O círculo oculto de amigos que foi pivô da prisão de Cabral

Das mesas de reunião do Palácio Guanabara, sede do governo do Estado do Rio de Janeiro, para as de restaurantes na Europa e de festas infantis.

Na petição de mais de 200 páginas entregue ao juiz Sergio Moro e à Justiça fluminense, o Ministério Público Federal sugere uma complexa rede de troca de favores pessoais e profissionais que envolve, desde assessores e amigos, até tia, filho, mulher e ex-mulher do ex-governador Sérgio Cabral (PMDB).

O resultado, segundo a força-tarefa, seria um prejuízo de pelo menos R$ 224 milhões de reais aos cofres estaduais, tudo fruto de desvios na reforma do Maracanã para a Copa de 2014, no Arco Metropolitano do Rio e no PAC Favelas, entre outras grandes obras.

Os pedidos de prisão feitos pelo Ministério Público Federal - que resultaram na Operação Calicute, uma nova fase da Lava Jato - apontam Cabral como "líder da organização criminosa que saqueou o Estado do Rio de Janeiro", que está, na visão dos procuradores, "literalmente falido em boa medida pela atuação desenfreada dessa insidiosa organização".

A partir desta petição, os juízes no Rio e em Curitiba determinaram uma megaoperação que envolveu oito pedidos de prisão preventiva, dois de prisão temporária, 38 mandados de busca e apreensão e 14 de condução coercitiva.

Para a acusação, evidências coletadas na quebra de sigilo de telefones, emails e contas bancárias revelariam pagamento de despesas de Cabral e seus familiares - que vão de vestidos de festa a contas de gás, além de equipamentos para fazendas e blindagem de carros, entre outros serviços.

Procurados pela BBC Brasil durante todo o dia por telefone e email, os escritórios de Cabral e seus advogados não responderam aos chamados até a conclusão desta reportagem.

Em nota enviada ao jornal O Globo, assessores do peemedebista disseram que "a família do ex-governador jamais pautou suas relações pessoais nem tampouco a convivência em sua residência pelos cargos ocupados por seus amigos."

Confira, a seguir, como o círculo íntimo do ex-governador do Rio de Janeiro, de acordo com as investigações da Lava Jato, teria se beneficiado por desvios milionários no Estado - que hoje amarga a pior crise financeira de sua história recente.

Familiares e códigos secretos

Um dos trechos mais intrigantes da petição da Procuradoria revela e-mails e fotos de papéis rabiscados por Luiz Carlos Bezerra com frases incompreensíveis, repletas de números e códigos.

Conhecido como "Bettegão", Bezerra é amigo pessoal de Cabral e foi assessor de orçamento da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro exatamente no período em que o peemedebista governou o Estado.

Assim como o ex-governador, ele teve mandado de prisão preventiva cumprido nesta quinta-feira.

"10 ou 11, passar Mimi's House 10 us magal e 2 zidane mansur"; "18 tocha para Maria 5a feira 23 tocha para piscina 50 sony 100 Mimi 60 Sonia falar com Maga cartao us 9. 31 covit, diegues e Maria... saldo ficará 163", dizem algumas das mensagens interceptadas pela Lava Jato.

Por meio da quebra de sigilos de milhares de telefonemas e mensagens eletrônicas, a força-tarefa tenta montar o quebra-cabeça por trás destes e-mails.

Segundo o Ministério Público Federal, eles revelariam uma "distribuição de dinheiro entre participantes da organização criminosa de forma também codificada".

A maioria dos códigos identificados pelos procuradores seriam na verdade apelidos atribuídos a familiares e amigos do ex-governador.

"Covitch" seria Maurício Cabral, irmão de Sergio Cabral. "Susi" seria a ex-esposa do ex-governador, Susana Neves Cabral. Já "Dri" ou "Adri", a atual mulher do político, Adriana Ancelmo. "Ramos", a alcunha de Pedro Ramos, assessor pessoal do peemedebista.

A lista inclui até a mãe de Cabral, Magaly Cabral, vulga "Magal", que teria recebido US$ 10 mil em dinheiro, além de ter as despesas de um "cartão de crédito em dólares" pagas por um dos investigados. Já a ex-esposa Susana teria recebido 10 mil euros.

As menções a familiares incluem ainda uma tia (alvo de um depósito de R$ 6 mil em dinheiro) e o filho de Cabral e Adriana Anselmo - R$ 1.070 teriam sido pagos em cachorros-quentes na festa de aniversário do menino.

Para o juiz Marcelo da Costa Bretas, um dos responsáveis pela investigação, as citações levantam a "suspeita de que se tratem de repasses ilícitos de valores a título de distribuição de propinas entre membros de organização criminosa, invariavelmente em benefício do investigado Sérgio Cabral e seus familiares".

'Amigos de infância'

"Lembra desta, meu irmão?... Estar com você é sempre lembrar coisas boas!", diz o mesmo Luiz Carlos Bezerra, em outra troca de emails.

