenômenos, faz uma ressalva e diz que esse sentimento não atinge somente aqueles marginalizados pela globalização.

Segundo ele, inclui os trabalhadores brancos sem curso superior, os mais velhos e aqueles que vivem no chamado cinturão da ferrugem, a região dos Estados Unidos de onde as fábricas se mudaram, deixando boa parte da população sem emprego ou perspectivas.

"Essa análise não está errada, mas não é suficiente," escreveu Mardell. "Essa é uma narrativa simplista sobre a economia que não faz justiça à complexidade do que ocorreu nos últimos 30 anos."

De acordo com ele, a desigualdade econômica e social e a insegurança das pessoas crescem em um ritmo muito mais acelerado do que a própria economia ou que as perspectivas gerais de melhora.

"Poucos políticos ousam dizer (à população decepcionada) que a automatização crescente da economia pode lhes tirar mais empregos do que os imigrantes. Você não pode deportar um caminhão guiado por piloto automático", salienta.

Larry Elliott, editor de economia do jornal britânico "The Guardian", também afirmou que parte da motivação para o Brexit foi a evolução, a longo prazo, da política econômica.

"O Brexit foi mais do que um protesto contra as oportunidades de emprego que nunca chegaram ou as moradias que não foram construídas. Foi um protesto contra o modelo econômico que prevaleceu nas últimas três décadas", escreveu em um artigo publicado em junho.

3. Pesquisas se mostraram erradas

Se a grande maioria dos analistas e as pesquisas estivessem corretas, Hillary Clinton seria a próxima presidente dos Estados Unidos.

Mas a vitória de Trump não é um ponto fora da curva. Ela representa um dos muitos fracassos nas previsões dos levantamentos recentemente.

Na medida em que as contagens de votos nos Estados Unidos avançavam, ficava claro que as pesquisas e projeções de que Trump não venceria estavam erradas.

Elas falharam em coletar amostras suficientes entre os setores brancos sem educação superior. De acordo com o jornal americano "The New York Times", boa parte desse eleitorado costumava votar no Partido Democrata, e as pesquisas falharam em refletir essa virada.

Esse grupo votou em massa em Trump.

Já o voto de minorias, incluindo afro-americanos e americanos de origem hispânica, foi superestimado. De fato esse grupo apoiou Hillary, mas não com a mesma intensidade com a qual votou em Obama quatro anos atrás.

No caso do Brexit, algumas pesquisas iniciais chegaram a afirmar que havia uma probabilidade de 88% de o Reino Unido permanecer na União Europeia.

Mas logo na véspera da votação elas já indicavam um resultado mais apertado - algumas apontavam empate técnico, com leve vantagem para a permanência na UE.

Assim como nos Estados Unidos, a contagem dos votos pegou todos de surpresa - inclusive o mercado internacional.

4. Demografia eleitoral é semelhante

Os analistas consideram que tanto no Brexit quanto nas eleições americanas houve a manifestação de um voto de protesto contra a classe política e o status quo.

Anthony Zurcher, analista da BBC, lembra que os Estados do centro-oeste americano, com ampla tradição de voto democrata, votaram à favor de Trump.

O "New York Times" destaca que cinco desses Estados, que haviam votado para Obama em 2008 e 2012, apoiaram o republicano. Em todos eles os eleitores brancos são maioria.

No Reino Unido, os votos da classe trabalhadora do País de Gales e da região norte da Inglaterra também foram decisivos para o Brexit.

Em ambos os casos, o apoio nas zonas rurais ou pequenas cidades teve uma média favorável à Trump e ao Brexit muito maior do que a média nacional.

Nos Estados Unidos, houve uma mudança: o eleitorado rural e suburbano que apoiou Trump costumava tender mais para o lado democrata.

Os eleitores mais velhos, acima dos 45 anos, também se posicionaram mais a favor de Trump e do Brexit.

5. Incertezas políticas e econômicas

As semelhanças entre as duas escolhas também ocorrem em relação às incertezas geradas pelos resultados.

A maioria dos eleitores dos dois países não mudou sua escolha pelo receio das consequências imprevisíveis do Brexit e da vitória de Trump para a política e a economia.

O triunfo do republicano pode significar uma ruptura com o modelo de livre comércio das últimas décadas e indicar uma era de protecionismo econômico.

Apesar de o Brexit não ter sido um voto pelo protecionismo, o eleitor britânico aceitou o risco de sofrer consequências nessa área, já que o pacto de livre comércio está ligado a outros princípios da União Europeia, como o livre movimento de pessoas.

Tanto o Brexit quanto a vitória de Trump colocam um ponto de interrogação sobre o gerenciamento e as tendências da ordem internacional.

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