Por que as grandes petroleiras continuam investindo na Venezuela apesar da crise

Nem as nacionalizações em série e a atual turbulência política na Venezuela são capazes de fazer com que grandes petroleiras percam o interesse nas reservas do país.

Para multinacionais que operam ali, as perspectivas de lucros e dividendos compensam o risco de investir em lugar em crise, o que mantém a Venezuela na lista dos maiores exportadores de petróleo do mundo.

"A produção de petróleo é um negócio muito arriscado, mas é ainda mais arriscado investir em países que não têm petróleo", afirma um diretor de uma multinacional que atua em terras venezuelanas.

Até as empresas que travam batalhas judiciais com o governo preferem ficar no país.

Um exemplo: em 2008, um ano antes de ter sua empresa no país expropriada e no meio de uma disputa na Justiça, uma grande empresa americana investiu cerca de US$ 2 milhões na busca por informações sobre a faixa petrolífera do Orinoco, localizada no noroeste da Venezuela - onde se encontra a maior reserva certificada de petróleo do mundo.

"Mesmo sofrendo confiscos e nacionalizações mais agressivas que as promovidas em outros países, as empresas vão ficando aqui", comenta o economista Alejandro Grisanti.

Apesar da queda do preço do barril de petróleo e da acirrada disputa política no país, as reservas no subsolo venezuelano continuam atraindo empresas do mundo todo, como a russa Rosneft, a espanhola Repsol, a norte-americana Chevron, a italiana ENI, a indiana ONGC e a chinesa CNPC.

Estratégia comercial e política

Além das perspectivas de lucro, investir na Venezuela também faz parte da estratégica política de muitos países, interessados em assegurar a presença, ainda que apenas comercial, na América Latina.

"A Faixa do Orinoco tem empresas que representam diferentes países que compõem o Conselho de Segurança das Nações Unidas. Isso dá uma ideia da visão estratégica e comercial de investimentos na faixa petrolífera", explica Fernando Travieso, economista especialista em indústria de hidrocarbonetos.

Quase todas as grandes companhias do setor estão operando na Venezuela.

Entre as ausências de maior destaque estão a ConocoPhillips e ExxonMobil. Em 2007, as duas empresas não aceitaram o decreto de nacionalização assinado na gestão do então presidente Hugo Chávez, que ordenou a formação de empresas mistas, de forma que o governo venezuelano pudesse participar do controle das petroleiras.

O decreto de Chávez levou a expropriações, litígios e compensações financeiras.

'Estamos perdendo dinheiro'

A decisão de ficar não significa que as multinacionais que operam na Venezuela não sintam o impacto da crise política e econômica no país.

Os problemas se intensificaram nos últimos anos, com o recrudescimento da disputa entre os apoiadores do atual presidente, Nicolás Maduro, e seus oposicionistas.

"Estamos perdendo dinheiro", dizem trabalhadores de petroleiras estrangeiras que concordaram em falar com a BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC, sob a condição não terem seus nomes revelados.

Nenhuma das grandes empresas quis fazer qualquer comentário oficial sobre seus negócios no país.

De forma geral, o gás e petróleo explorados pelas companhias mistas precisam passar pelas mãos da PDVSA, a estatal petrolífera venezuelana, para que ela se encarregue da exportação e do repasse dos dividendos à empresa privada.

E desde que a crise se intensificou no país, há relatos de que o pagamento desses dividendos está demorando mais a ser feito.

Mas por que as companhias lamentam esses problemas quase sempre em silêncio?

A resposta pode ser a atual situação financeira da estatal PDVSA. "Não podem pagar, ficaram sem dinheiro", disseram à BBC Mundo fontes que pediram o anonimato.

Elas observam que os atrasos coincidiram com a queda do preço dos barris em 2014. A estatal, contudo, nega estar com problemas.

A PDVSA é muito mais que uma petroleira. Como o petróleo representa 97% de cada US$ 100 que entram na Venezuela e o país importa quase tudo, incluindo alimentos, ela é considerada a base da economia local.

O 'banco' PDVSA

Analistas concordam que é a estatal atua, na prática, como um "megabanco" para o país. O dinheiro que vem do petróleo ajuda a bancar projetos sociais do governo e agora, em tempos de crise econômica, também está sendo usado para comprar comida.

A própria estatal reconhece esse papel, que vai além de explorar e exportar petróleo, de acordo com texto apresentado a investidores recentemente.

Na ocasião, estava em curso uma operação que serviu para adiar o pagamento da dívida venezuelana e aliviar o fluxo de caixa do país.

"Somos obrigados pela lei venezuelana a fazer contribuições significativas para programas sociais", disse o documento da PDVSA, segundo o site venezuelano Prodavinci.