A lembrança traz uma foto de uma reportagem do jornal O Globo, de 1996, que fala sobre a relação próxima dos dois e chama Bezerra de "amigo de infância" de Cabral.

Em uma fotografia reproduzida na petição, eles aparecem juntos na Europa, com suas respectivas mulheres, ao lado de Fernando Cavendish, dono da construtora Delta, preso em julho pela Lava Jato.

Segundo o Ministério Público Federal, Bezerra é apontado pela PF como "operador financeiro de Sérgio Cabral, tendo como função a contabilidade informal da organização criminosa por ele chefiada e a distribuição do dinheiro entre os seus membros e seus parentes".

Outros emails e ligações interceptados pelos procuradores revelam o que parece ser uma relação íntima entre Bezerra e a família Cabral.

Para falar com a atual mulher do ex-governador, Adriana Ancelmo, ele usava o apelido "Lindona".

'Homem da mala'

Entre os códigos de Bezerra também aparece "Mimi", codinome, segundo a força-tarefa, do consultor Carlos Miranda, um dos presos pela Polícia Federal.

Miranda é apontado pelos procuradores, citando delações premiadas de executivos das empreiteiras Andrade Gutierrez e Carioca Engenharia, como o "homem da mala" do ex-governador - a pessoa que recebia os valores das propinas pagas por empreiteiras.

De acordo com a Procuradoria, ele teria começado a carreira como "funcionário público comissionado" por indicação política de Cabral e, desde então, seria seu amigo pessoal.

Mas em 2007, quando Cabral foi eleito governador do Rio, Miranda abriu sua própria empresa de consultoria, que teve "uma inusitada e rápida ascendência financeira".

Segundo os procuradores, a empresa teve apenas um empregado fixo durante seus primeiros anos, mas imediatamente depois de criada passou a receber pagamentos de milhares de reais. Em 2013, chegou a faturar mais de R$ 2 milhões.

Assim que Cabral encerrou seu mandato, no entanto, o faturamento da empresa de Miranda caiu para R$ 7 mil. Logo em seguida, ele encerrou o negócio e passou a atuar como fazendeiro no interior do Estado.

'Caixinha'

A mais flagrante das trocas de emails destacadas pelo Ministério Público Federal como indício de propina chama-se, oportunamente, "Caixinha".

Ela partiu de Hudson Braga, ex-secretário de obras de Sérgio Cabral e coordenador de campanha de seu sucessor, Luiz Fernando Pezão (PMDB), ao governo do Estado.

Braga também foi alvo de prisão preventiva ao lado de Cabral na operação desta quinta-feira.

"O prazo dos senhores esgotou hoje e nenhum de vocês dois me trouxeram (sic) nada!!!!", exclama o ex-secretário, em email destinado a José Orlando Rabelo, citado por dois executivos da Carioca Engenharia como outro dos encarregados a repassar valores de propina.

"É lamentável eu ficar cobrando!!!", prossegue o ex-secretário de obras. "Gostaria de inverter essa lógica!!!".

Braga então faz um ultimato: "Não estou conseguindo mais ficar cobrando, minha pressão não está ajudando!!! Foi a minha última cobrança!!".

A mensagem é respondida no dia seguinte por José Orlando: "Secretário, falo na segunda pessoalmente com você sobre este item."

Preso nesta quinta-feira, Hudson Braga era, segundo os procuradores, o principal responsável pela cobrança da chamada "taxa de oxigênio" - que corresponderia a 1% dos contratos com as empreiteiras e iria para a Secretaria de Obras do Estado.

Roupas, gás, empresas

Alvo de um mandado de condução coercitiva (quando a pessoa é obrigada a prestar depoimento) da PF, a mulher de Cabral supostamente teve contas de gás, vestidos de festa e outros bens de luxo pagos pelos amigos do marido - apontados pelos procuradores como operadores do esquema.

A maior parte dos pagamentos foi feito em dinheiro vivo, segundo as apurações.

Para o juiz federal Sergio Moro, responsável pela Lava Jato na primeira instância, em Curitiba, "causa certa estranheza, por exemplo, a frequência de aquisições vultosas de bens móveis em espécie, como as feitas por Adriana Ancelmo, esposa do então Governador, v.g., de móveis com pagamento de R$ 33.602,43 em espécie em 05/2014, ou de dois mini bugs com pagamento de R$ 25.000,00 em espécie em 08/2015, ou de equipamentos gastronômicos com pagamento de R$ 72.009,31 em espécie em 03/2012".

O trecho destacado é parte do despacho assinado pelo juiz nesta 37ª fase da operação.

A investigação também levanta suspeita sobre o que chama de "crescimento vertiginoso" do escritório de advocacia da ex-primeira-dama durante os mandatos de seu marido no Rio.

No faturamento do escritório, estão pagamentos de empresas responsáveis por serviços públicos no Estado durante o governo de Cabral, como a Metrô Rio, a Oi/Telemar, a Light e a CEG.

Além delas, aparecem nomes de outras empresas suspeitas de terem realizado lavagem de dinheiro no esquema de propina envolvendo Cabral e seus amigos.

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