O liberiano que viajou escondido em navio e encontrou em hospital argentino a sua casa

Há 15 anos, o liberiano Mohamed Baldé, de 13 anos, desembarcava na Argentina após 27 dias de viagem clandestina, escondido no compartimento da âncora e da hélice de um navio.

"Quando vi que o navio estava parando, me joguei como pude nas águas do rio, esgotado, sem forças para fazer nada", contou pelo telefone à BBC Brasil.

Baldé diz que foi socorrido por dois homens, que o levaram para um hospital de San Lorenzo, na província de Santa Fé, onde hoje trabalha como enfermeiro.

"Tenho muito que agradecer a Deus. Cheguei aqui sem forças, sem documentos, sem falar espanhol, sem nada. E fui adotado primeiro por uma família e depois pela diretora do hospital, minha mãe adotiva", disse o liberiano, que fala espanhol com sotaque quase imperceptível.

Viagem sem rumo

No fim de 2001, Baldé e um amigo embarcaram no navio de bandeira filipina Aurora Emerald, segundo informou a imprensa local, sem saber onde a viagem terminaria.

"Nós ficamos numa escada perto da hélice e, cada vez que ela girava forte, jogava água salgada na gente. Ficamos com os lábios todos cortados."

O amigo, dois anos mais velho, morreu de frio e fome durante a viagem.

"Tentei conversar com ele e estava duro, sem se mexer", relembra, com a voz embargada.

"Resgatamos o jovem Mohamed Baldé, que vestia apenas uma espécie de bata fina, após ele ter viajado desde a África sem água e sem comida. Encontramos seu companheiro de viagem sem roupa e morto, aparentemente de frio", relatou, na ocasião, Ángel Riquelme, chefe da Polícia Marítima de San Lorenzo.

A fuga

Baldé morava na aldeia Harper, na Libéria, onde se fala o dialeto susu.

Durante sua infância, o país foi palco de uma série de conflitos armados, que tiveram início durante a ditadura de Samuel Doe (de 1980 a 1990). A oposição ao regime levou ao assassinato do seu pai, morto na sua frente.

"Meu país estava permanentemente em guerra, e as mortes ocorriam por diferenças políticas. Foi assim que mataram meu pai na minha frente. Ele não queria me entregar para trabalhar (com um dos grupos)."

O enfermeiro lembra que resolveu fugir após uma explosão surpreender a ele e outras crianças e professores no colégio.

"Eu fugi porque queria encontrar um lugar onde me sentisse protegido."

Após caminhar vários dias, inclusive pela selva, Baldé chegou a Forécariah, na Guiné, onde morou em uma fundação para crianças de rua e, em seguida, no porto local. Quatro anos depois, ele e o amigo embarcaram no navio filipino.

"Eu me sentia muito só e queria fugir dali. Me sentia abandonado, esquecido. Passei meses comendo sardinha e manga. E muito solitário."

"Hoje tenho que pedir desculpas à tripulação do navio porque, sem saber, trouxeram uma pessoa sem documentos e tiveram problemas com a alfândega argentina", acrescenta.

Aos 28 anos, Baldé afirma que a Argentina hoje é seu país e que pretende no futuro localizar sua família na Libéria: a mãe, um irmão gêmeo e uma irmã.

"Aqui fiz amigos, tenho trabalho e família. Uma benção pra mim. Não entendo porque as pessoas reclamam às vezes de coisas tão tolas. Depois do que vi e vivi, fica ainda mais difícil entender as queixas por poucas coisas."

No hospital em que foi resgatado e trabalha atualmente, todos conhecem a sua história:

"Todos aqui conhecemos a vida e a história de Mohamed. Ele chegou desnutrido, morou no hospital e hoje trabalha na enfermaria", contou Lucinda Madrid, recepcionista da emergência, que trabalha há nove anos no local.

Mãe adotiva

Cada vez que cita o nome da mãe adotiva, Baldé fica com a voz fica embargada.

"O nome dela é Adelina del Carmen Ontivero. Foi ela que me colocou na escola, que me orientou, que comprou roupas para mim, foi ela que me educou aqui."

Adelina morreu há seis meses - ele tatuou seu nome nos braços.

Questionado sobre o motivo de não tentar usar as redes sociais para procurar sua família na Libéria, ele responde:

"Quando eu morava lá, era um telefone para toda a aldeia. Não acredito que tenha mudado muita coisa."

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