"Entre 2011 e 2015, as contribuições sociais consumiram, em média, de 14% de nossa renda (...). Não podemos assegurar que não vão aumentar no futuro, com impacto material sobre nossos negócios, nossos resultados operacionais ou nossa posição liquidez, nem na nossa capacidade de honrar compromissos financeiros ou outros pagamentos."

As contribuições sociais estão cada vez menos sustentáveis, em especial por causa da queda do preço do petróleo. Estima-se uma redução de 50% desde 2014.

De acordo com os números que a PDVSA reportou à Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), a produção começou a caira partir do pico de 3,20 milhões de barris por dia (mb/d), registrado em setembro de 2008.

No final do ano passado, a estatal contabilizou produção de 2,57 mb/d e, em agosto deste ano, de 2,33 mb/d - uma queda de quase 30%.

Os analistas atribuem o declínio à falta de investimento e à gestão de uma empresa que não se dedica exclusivamente ao petróleo.

A estatal lida, no momento, com uma equação complicada: produção menor, petróleo mais barato e repasses de recursos a outras áreas para reagir à crise.

E o resultado afeta diretamente as grandes petroleiras que operam na Venezuela.

Impacto

A espanhola Repsol descreveu em seu mais recente relatório um cenário de "economia hiperinflacionária" para a Venezuela. E, no final do ano de 2015, registrou uma deterioração do seu balanço em 408 milhões de euros no país.

A justificativa para o impacto na situação financeira das empresas não se limita à queda do preço do petróleo. São atribuídas também às incertezas associadas à atual situação política e econômica venezuelana.

Ainda assim, a Repsol assinou em outubro acordo com a PDVSA para investir mais US$ 1,2 bilhões na Venezuela.

De acordo com o ministro de Petróleo e presidente da PDVSA, Eulogio del Pino, o acordo prevê duplicar a produção da Repsol em território venezuelano.

"A PDVSA deixa as multinacionais fazerem todo o esforço de investimento e, em seguida, decide quanto vai alocar de dividendos para elas. É uma sociedade desigual", critica o economista Asdrúbal Oliveros.

Reservas comprovadas

No entanto, os riscos políticos e a natureza dos acordos firmados com a PDVSA valem a pena não apenas para a Repsol como para outras petroleiras que atuam num dos países mais ricos em petróleo do mundo.

"Na Venezuela, as reservas são comprovadas, os custos de produção são extremamente baixos e o potencial de energia é maior ou igual ao da Arábia Saudita, que é o principal produtor do mundo", diz o especialista Alejandro Grisanti.

A faixa petrolífera do Orinoco tem as maiores reservas do mundo em uma profundidade mediana, tornando fácil a exploração.

Também é encarado como um facilitador a infraestrutura necessária para a exploração. Ainda que um pouco deteriorada, dizem os críticos, ela já está pronta.

Além disso, o clima é sempre bom e, apesar dos confrontos políticos entre governo e oposição, a Venezuela é considerada um país relativamente seguro, especialmente se comparada aos produtores de petróleo sempre em guerra no Oriente Médio e na África.

Além disso, especialistas avaliam que é difícil para uma empresa estrangeira entrar no país e, por isso, uma vez dentro do mercado e com todas as licenças do governo, a melhor estratégia é permanecer e evitar desapropriações - mesmo que, para isso, seja necessário reduzir a produção e minimizar custos.

"É uma aposta de longo prazo", avalia o economista Asdrubal Oliveros.

O objetivo dos que permanecem operando na Venezuela é evitar mais perdas financeiras e manter as operações, explica o economista.

Para ele, o que garante que a presença das grandes companhias de petróleo é uma espécie de "controle de danos" enquanto aguardam melhores condições de operação ou a chegada de outro governo.

"Eu acho que produzir petróleo na Venezuela é muito barato e simples. O potencial do país faz com que se mantenha a esperança de reabrir o setor de petróleo", avalia o também economista Alejandro Grisanti.

Jogo político

Além do grau de rentabilidade econômica, está em jogo também uma disputa internacional.

Países como China, Rússia e Índia têm comprado, por meio de suas petroleiras, títulos da dívida do governo da Venezuela que, por sua vez, dá a essas nações novas licenças para explorar petróleo ou minerais.

A Rússia é um dos países que tem sinalizado uma aproximação política, indo além dos acordos para explorar e vender petróleo.

Em 7 de outubro, ficou evidente não apenas o nível dessa relação como o valor político que o petróleo tem na Venezuela.

O presidente venezuelano Nicolás Maduro e o russo Igor Sechin, da Rosneft, participaram da inauguração de um ginásio e de uma estátua de seis metros do falecido presidente Hugo Chávez.

Ambas as obras foram um presente da estatal russa de petróleo, cuja presença na Venezuela cresce à medida que os laços entre Caracas e Moscou são reforçados.

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